segunda-feira, 27 de junho de 2011
O MANSO
Seu estado contemplativo foi interrompido pelo estalo da maçaneta, do tipo manivela, sendo girada. Em seguida, a porta de ferro foi fechada com a mesma brusquidão. Não tinha como virar a cabeça para ver quem poderia ser. Foi subitamente virado de bruços, ainda sem saber por quem. Notou, ao seu lado, uma jovem despida. Rosto angelical e seios fartos. Os mamilos eram tão claros que mal se destacavam. Seria extremamente bela, não fosse tão branquela. Peraí, ela estava morta. Como assim? Então ele também teria de estar. O barbante deveria estar prendendo uma etiqueta.
Sem sobreaviso, foi surpreendido com uma pontada seca nas entranhas. Tão logo se recompôs, sofreu com a ardência dos movimentos bruscos e repetitivos a que estava sendo submetido. Era só o que me faltava, pensou. Ser enrabado depois de morto.
Como não havia absolutamente nada que pudesse fazer para sair daquela situação, o jeito era esperar. Afinal de contas, Amâncio estava acostumado a ser o passivo da situação. Talvez até por isso tenha ido parar ali.
Ainda na infância, conquistou o apelido de Manso. A reputação custou-lhe tantas porções de merenda. Um par de tênis brancos, sua primeira aquisição com o suado dinheirinho, tão logo se foi. Um boneco de gesso, que carinhosamente apelidou de João, também se foi. Sem contar alguns molares que foram cuspidos de sua boca nas poucas brigas de que não conseguiu se safar. Dê a outra face, dizia dona Marta, a sua mãe. Assim, Amâncio conseguia manter uma simetria nas janelinhas que se abriam.
Em casa, era a mesma coisa. Bastava quebrar um prato ou cometer qualquer outro deslize doméstico para que seu pai descesse o braço. Ou a cinta, com a qual deixava suas nádegas em carne-viva. Aquelas noites atordoantes sempre acabavam com dona Marta, escondida, levando-lhe um prato de canjica na cama. Os mansos herdarão a Terra, dizia ela.
Até mesmo Donatinho, quatro anos mais novo, começou a botar banca logo que atingiu estatura suficiente para empurrar-lhe no chão. Seguiram-se noites frias, com o irmão menor dormindo com duas cobertas e Amâncio, sem nenhuma.
Na crisma, quando conheceu Maria, uma moça linda, de sorriso gentil, achou que sua sorte iria mudar. Casaram-se virgens, aos 18 anos. Mas não demorou o vestido de renda da moça passasse a se erguer para o primeiro que aparecesse. Sua cama voltou a ser fria.
Nessa época, Amâncio perambulava de um lado para o outro no restaurante. Tinha um dom natural para servir. Doze horas por dia, até que a ponta de sua meia se penetrasse na unha encravada. Da qual a se desvencilhar no final da noite.
Enquanto isso, Maria era montada a torto e a direito. Debruçada no tanque, de ladinho na cerca de bambu, cavalgando loucamente na cama do esposo. Lá ia ele, na manhã seguinte, tentar remendar o estrado. Com fita, prego e tocos de madeira. Você é tão incompetente,dizia ela, quando se deitava e o rebite sedia novamente. Para agradar sua amada, comprou outra cama. À prestação, no carnê da Marabrás. Meses depois, o móvel passou a apresentar o mesmo problema. E seu lado da cama continuava frio.
Certa noite, Maria passou mal do estômago. E lá foi ele levar canjica na cama para ela. Mas tu é muito imbecil mesmo, disse Maria. Eu ruim da barriga e quer que eu coma canjica? E lá foi ele, na calada da noite, achar remédio para ela melhorar da barriga. Ainda assim, dormiu no sofá. Não por opção.
Quando a criança nasceu, carinhosamente o chamou de João. Mal sabia que era o nome do pai. Quando o bebê chorava, no meio da madrugada,era Amâncio que se esgueirava de baixo das cobertas para fazê-lo dormir. Prestes a pegar no sono, o menino olhava em seus olhos. Envergonhado, ele desviava o rosto. Sempre evitou contato visual, seja com quem fosse.
No ponto de ônibus, ou na ladeira que subia ao voltar para casa, era chamado de tudo que era nome. Corno. Manso. Até mesmo sócio, ouviu alguém gritar, de um carro que passou. Era hora de mudar. Sapopemba era mesmo fora de mão.
Quando o segundo filho nasceu, Amâncio nem se surpreendeu que o tom de pele do menino fosse mais escuro. Desta vez, dona Odete, da venda, foi ter com ele. Por causa de Maria, o marido estava passando tempo de mais fora de casa. São Mateus não era tão distante assim.
Lá, não tardou para que Maria embarrigasse novamente. Caso sério, as estripulias com Joaquim, da oficina, não pararam nem depois de a criança nascer. Amâncio chegou até a notar uma cueca, que não era das suas, tremulando no varal.
