Donato Ribeiro desperta em sua kitchnete na Avenida São João com o barulho da TV ligada. Percebe que ainda está vestido, não tirara nem os sapatos. Olha no relógio e vê que são 11:10. Precisa se aprontar para o serviço. Deixa a TV ligada, não por estar prestando atenção em algo especial, apenas pela companhia. Vai ao banheiro, que tem cheiro de esgoto devido ao vazamento no teto, acende a luz. Defronte ao reflexo do espelho encardido e quebrado nas pontas, depara-se com sua cara inchada, seu mullets despenteado e suas olheiras enrubescidas. Resolve fazer a barba, não porque quer, mas porque precisa: seu João é chato quanto à aparência dos funcionários. Ensaboa a cara, apanha a gilete entre o indicador dobrado e o polegar estendido, se prepara para passar a lâmina. Suas mãos começam a tremer e ele percebe que, caso continue assim, vai se cortar. Apanha um copo estrategicamente posicionado sobre o criado mudo, ao lado de sua garrafa de conhaque. Enche até a boca e vira de um gole.Caminha até o ponto. Enquanto o ônibus não chega, Donato dá um pulo no Bar do Mané, logo atrás. Pede um rabo-de-galo e uma coxinha, em que dá uma única mordida. Instantes depois, chegando ao Estacionamento Gran Park, na Rua Maria Antônia, ele bate o cartão de ponto e se prepara para assumir o posto na cabine. Liga o rádio a pilhas, não por desejar ouvir algo em especial, apenas pela companhia. Posiciona o cinzeiro de plástico sobre mesa à sua frente, acende um cigarro e começa a trabalhar.Recebe cartão, bate cartão, troca cartão e devolve cartão para os mensalistas. Pede a placa, emite comprovante e o entrega aos avulsos. Também faz a cobrança quando estes saem. Donato recebe cartão, bate cartão, troca cartão e devolve cartão. Recebe cartão, bate cartão, troca cartão e devolve cartão. Recebe cartão, bate cartão, troca cartão e devolve cartão. Acende um cigarro. Pede a placa, emite comprovante e entrega comprovante. Recebe cartão, bate cartão, troca cartão e devolve cartão. Muda a estação no rádio. Recebe cartão, bate cartão, troca cartão e devolve cartão. Limpa o suor da testa. Recebe comprovante e uma nota de vinte reais. Emite recibo em duas vias, coloca uma na boleta e dá a outra para o avulso, junto aos doze reais de troco. Recebe cartão, bate cartão, troca cartão e devolve cartão. Pede para Lucindo, um dos manobristas, assumir o seu posto por alguns instantes, pois precisa ir ao banheiro.Caminha até o Azaléia, um boteco na mesma calçada do estacionamento. Vira um rabo-de-galo, acende um cigarro e vai até o banheiro. Volta do banheiro, vira outro rabo-de-galo e retorna ao estacionamento. Recebe cartão, bate cartão, troca cartão e devolve cartão. Cumprimenta um cliente que pára ao lado da cabine com uma caminhonete moderna e um som ligado em volume ensurdecedor. Sem se dar conta, ressente o sujeito por parecer tão entusiasmado. Recebe cartão, bate cartão, troca cartão e devolve cartão. Acende um cigarro. Recebe cartão, bate cartão, troca cartão e devolve cartão. Pede a placa, emite comprovante e entrega comprovante. Pede para Lucindo assumir o seu posto por alguns instantes, pois precisa ir ao banheiro. Às nove da noite ele fecha o caixa, apenas somando os recibos da boleta ao dinheiro da gaveta e colocando-o em um malote que tranca no armário do escritório do Seu João. Ele mais Lucindo descem a Dr. Vila Nova, até um boteco na Major Setório. Escoram-se no balcão e pedem uma cerveja de garrafa. Donato pede um conhaque para acompanhar. Logo chegam os manobristas e cabineiros dos estacionamentos adjacentes. Iniciam uma conversa sobre o Santos, ou qualquer outro time de futebol, da qual Donato pouco participa. Apenas um trecho da conversa lhe desperta a atenção:
- Hoje eu recebi o aviso prévio. Os homi vão istalá uma cancela computadorizada onde os cliente infia um cartão e a cancela abre. Não vão mais pricisá dos meus serviço – diz Angelílson, cabineiro de um estacionamento das imediações.
