I
Já eram dez da manhã do sábado de carnaval e os Alcântara ainda não tinham saído de viagem.
Já eram dez da manhã do sábado de carnaval e os Alcântara ainda não tinham saído de viagem.
- Benvinda, não esquece de fechar as janelas caso chova, nem de dar comida para o Tobias – disse dona Eugênia Alcântara, enquanto Benvinda ajudava a carregar a mini-van da família.
- Pode deixar, Dona Eugênia.
- Aqui estão cinqüenta reais, caso você precise comprar ração ou comida. Também é para pagar o rapaz da água.
- Tá bom. Obrigada.
E assim a matrona, seu marido e dois filhos pequenos, de sete e cinco anos, saíram daquela garagem de prédio de classe média com a perua carregada, deixando Benvinda com a chave dos fundos do apartamento. Logo que ela entrou, fechando a porta atrás de si, sentiu-se a dona do pedaço, rainha daquele apartamento com quatro suítes e uma belíssima sala equipada com bar e home-theater. Tobias, um maltês, mascote da família, não tardou em receber a empregada com entusiasmo e lambidas na canela, tornando-a a substituta imediata de sua família ausente.A princípio, Benvinda estava confinada à área de serviço, que incluía cozinha e dispensa, pois a porta que dava para o corredor e a outra porta, que dava para a sala, estavam trancadas. Mas esse era um contratempo para o qual Benvinda havia se precavido, tendo mantido em seu poder a chave do corredor, que por descuido da construtora, abria a porta de todos os demais aposentos da residência.Com um sentimento de benevolência e uma euforia proibitiva por estar cruzando a linha do que lhe era permitido, Benvinda virou a chave na maçaneta da porta que dava para o corredor: pronto, aquele era o seu castelo particular. Ela começou pelo dormitório principal, ou seja, o aposento ocupado por dona Eugênia e seu Joaquim. Seu primeiro passo foi revirar todas aquelas portas brancas com puxador dourado que compunham o guarda-roupas. Sem a obrigação de guardar alguma peça, ou de tirar o pó que penetrava pelas aberturas do embutido de madeira, Benvinda pôde provar as roupas de sua patroa, uma a uma, experimentando diversas combinações até encontra o hobby azul claro de seda que ela vestiria após o banho. Pela primeira vez em muito tempo ela pôde se despir de porta aberta, tendo tempo e um espelho comprido o suficiente que lhe permitisse observar a si própria por inteiro. Apesar da moldura dourada, o reflexo era o mesmo de quando ela perscrutava a si própria com o espelho de mão, porém agora ela podia ter uma visão do todo. Seus seios, pequenos, continuavam a pender levemente para baixo, sua barriga se mantinha sutilmente empinada, os braços continuavam brancos e esquálidos, os cabelos negros se mantinham emaranhados, em cima e embaixo, além de sua postura, que como quem tivesse passado a vida carregando sacas de arroz nas costas, permanecia arqueada. Ela virou a torneira, deixando a banheira encher até o topo com água morna, despejou um produto envasado em um pequeno frasco de plástico que ela logo percebeu que tinha a função de espumificar a água, então apertou o botão da hidromassagem. Benvinda deve ter permanecido ali deitada por horas, esfregando-se com força para tirar a sujeira, que não era muita, e a pobreza do corpo até o ponto de quase esfolar-se. Também foi o suficiente para que ela relaxasse e desse em seus cabelos um belo banho de creme. Já de pé, ela se secou com calma e cautela, esfregando aquela toalha de algodão felpudo, lavada e amaciada por ela própria, até que a mais ínfima cavidade de seu corpo estivesse seca. Depois ela se enfiou no hobby de seda, percebendo que ele ficava extremamente largo para o seu porte físico, e pôs-se trespassar os cabelos com o com o secador, aparelho que nunca havia se atrevido a utilizar em decorrência da enorme quantidade de energia elétrica que despendia. Demorou bastante passando a escova pelos cabelos e ainda experimentou a chapinha de sua patroa, que então teve o segredo dos cabelos lisos e volumosos revelado. IISentindo-se limpa como nunca antes na vida, Benvinda desfrutava de alguns momentos de sossego, enquanto se esparramava pelo sofá de couro da sala, assistindo o programa do Luciano Huck na TV de plasma 42 polegadas. Foi quando o interfone tocou, lembrando-lhe que ainda tinha uma razão de estar ali, e avisando que o entregador de água estava subindo. Como era costume nas tardes de sábado, Denis adentrava a porta do elevador de serviço todo suado, provavelmente por fazer seu itinerário de bicicleta, com um galão de água sobre o ombro direito. Benvinda sempre notara os contornos definidos e vigorosos de seus braços, a tonalidade alaranjada de sua cútis, o fogo desejante em seu olhar, porém nunca se sentiu apta a corresponder, primeiro pelo seu próprio sentimento de inadequação, segundo pelos olhares de repreensão que Dona Eugênia disparava quando via Denis ali, escorado no balcão da cozinha, insinuando-se corporeamente para a empregada. Porém, agora, não havia inadequação, Benvinda se sentia tão à vontade naquele roupão de seda quanto sob seus cabelos recentemente dotados de brilho e maciez; tampouco Dona Eugênia representaria qualquer empecilho, pois ela já estaria a centenas de quilômetros de distância.