Naquela noite, quando chegou do serviço, o mecânico estava mandando ver em sua esposa enquanto as três crianças choravam no quarto ao lado. A cama de casal havia ido parar no meio do quarto. Pela primeira vez, Amâncio resolveu tomar uma atitude. Maria não poderia mais chamá-lo de frouxo.
Pegou um abajur na sala, voltou ao quarto e quebrou-lhe na cabeça do amante. Este, ainda pelado, não demorou a se recuperar e logo pegou Amâncio pelo colarinho e atirou-lhe contra o armário. Maria tentou intervir e tomou um safanão. O marido se levantou e investiu contra o mecânico, que reagiu com um soco no meio da cara. Sai daqui, Amâncio, ele vai te matar, bradou Maria. Pra quê? Amâncio correu até a cozinha e apanhou uma faca de carne. Acabou com ela cravada no próprio peito. Doeu menos que ser currado no necrotério.
Terminado o procedimento, Amâncio foi limpo com pano e álcool, desvirado na maca, coberto com um manto branco. Trancaram-lhe na gaveta. Como fazia frio lá dentro.
terça-feira, 15 de junho de 2010
A MULHER DO PRÓXIMO
– Oi.
– Oi – repetiu Joana, do outro lado da linha.
– Tudo bem?
– Estou no Armazém – respondeu.
Armazém era um bar amplo, porém simples. Escuro, oferecia mesas de madeira rústica, serviço relapso e cerveja de garrafão servida em copo americano. Thiago já havia estado lá com Joana por diversas vezes e fez questão de explicitar seu álibi para assegurá-la de que não havia tentações. Era um local mais freqüentado por tipos ensebados, predominantemente homens, que queriam afogar as tensões de um dia de trabalho. Gravata afrouxada em volta do colarinho da camisa branca amarrotada era o figurino de lei.
– Tô tomando uma cerveja com o Marcelo – continuou.
– Mas que horas você saiu do trabalho?
– Seis e meia, por quê?
– Porque eu acho incrível como em um dia que você sai mais cedo do escritório, ao invés de vir para casa ficar comigo, vai para o Armazém encher a cara com os seus amigos.
Thiago não quis dignificar essa reclamação com qualquer reflexão. Por alto, sentia-se incomodado e perplexo perante essa obsessão de Joana em “ficar junto”. Dizia para si mesmo que tinha o direito de ir e vir, de manter a sua autonomia e não o lar como destino obrigatório após cada dia de trabalho. Ela estava lidando com uma ovelha desgarrada e precisaria se acostumar com isso.
– Meu amor, para de me policiar. Uma noite que eu tiro para colocar o papo em dia com um amigo, você vai criar caso?
- Amigo que você não vê há tempos, colega de trabalho, chefe, todo mundo é desculpa e cada um deles é mais importante do que eu.
- Joana, não viaja. Por favor, não transforme isso em algo maior do que é.
- Não viaja, não!
- Joana, eu vou desligar, isso está ficando ridículo.
- Não desliga na minha cara!
- Vou desligar porque vim aqui com o Marcelo e ele está tendo que escutar tudo isso que não lhe diz respeito. A gente conversa em casa, não vou demorar.
- Mas...
E fechou o flip do celular.
- Problemas no departamento conjugal? – perguntou Marcelo.
- Guerra conjugal, para ser preciso. Tô precisando de alguma coisa mais forte, me acompanha?
- No quê?
Nem aguardou o aval de Marcelo e se dirigiu a Genival, o garçom, pedindo a costumeira garrafa de “filho do Jaime”, como se referia ao whiskey Jameson. O silêncio imperou, até que a garrafa chegou à mesa e cada qual se serviu.
- Mas eu preciso conhecer a sua esposa – retomou Marcelo, procurando quebrar o gelo.
- Muita coisa aconteceu nos últimos cinco anos que você não ficou sabendo – retrucou Thiago.
- Eu sei mais do que você imagina, meu amigo – bancou.
Vendo que a conversa seguia um rumo provocativo, Thiago mudou o tom.
- Sabe, sim – ironizou. – Nos últimos cinco anos, você só aprendeu a lamber sovaco peludo de vagabunda francesa enquanto a grana do seu pai ia pelo ralo com o seu mestrado.
- Mas eu te garanto que aprendi mais com as putas da Rue Saint-Denis do que teria aprendido com qualquer professor da Sorbonne.
- Disso eu não duvido, meu caro – redarguiu Thiago, enquanto erguia seu copo de encontro ao do amigo.
- Saúde.
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Conversa foi, conversa veio. Quatro garrafas de cerveja transformaram-se em seis. O litro de uísque também deu nítidos sinais de esvaziamento. Thiago e Marcelo compararam a legislação brasileira à francesa. Narraram momentos marcantes no tribunal. Thiago prometeu encaminhar o currículo do amigo para alguns conhecidos e Marcelo ficou de colocar o ex-colega de faculdade novamente em contato com seu pai, manda-chuva de um grande escritório no qual, ele próprio, não conseguiria trabalhar. Também relembraram momentos saudosos da época da faculdade. Bebedeiras homéricas, baladas intermináveis que, com a ajuda de pó e litros de café, confluíam no expediente em escritórios onde estagiaram. Garotas. Todos os caminhos pareciam levá-los a elas.