Donato pede outro conhaque. No caminho pra casa, sentado no fundo de um ônibus vazio, se esforça para não vomitar com toda aquela chacoalhação. Logo que desce na Avenida São João, ele se inclina atrás de uma lata de lixo e vomita até as tripas. Sai um sangue viscoso e amarelado.Enquanto está na frente da porta da kitchnete, lutando para encontrar o buraco da fechadura, ouve uma outra porta se abrindo atrás de si. É a Rosa, sua vizinha. Ela usa um vestido florido que vai até a panturrilha, não escondendo toda a sua corpulência e, sem mangas, revelando seus braços largos e molengas. Ela tem o cabelo crespo e volumoso preso para cima. Rosa convida Donato para entrar. Ele aceita o convite, não por desejá-la em especial, apenas pela companhia. Logo ele a coloca de bruços sobre o balcão da cozinha americana e levanta seu vestido. Abaixo da bunda, Donato avista aquele chumaço de cabelos, também crespos, que mesmo assim revela aquela protuberância avermelhada. Tasca um beijo de língua, como que por gratidão. Logo resolve penetrar, mas pelo efeito da bebida e pelo tamanho daquela bunda engordurada que de encontro à sua própria barriga inchada se torna uma obstrução, ele tem dificuldades. Luta para encontrar o buraco.Quando finalmente parece invadir alguma coisa que seja, já é tarde. Seu pau já amoleceu. Como que com um rabo entre as pernas, Donato recolhe as calças arriadas em torno dos seus pés e as puxa para cima. Ouve uma risadinha saindo da boca de Rosa.
- O que foi, meu amor, não te dou mais tesão? – diz ela, em tom jocoso.Donato nota um pedaço de alface enganchado nos seus dentes da frente.
- Acho que eu bebi demais – ele se explica.
- Bebeu demais? Eu acho que cê tá virando viado, hein Donato?
Sua risada se torna cada vez mais alta. O pedaço de alface mais aparente.Então Donato defere um tapa com a mão bem aberta no rosto de Rosa. Ato contínuo, ela cai. Quando volta a si, Rosa se levanta e avança em cima de Donato, aos berros. Agarra ele pelo pescoço. Donato percebe que terá certa dificuldade em controlá-la, pois Rosa é uma mulher grande. Isso se ele não tomar um pau dela ali mesmo.Enquanto é sufocado, ele começa a apalpar o balcão da cozinha americana. Percebe, entre sua mão direita, algo que parece um rolo de massa. Apanha o objeto e dá uma paulada na têmpora esquerda de Rosa que, ato contínuo, despenca no chão. Observa ela gemendo, agonizante, com as mãos sobre a cabeça ensangüentada. Nota que seu sovaco é peludo.Então Donato se coloca sobre ela com o rolo de massa em uma das mãos e lhe defere uma seqüência de pauladas na cabeça. De repente, ela pára de gemer.Ele se levanta, fecha a camisa estampada e prende o cinto. Não precisa mais lutar para encontrar o buraco, a fechadura do seu apartamento gira com facilidade. Donato vai até o banheiro, se inclina sobre a pia e joga água no rosto com ambas as mãos. Também bebe um bocado, direto da torneira. Se deita, reclinado sobre a cabeceira da cama. Acende um cigarro, apanha um copo estrategicamente posicionado sobre o criado mudo, ao lado de sua garrafa de conhaque. Enche até a boca e vira de um gole. Liga a TV, não porque deseja assistir algo em especial, apenas pela companhia.

0 comentários:
Postar um comentário