- Tá sozinha? – perguntou o malandro, notando a súbita disponibilidade da doméstica, que também se movia com propriedade em meio àquele espaço que há poucas horas era o seu local de trabalho.
- Estou – disse ela.
- Que desperdício – ele respondeu, com naturalidade, após dar um último suspiro em decorrência do esforço que fizera ao colocar o galão de água sobre o dispensador.
- Você quer ficar?- reagiu, sedutora.
-Agora eu não posso, ainda tenho um monte de entregas para fazer.
- Ah...
- Mas eu posso voltar mais tarde. Depois das seis.
- Pode ser, vou ficar esperando - ela se sentia mais confiante do que jamais antes. Permitiu-se inclinar em direção ao rapaz, exalando seu cheiro de colônia francesa e revelando parte dos seus seios miúdos. Denis pegou-lhe pela nuca e proferiu-lhe um beijo de língua. Com um movimento sutil, porém decidido das mãos, derrubou aquele roupão de seda, vindo a desnudar a pobre moça. Antevendo a rapidinha apoiada no balcão da cozinha que lhe esperava, Benvinda preferiu refrear seu desejo e aguardar por uma situação mais condizente com seu atual sentimento de luxúria.
- Agora não – disse ela, empurrando-o para trás com a palma da mão aberta.
– Te espero às seis horas – voltou a colocar o hobby de seda sobre os ombros.
E assim Denis se foi, mordendo o lábio inferior com os dentes de cima e um olhar que prometia um retorno fulminante. Então Benvinda, que estava de estômago vazio até então, abriu a geladeira e montou uma bandeja com mamão papaia, iogurte natural, pão de miga, algumas fatias de peito de peru e queijo brie. Postou-a no colo quando se sentou no sofá da sala, colocando os pés sobre a mesa de centro. Tobias postou-se ao lado dela e, com ele, ela compartilhou alguns itens daquele desejun fora de hora. Dona Eugênia, que nunca permitia que o cão se alimentasse de nada que não fosse ração, ficaria estupefata. Benvinda sorriu imaginando sua reação. Agora não havia divisórias entre ela e o cão, podia tratar-lhe como bem quisesse. Acordou com o som da TV ligada, por volta das dezessete horas. Caminhou até a porta dos fundos e a destrancou. Deixando o hobby cair pelo caminho, se dirigiu à suíte principal e retirou a colcha da cama que ela, há algumas horas, havia arrumado. Inseriu-se entre aquelas duas camadas de lençol macio e acomodou bem sua cabeça sobre o travesseiro de pena de ganso. Permitiu-se continuar a soneca. Sem ter ouvido o barulho da campainha ou os seus passos pelo apartamento, Benvinda sentiu Denis entrando com vontade. Uma vez na vida ela pôde trepar à seu bel prazer, sem receios nem ressalvas, atirando-se de um lado para o outro da cama king size, cheirando o frescor daquela roupa de cama que ela havia lavado e mordendo com vontade o travesseiro macio.
III
Haviam sido quatro dias de puro deleite. Cama, mesa e banho à vontade, ora só, ora acompanhada. Por fim a temida quarta-feira de cinzas havia chegado e Benvinda se obrigou a levantar às seis da manhã. Denis já havia deixado o apartamento há uma hora, pois tinha que trabalhar. Benvinda colocou o hobby de seda e a roupa de cama da patroa na máquina de lavar. Pôs-se a esfregar o chão do quarto e o banheiro com minúcia, atentando para qualquer fio de cabelo ou outro vestígio que denunciasse o que de ilícito ali tinha ocorrido. Recolheu a louça espalhada pela casa e colocou na lava-louças. Secou tudo com o pano de prato, enquanto a roupa centrifugava na secadora. Arrumou a cama com os mesmos lençóis e era como se nada tivesse acontecido. Retirou o jornal da área de serviço, onde Tobias fazia suas necessidades, única tarefa de doméstica que Benvinda não havia abandonado, e abriu a porta dos fundos. Quando despejava o jornal encharcado e mal-cheiroso na lixeira, que era dividida com o vizinho do andar, ouviu a porta que dava para as escadas se abrir. Era o Pieiro, zelador do prédio, vindo entregar um rolo seco com o jornal do dia.
- A patroa volta hoje? – perguntou o zelador.
- Volta.
- Acho que ela não ia ficar nem um pouco contente em saber que o rapaz da água ficou hospedado aqui durante o carnaval.
- Você não vai contar para ela, vai? – disse Benvinda, amedrontada.
- Isso vai depender de como você se comportar – respondeu Pieiro, com um sorriso maroto que revelava um dente incisivo faltando, prestes a abrir a braguilha da calça.Enquanto Benvinda cumpria a recentemente atribuída tarefa, ele ainda disse:
- É, minha filha... Aqui se faz, aqui se paga.

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