- E a Maria Helena, você tem visto? – perguntou Marcelo.
- Vi. Outro dia teve um daqueles jantares enfadonhos na casa do João e ela estava lá.
- E como ela está?
- Um bucho.
- Como assim? – espantou-se o ex-mestrando.
- Ela virou um canhão. Teve uns problemas hormonais que zoaram a pele dela e garantiram-lhe uns quilos a mais.
- Mas ele era tão gata!
- Nem me fala. Cara, pode parecer exagero, mas a cada reencontro desses que eu vou, percebo que as gatas daquela época estão virando bagulho e as feinhas estão ficando gostosas.
- Ironia do destino?
- Algo do tipo.
Outro silêncio constrangedor mais uma vez se instaurou. Marcelo ficou nitidamente chocado perante a notícia de que Maria Helena havia definhado. Sim, foi Thiago quem a namorou, mas Marcelo sempre guardou um amor platônico pela ex-colega. Nem tão platônico assim, nos primeiros três anos de faculdade ele até se engraçou com ela em uma cervejada ou outra. Arrancou uns beijos e chegou até a levá-la para jantar. Mas havia colocado-a em um pedestal tão alto, que sempre que se dirigia a ela, embananava-se por completo. Até que em uma dada noite Thiago, na ocasião, mais bêbado e, sempre, mais direto, acabou levando-a embora.
- Foi por isso que vocês terminaram?
- O quê? – respondeu Thiago, como que flagrado em um momento de devaneio.
- Foi por isso que você largou a Maria Helena, porque ela virou um bucho? – inquiriu Marcelo, virando um copo de uísque sem gelo que lhe desceu rasgando.
- Não, não foi bem por isso – respondeu Thiago, cheio de si.
– Na época em que a gente terminou ela ainda estava bem gostosa – explicou, procurando manter, assim, sua reputação intacta.
- Então foi por quê?
- Foi por causa da Joana. Meu namoro com a Maria Helena já tinha entrado na rotina, já estava um marasmo. E, mais ou menos na mesma época, eu entrei no Correia Pinto e conheci a Joana, na época uma estagiária de quinto ano com a bunda arrebitada e um fogo que você não imagina. Os serões no escritório, na sala de arquivos, para ser mais exato – soltou um sorrisinho maroto –, foram se tornando cada vez mais frequentes e a Maria Helena acabou descobrindo. Ela até tentou fazer com que a gente se reconciliasse, mas fui honesto e assumi que queria ficar com a Joana.
Marcelo pareceu ir ficando nítida e gradualmente perplexo com o desenrolar dos fatos. Sentiu um ódio profundo do amigo. Vontade de se levantar da cadeira e dar-lhe uma garrafada na cabeça. Mas, como o uísque que estava tomando, engoliu seco. Apenas levantou o copo e maneou a cabeça como se propusesse um brinde.
- Pelo menos você se casou com a mulher certa, então.
- É – respondeu Thiago, virando os olhos. – Algo do tipo.
Nesse exato instante tocou o celular de Marcelo. Era Manolo, um artista plástico com quem chegou a dividir apartamento na França. Ele estava aportando na esquina e iria se juntar aos dois.
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- Thiago, quero que você conheça o Manolo – apresentou Marcelo, com os trejeitos fanfarrões de costume.
– Manolo, esse aqui é o Thiago, meu grande amigo da faculdade.
- Prazer – disse Manolo, com um sorriso genuíno estampado no rosto.
- Prazer – respondeu Thiago, tentando retribuir o sorriso sem soar tão convincente.
Ele não pareceu muito confortável enquanto Marcelo e Manolo relembravam as estripulias de Paris. Não que ficasse constrangido com narrativas de putaria, simplesmente não estava interessado. Manolo fazia mais o tipo rude. Baixo, troncudo, e com uma espessa barba que se iniciava no pescoço. Respondia a tudo com gírias manjadas que o próprio Thiago não utilizava desde a época da faculdade. Tinha uma incômoda abertura e espontaneidade para lidar com os papos que surgiam na mesa. Thiago pediu licença para ir ao banheiro.
- O Manolo estava me falando sobre seu impasse amoroso – disse Marcelo, assim que Thiago retornou à mesa.
- Ah, é? – respondeu Thiago, pela primeira vez interessado no que o amigo do amigo poderia ter a dizer.
- É – continuou Marcelo.
– O Manolo está saindo com uma mulher casada – especificou, constrangendo o artista plástico.
- Então você está ficando só com a parte boa da vida a dois – ironizou Thiago, pela primeira vez demonstrando empatia pelo recém-chegado.
- Não é bem assim – respondeu Manolo, encabulado.
- Então como é? – continuou Thiago.
- As coisas não estão saindo bem como ele esperava – avaliou Marcelo.
- Como assim?
- Ela me pediu um tempo para tentar se reconciliar com o marido – explicou Manolo, cabisbaixo.
- Ah é, então o corno ainda tem salvação?
- Não sei, essa mina é muito louca.
- Como assim?
- A gente está saindo faz uns seis meses. No começo tudo eram flores. O marido estava sempre ausente, então a gente só curtia. Trepava o tempo todo, no motel, no carro dela, no meu carro. Até na cama deles a gente chegou a transar.
- E aí? – atiçou Thiago, entretido.
- E aí que ela parecia decidida a largá-lo. Dizia que me amava e que queria ficar comigo,.- E o marido não está nem aí – acrescentou Marcelo.
- É – continuou Manolo –, ela liga pro cara, às vezes na minha frente, e ele não dá bola, parece meio de saco cheio.
- E então, qual o problema?
- O problema é que, umas duas semanas atrás, ela falou que não poderia mais me ver. Que ainda gostava do marido e queria salvar o casamento.
- Então vocês não se viram mais?
- Nos vimos, a gente se encontrou mais algumas vezes e acabamos sempre trepando loucamente. Só que ela quer acabar com isso.
- Como você sabe? – instigou Thiago. – De repente ela só fazendo doce. Tem mulher que adora esses joguinhos.
- Não, acho que não. Acho que ela está com o cara já faz um tempo e tem medo de fazer cagada.
- Mas você gosta dessa mina? – perguntou Thiago, adotando terminologias que andavam adormecidas em seu vocabulário.
- Gosto! O pior é isso. A gente trepa pra cacete, faz de tudo que você pode imaginar, mas, ao mesmo tempo, ela tem um jeitinho quando estamos só nos dois que me derruba. Uma meiguice, uma doçura, que acabam comigo.
Thiago sentira uma ponta de com esse depoimento. O que não daria ele por uma ponta desse tesão, dessa adrenalina, que ele e Joana chegaram a viver mas que tinha-se esvaído por água abaixo?
- Então ela deve ser uma puta buceta – continuou, irrepreensível.
- Ah, ela é um tesão – respondeu Manolo, envergonhado ao prever o brilho nos próprios olhos. – É uma cavala – abriu os braços para descrever. – Quadril largo, cinturinha, e uma bunda que você não imagina.
A inveja de Thiago era iminente. Chegara a se perguntar o que estaria ele fazendo com a mesma mulher há tanto tempo, quando poderia estar vivendo aventuras em carne e osso como esta. Como quando começou a comer a Joana.
- Mas o cara desconfia?
- Acho que não, está sempre ocupado com trabalho, sai bastante sem ela. Sempre que ela liga, às vezes do meu lado, o cara parece meio de saco cheio, não sei. Se bobear, também está chifrando ela.
- Que coisa – respondeu Thiago, sentindo uma ponta de pena do corno.
- E a mulher dele por aí, insaciável – concluiu Manolo.
- Se bobear, o corno ainda engole uns pelos seus quando vai comer ela – interpelou Marcelo, gozador.
Essa afirmação ativou algum resquício de memória em Thiago. Certa vez aconteceu de, enquanto chupava a xoxota raspadinha da esposa, se deparar com um fio de cabelo longo e espesso demais para pertencer àquela vegetação rarefeita dos tempos da brazilian wax.
- Calma que na próxima vez que a periquita dela coçar, você é o homem que ela vai procurar – contrapôs Marcelo.
– Agora vocês me dêem licença que eu preciso tirar a água do joelho – disse o amigo comum.
Após alguns instantes de silêncio, Thiago retomou o assunto.
- Ela é advogada, que nem vocês – respondeu Manolo, com simplicidade.
- Tem. É Joana.
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- Vocês estão se divertindo sem mim? – perguntou Marcelo, ainda no processo de fechar o zíper da calça enquanto voltava do banheiro.
- Estamos – respondeu Manolo, com o pouco que se via dos seus lábios por causa da barba.
- Pois é – concordou Thiago.
– Ele estava me falando sobre a destruidora de lares.
Claro que Thiago não levantou um dedo contra Manolo. Vontade para isso não faltou, mas se viu assolado por um sentimento de impotência que jamais sentiu. Como se aquele sujeito que traçava sua mulher toda noite tivesse, assim, o destituído de sua masculinidade. Ele já havia estado no lugar de Manolo e bancado o Ricardão em uma relação de três extremos. Mas agora, finalmente, estava no papel de corno. Não imaginou que isso aconteceria justamente com ele.
- Antes fosse – respondeu Manolo.
- Antes fosse o quê?
- Antes fosse destruidora de lares. Assim eu sentiria que ainda há chance de a gente ficar junto.
“Ficar junto”. Essa expressão ecoou um sentimento de pura repugnância em Thiago. Por que diabos estaria aquele sujeito barbado tão interessado em “ficar junto” com Joana, de quem ele próprio já tinha empapuçado? Se bem que, verdade seja dita, nem sempre havia sido assim...
- Não desanima, Manolo. Daqui a pouco ela percebe que o marido é um merda e volta para você – consolou Marcelo.
- Ou não – interpôs Thiago. – De repente, eles só estão passando por uma crise e ela acabou caindo em si.
Marcelo olhou para o ex-colega de faculdade com ar de reprovação. Thiago supôs que ele sabia de tudo, que havia friamente orquestrado aquela situação insólita para seu próprio deleite. Mas por que teria se dado ao trabalho?
- Não me leve a mal – remendou Thiago. – Não estou querendo subestimar o que vocês têm ou chegaram a ter juntos. Mas a mulherada nessa idade presa muito pela estabilidade – formulou, sentindo um prazer sádico em torturar o rival. – Bem ou mal, é ele quem vai esquentar ela hoje à noite e não você.
- Mas o cara nem liga para ela – protestou Manolo, quase choroso.
Estranho escutar uma das queixas mais frequentes de Joana da boca do seu amante. Ele nunca havia se dado o trabalho de tentar entender o que ela estava sentindo, mas, lá dentro, sempre soube que aquele tipo de reclamação refletia uma preocupação maior. Uma insegurança com relação ao fato de que, no começo do casamento, ele seguia ansioso o giro contínuo do ponteiro do relógio, como se pudesse acelerá-lo para que chegasse logo o momento de ir para casa “ficar junto”. Época em que ansiava para que ela fosse sua, por dominar não apenas seu corpo como seu interior. Ao longo dos anos, conforme foi tendo a ilusão de que esse desejo se concretizara, Joana perdeu importância na sua escala de prioridades. Doar tempo a ela significava se doar. E tinha o receio irracional de que, se continuasse doando-se tanto, não ficaria com nada. Antes tivesse arrumado uma amante.
- A ideia de ela estar trepando com ele agora me dá ânsia de vômito – desabafou o artista plástico.
Tá aí uma reação com a qual Thiago conseguia se identificar.
- Calma, Manolo – interrompeu Marcelo. – Eles agora devem estar assistindo ao Programa do Jô, de pijamas. Não se preocupe, não vai volar nada.
Se contassem para Thiago que ele passaria por essa situação, não hesitaria em dizer que largaria Joana como a um mau hábito. Não se prestaria a trepar com “buceta usada”, a ter contato com o resto de porra (ou com o pentelho) de outro. Isso é o que ele diria para si próprio. Assim como imaginaria que quebraria uma garrafa na cabeça do adversário. Mas agora a atitude era outra. Ele não podia simplesmente sair de cena e deixar os dois pombinhos serem felizes para sempre. Joana era gostosa demais para entregá-la assim, de mão beijada, a um Mané como este. Precisaria fazê-la sua novamente.
- Vamos indo – disse Thiago, maneando a cabeça em direção a Genivaldo, que começava a colocar as cadeiras sobre as mesas vazias.
- Vamos – respondeu Marcelo, colocando a mão na nuca do amigo cabisbaixo.
– Vamos nessa que o Manolo precisa curar essa chave de buceta - gargalhou.
Outro sentimento com o qual Thiago conseguia se identificar. Na saída do bar, os três deram-se as mãos.
- Fica tranquilo que tem muita buceta no mundo – disse Thiago, simpático, em uma tentativa infantil de limpar o próprio campinho.
- É, eu sei – respondeu Manolo, não soando mais tão convincente.
- Falou meu velho, vamos marcar outra dessas em breve – despediu-se Marcelo, enfático.
- Falou –retribuiu Thiago, com frieza.
sábado, 8 de novembro de 2008
O REGRESSO DA TEMPESTADE
- Se eu me jogar você me pega? – perguntou Luana, de costas para Dario, com os braços estendidos para o alto.
- Pego – ele respondeu, com calma e confiança.
Então ela se deixou soltar, sutilmente caindo para trás, de encontro aos seus braços e peito que a acomodaram com segurança.
- Você pode sempre confiar em mim – ele falou.
- Promete?
- Prometo.
Juntaram-se em acalento, um abraço forte e resoluto. Estavam em uma praia deserta. A luz já amena com o desenrolar da tarde, um vento fresco e o barulho das ondas arrebentando ao fundo. O mar era de um verde transparente, enxergava-se o solo através da água. Um cenário translúcido.
Caminharam de pés descalços sobre a areia – fina, leve, úmida. Por sobre o biquíni, ela vestia uma saída de praia azul estampada. Ele, camiseta branca e bermuda de sarja. Com as mãos cruzadas entre si, continuaram andando. O Sol baixo, parcialmente encoberto, esforçarva-se para que aquela luz alaranjada, tão incandescente quanto efêmera, atravessasse as nuvens.
- Amo você – ela falou, surpreendendo-lhe com um beijo no rosto.
- Também te amo – respondeu, com sorriso de satisfação.
Foram de encontro ao mar apenas até a água encobrir seus tornozelos. De lado um para o outro, envolveram-se pelas cinturas. Encararam o horizonte. Gaivotas e vôos rasantes.
Dario avistou uma concha sendo carregada pela maré chegando à baía. Abaixou-se para apanhá-la e notou que em seu interior residia uma ostra. A superfície do casco estava rachada, como que tivesse se chocado em pedras e corais desde que puxada da cama em que repousava. Ao tirar o molusco da concha, sentiu-o movimentar-se, escorregadio, entre os dedos. Com o indicador e o polegar, levou-o de encontro à boca de Luana que, em uma mordida incisiva, arrancou-lhe metade. Com as mãos espalmadas, colocou o que sobrou em sua própria. Deixaram-se inundar pelo gosto salgado, metálico e oleoso do gélido fruto do mar.
Novamente de mãos dadas, sobrepuseram o tombo da praia caminhando até o epicentro do afresco de areia. Ela tirou o vestido estendendo-o sobre o relevo. Foi puxada de encontro a ele. Beijaram-se com ternura, envolvendo-se, atiçando-se, desenrolando os próprios segredos. Gentilmente, Dario a deitou sobre a cama que fizeram na areia. Suas mãos se fincaram nos cabelos longos e macios. Os dois corpos se entrelaçaram com intimidade. Epidermes tomadas por um eletrificante episódio de atração. Dedos dos pés moviam-se espasmodicamente. Olhos reviravam-se. As línguas remoíam-se no interior da boca e fora dela – um sabor cítrico que ofuscava a acidez da ostra. A um passo do cume, deram-se as mãos, novamente, entrelaçando-as pelos dedos. Olhos nos olhos, boca com boca. Duas geografias integradas em uma.
- Te amo muito – ela disse, ofegante e estremecida.
- Também te amo demais – respondeu, assumindo a total vulnerabilidade.
Deitaram-se em concha, com a cabeça dela repousando em seu braço esquerdo e o direito envolvendo aquele quadril com propriedade. As costas dela bem acomodadas em seu peito. Cinturas simetricamente alinhadas. A perna dele entre as dela, cujos pés conseguiam se estender até o seu tornozelo. Formavam um lar.
- Que susto! – Luana exclamou, inquietando-se ao ver um caranguejo emergindo da areia.
- Não é nada – Dario falou, puxando-a de volta aos seus braços. – Estou aqui para te proteger.
Adormeceram.
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Desatava a chover. Luana despencava de uma colina. Em prantos, cabelos ao vento. Dario estava de pé em uma caverna ao centro daquela formação rochosa. Suas mãos estavam atadas.
Em desespero, esforçava-se para se desvencilhar da corda que lhe prendia os punhos.
- Socorro! – ela gritava, conforme se aproximava dele, que assistia debaixo.
Avistando uma lasca pontiaguda de pedra, adiantou-se em cerrar o cordelete de nylon. Fez isso aos prantos, ferindo a própria pele, que agora sangrava. Quando conseguiu se libertar, ela estava bem próxima. Fincou a mão direita em uma cavidade de pedra e estendeu a mão esquerda para ela, que vinha rápido demais. Ela esticou o braço para que sua mão fosse de encontro à dele, porém passou-lhe entre os dedos.
Impotente, Dario observou-a submergindo mar adentro.
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Despertou em um salto. Olhou para o alto, viu que agora garoava. O céu estava fechado e cinzento. Logo iria anoitecer.
Virou-se para o lado e viu que Luana não estava mais lá. Desesperado, levantou-se em um pulo. Com as mãos sobre a fronte, girou 360 graus sondando pela imagem dela. Avistou a parte de cima do biquíni flutuando na área de arrebentação. Correu em direção ao mar.
Enfrentou as ondas e a correnteza com largas braçadas. Tapou a boca e o nariz, mergulhando de peito. O mar estava muito movimentado. Aquele pó acinzentado ofuscava-lhe a visão. Ao retornar à superfície para buscar fôlego, enxergou seus cabelos loiros ao vento conforme ela caminhava em direção à outra ponta da praia. Com braçadas largas, tentava se dirigir à baía, mas a correnteza lhe segurava. Colocando todas as suas forças nos ombros, conseguiu vencê-la. Luana não estava mais ao alcance do olhar.
- Luana! Luana! – Dario gritava, a plenos pulmões, conforme corria na direção que ela parecia ter seguido. Sua cabeça movimentava-se freneticamente na tentativa de que seus olhos cobrissem cada centímetro daquele território acidentado. Fôlego começava a lhe faltar, mas não ousaria diminuir o passo. Urubus disputavam a carniça de um cachorro magro e destroçado.
Então viu o vestido dela pendendo no galho de árvore na restinga. Saiu em disparada, ferindo os pés no contato com as raízes e espinhos. Sangue lhe custou.
- Luana! Luana! – emanava em desespero.
Ela agora estava em pé, nua, sobre uma das dunas ao fundo. Usando de pernas, braços e resiliência, venceu a distância e a altura sobre a areia molhada. Ela permanecia ali parada, sorriso discreto no canto dos lábios e semblante de sobriedade.
- O que aconteceu, meu amor? – ele perguntava conforme se aproximava, esbaforido.
Ela permanecia sem reação.
Ao impulsionar-se na mais alta das pedras escondidas sob a areia, se antecipou com um abraço. Abraçou o vento, pois ela não estava mais lá. Perplexo, Dario se pôs a perscrutar em todas as direções.
- Luana! Luana! – em pura angústia.
Novamente a enxergou, agora à encosta da parte posterior da formação arenosa.
- Meu anjo, o que está acontecendo? - Ele perguntou, quando mais uma vez se colocou diante de sua mulher. O semblante dela permanecia o mesmo, porém agora estava vestida.
- Não está acontecendo nada, meu amor. Vai ficar tudo bem.
Desta vez ele tentou tocá-la com as mãos, mas elas atravessavam aquela imagem, como que diante de uma ilusão. Um piscar de olhos, ela não estava mais lá. Inconsolável, Dario se pôs a sentar e começou a chorar. Agora estava escuro.
Até que escutou: - Aqui embaixo, meu amor – a voz dela mantinha o mesmo tom suave, aveludado e serene do início daquela tarde.
Ele se levantou e, aproximando-se ainda mais da encosta, se surpreendeu ao olhar para baixo e vê-la emanar uma luz fluorescente que irrompia a escuridão.
- Estou aqui, querido – ela falava.
Dario colocou metade dos pés ensangüentados para fora, custava a acreditar.
- Pula que eu te pego – disse Luana.
- Promete? - replicou.
Ela simplesmente aquiesceu com a cabeça.
Então Dario se virou de costas para o precipício, ergueu os braços para o alto e se permitiu despencar.
Teve uma queda seca, aterrissando em um buraco repleto de pedregulhos. Com o impacto, sentiu o peito estremecer, a cabeça bater e a espinha dorsal se estilhaçar. Olhou para o alto e agora só via a escuridão. Desatava a chover.
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
ENCONTROS FURTIVOS
O som era alto, o público agitado e uma quantidade de mulheres acima da média. Bastava um leve devaneio com os olhos para encontrar uma destinatária receptiva. Jonas não demorou em fazer a primeira investida. Fora de prática que estava, as palavras saíram atropeladas. Tão alto o som, não entendeu as respostas. Desconfortável, debandou.
Mais uma dose. Aos poucos foi se soltando. Deixava a música tomar seu corpo e dirigir seus movimentos. O clima de irmandade entre os amigos trazia nostalgia. Fez uma segunda tentativa, Françoise. Ela se mostrou bastante indulgente; simpática, ria de orelha a orelha. Tão fácil, ficou sem graça. Passou para frente.
- Cerveja.
“Nada como uma ruivinha”, pensou, ao aproximar-se de uma moça com seios gritantes, pele sardenta e cabelos encaracolados. A risadinha era insuportável, saia à toa, alto demais. Ela não ficava quieta. Claramente estava interessada, mas, em torno de temas desinteressantes, era difícil manter-se atento à conversa. “Vamos para a próxima”, falou a Luís, que aguardava ao lado. “Você está muito fresco”, acusou o amigo. “Eu sei”, respondeu.
- Cerveja.
- Jack Daniel’s.
- Jack Daniel’s.
- Jack Daniel’s.
Tentou mais uma: estudante universitária, 21 anos. Aos 28, faltou-lhe estômago. Então avistou uma morena estonteante, pele bronzeada, cabelos lisos e compridos, tudo no lugar e muito a deixar para a imaginação. O papo fluiu bem. Para surpresa de Jonas, questões instigantes foram resvaladas. A sua mão se acomodou na cintura dela. Então o quadril da moça veio de encontro ao seu. Envolveu-a em seus braços e arriscou um beijo. Com sucesso. Beijo molhado, macio, envolvente, carnal. Terminada a primeira bateria, ficaram sem assunto. Partiram para a segunda.
Recostaram-se em um pilar aos fundos da pista. As mãos dele passavam pela barriguinha dela. Seios prensados contra seu peito. Ela fez com que suas mãos descessem de encontro às coxas. Por conta própria, encontraram seu caminho até as nádegas firmes que testavam a resistência da calça. Momento em que ela apertou seus bíceps, não sabia ele se para repreender ou estimular. Sentiu algo vibrar. Era o minúsculo telefone celular que ela mantinha no bolso da frente. “Preciso ir, minha amiga está me esperando”, anunciou, após aparentemente ter lido uma mensagem de texto. “Anota meu número, vamos ver se a gente combina alguma coisa”, disse ela. “Vamos ver”, respondeu, enquanto pressionava as teclas conforme ela falava - não se deu ao trabalho de salvar.
- Jack Daniel’s.
- Jack Daniel’s.
Sentou-se ao sofá e acendeu um cigarro enquanto deixava aquele gosto meloso do uísque percorrer suas mucosas bucais. A euforia deu espaço à melancolia. Luís e Paulo pareciam estar se dando bem na pista e assim Jonas os deixou. Uma hora se passou. Sua visão estava fora de foco e o peito aberto, como que apunhalado sabe-se lá por quem. À sua diagonal, avistou uma loira de vestido branco, pernas cruzadas, cigarro pendendo na mão direita e olhar perdido no espaço. Seu rosto tinha traços belos e levemente destoados pelo tempo. Devia ter entre 35 e 40 anos. Apesar da maquiagem pesada, dava para notar seus belos olhos azuis acinzentados. Emanavam certa dose de tristeza. Ele se aproximou.
Já no fim de noite, com o som mais baixo e movimentação esparsa, conseguiram manter uma conversa. Agradável, por sinal. Ela sorria carinhosamente, como um animal machucado que de repente encontra cuidado. Beijaram-se, fora de compasso. A boca dela movia-se com extrema voracidade deixando resquício de dentes. Sua língua, cujos vasos da parte inferior podiam ser sentidos, faltou invadir-lhe a goela. Um sabor que misturava cigarro, Trident de melancia e prosecco. Ele pousou a mão esquerda em sua coxa, bem torneada e exposta. “Preciso ir embora”, ela falou. “Eu te levo”, respondeu.
Quando foram em direção ao carro, ela pareceu genuinamente agradecida por ele ter-lhe aberto a porta do passageiro. No caminho, pouco conversaram. Jonas deixou uma música fantasmagórica ecoando ao fundo. Em uma troca de marchas, foi a vez da mão direita ir parar nas pernas dela. Sem maiores firulas, ela a deslizou por sob o vestido. Ao recostar-se sob sua fenda, por sinal, umedecida, não pôde deixar de notar que estava sem calcinha.
Embicou o carro no primeiro motel que viu sem se dar ao trabalho de consultá-la. Nenhuma resistência foi imposta. O quarto tinha cheiro de mofo, rasgos no carpete marrom e um excesso de objetos de madeira que deixavam o ambiente pesado. Não fora escolhido por seus traços de requinte. Em pé, encheu dois copos de uísque até a metade. Ela virou de um gole, ele sorveu lentamente. Na mesma posição, enquanto olhavam-se nos olhos, Jonas puxou a meia calça para baixo. Aproveitando a posição de comando, Ludmila (esse era o seu nome) apoiou o salto alto sobre a cama, dando a deixa de como ele deveria proceder. Assim o fez e continuou até ficar com a mandíbula adormecida. Rios derramados, levantou-se puxando o vestido dela para cima. Deparou-se com seios levemente pendidos para baixo, mas ainda assim suntuosos. Uma silhueta levemente flácida, porém esguia e atraente. Puxou-a de encontro a si e sentiu sua pele de tênue elasticidade, na temperatura certa.
Foi empurrado sobre a cama e despido com urgência. Teve o favor retribuído. Antes que pudesse tomar qualquer iniciativa, ela sentou-se sobre ele. Um gemido contido que combinava dor e prazer. Ela passou a movimentar-se bruscamente, aumentando a magnitude dos gemidos na mesma proporção. Cavalgava feito uma Comanche, com rosto e bicos dos seios apontando para cima, olhos sempre fechados. Pela aflita movimentação de suas mandíbulas, parecia exorcizar algum monstro. Aquilo não passava de masturbação a dois, mas Jonas não se importou nem um pouco.
Quando ela estava a um toque da ebulição, entendeu o sinal e também se permitiu externar. Ela afagou o rosto dele de um jeito meio estabanado, depois deitou-se em seu peito. Desconfortável naquela posição, Jonas rolou-a de lado e lhe abraçou por trás. Sentiu um calafrio, não se acomodava àquele corpo. Afastou-se e deitou de costas. Acendeu um cigarro. “Você é tão misterioso” – foram as primeiras palavras após terem saído do carro. “No que você está pensando?”, perguntou. Jonas sacudiu em desaprovação, não deu a entender que responderia. Depois que espremeu a bituca no interior do cinzeiro, postou-se em cima dela. Então foi sua vez de enfrentar os próprios demônios. Fizeram de frente, de lado, em cima da mesa, ao pé da cama. Por volta das 11 da manhã, quando a expressão de agonia no rosto de Ludmila já havia se tornado insuportável, gerando asco, colocou-a de quatro. A movimentação foi fulminante, violenta. Largados em meio à cama encharcada por seus fluídos corporais, finalmente sentiram-se livres, cada um em seu canto, sob as sombras de cada qual. Com dor de cabeça e a garganta seca, Jonas virou um litro d'água e esperou ela sair do banho para se lavar.
Conforme ela subia a meia-calça por sob o vestido, calçava o último pé da botina sentado ao canto da cama. Apanhou a carteira e os cigarros no criado-mudo. Prendeu o relógio ao redor do punho e vislumbrou seu reflexo no espelho. Era hora de ir.
quarta-feira, 21 de maio de 2008
ANONIMATO
AQUI SE FAZ, AQUI SE PAGA
Já eram dez da manhã do sábado de carnaval e os Alcântara ainda não tinham saído de viagem.
