Moro ao lado de um convento. Não sei de que igreja ou congregação, nem se com freiras, padres, bispos, cardeais ou toda a patota junta. Só sei que é um convento, pois, na infância, quando a minha bola de futebol foi parar ali, uma velhinha com aqueles trajes de pingüim abriu a porta da frente para devolver-me o objeto circunférico. É uma casa grande, cuja entrada fica na rua transversal à minha, que culmina na lateral do prédio em que resido, ocupando quase meia quadra. Do meu quarto, localizado no 7º andar, tenho vista cativa para aquele palacete com sólidas paredes de concreto e janelas sempre fechadas.A construção me despertou fascínio logo que pra cá me mudei, aos tenros oito anos de idade.
Quando a minha bola ali caia, era uma desculpa mais do que plausível para pular o muro e, uma vez no jardim, aproveitar para espiar. Passado algum tempo, foi colocada uma grade de arame entre o casarão e o meu prédio, o que diminuiu a incidência com que a minha bola ali caía, assim como impossibilitou o acesso de crianças bisbilhoteiras como eu. Depois disso, o único contato que voltei a ter com o seu interior foi quando minha bola foi devolvida – o que não se repetiu, aumentando a minha frustração e se transformando em ódio diante do que aquela fundação representava.Aos onze anos, quando vivia o ápice do meu ímpeto adolescente, eu atirava garrafas, latas, roupas e qualquer outro objeto de que pudesse me dispor em suas cercanias. Era um impulso estúpido que, analisado em retrocesso, só podia significar um desejo de interação - oferecer alguma contribuição externa, mesmo anárquica, àquela comunidade fechada. Mais ou menos na mesma época, encontrei um representante direto sobre o qual depositar minha ira.
Era um dos habitantes, um senhor baixo, coxo e roliço que tinha o hábito de caminhar na lateral do convento, um corredor a céu aberto que percorria toda sua extensão e era separado do quintal dos fundos por um muro. Munido de um livro (possivelmente uma bíblia), ele andava lentamente de uma ponta até a outra, incontáveis vezes, maneando sua cabeça branca e ostentando a barriga arredondada.Quando me dei conta daquilo, que logo se mostrou uma atividade diária, fiquei estupefato. Simplesmente não entendia a finalidade de um exercício tão mecânico, oprimido por quatro paredes e uma folha de papel. Como na época eu defendia ideais pretensamente libertários, não tinha outra reação senão sair à janela e gritar: “Vai caminhar na rua!”. O velho simplesmente parava, olhava para cima e balançava a cabeça em reprovação, retornando à sua atividade como se nada tivesse acontecido – o que me deixava ainda mais fulo.Quinze longos anos se passaram, terminei o colégio e a faculdade, iniciei a pós-graduação, entrei e saí de um número considerável de empregos mas, como pude constatar nesta tarde, o ritual do beato continua exatamente o mesmo – com exceção de que sua cabeça branca foi se tornando cada vez mais rareada. Agora que estou desempregado – ou melhor, trabalhando como autônomo, como prefiro me justificar –, o fenômeno do andarilho circunspeto voltou a me assombrar. Não é mais raiva, tampouco fascínio - apenas curiosidade. Só sei que enquanto eu engrenava em uma vida ocupada e produtiva, lutando com unhas e dentes para tentar chegar a algum lugar, ele continuou aqui, caminhando sem destino. Abri mão dos meus hábitos mais particulares, releguei rituais que antes me eram fundamentais, e ele continua defendendo a caminhada da reclusão. Sinto arrepios quando constato que agora, quando minha procura atingiu um beco sem saída e me vi obrigado a voltar para o lugar onde comecei (a janela do meu quarto, que fica ao lado do computador, diante do qual hoje finjo que trabalho), vejo que fui tão longe quanto ele, que daqui nunca saiu.
Terá sido tudo por nada? Deveria eu ter permanecido centrado em mim mesmo ao invés de ter saído em uma corrida frenética contra o tempo? Quem se saiu melhor, eu, que perdi de lavada? Ou ele, que se absteve de tentar? É ele que está ausente do mundo ou seu eu que mantenho as janelas fechadas para mim mesmo? Nada me aterroriza mais do que a idéia de chegar nessa idade e ver que continuo no mesmo lugar. Olharei para esses dias com remorso por ter tão obcecadamente me esforçado para trabalhar ao invés de me dedicar às pequenas coisas que me dão prazer. Como observar o velho caminhar.
Quando a minha bola ali caia, era uma desculpa mais do que plausível para pular o muro e, uma vez no jardim, aproveitar para espiar. Passado algum tempo, foi colocada uma grade de arame entre o casarão e o meu prédio, o que diminuiu a incidência com que a minha bola ali caía, assim como impossibilitou o acesso de crianças bisbilhoteiras como eu. Depois disso, o único contato que voltei a ter com o seu interior foi quando minha bola foi devolvida – o que não se repetiu, aumentando a minha frustração e se transformando em ódio diante do que aquela fundação representava.Aos onze anos, quando vivia o ápice do meu ímpeto adolescente, eu atirava garrafas, latas, roupas e qualquer outro objeto de que pudesse me dispor em suas cercanias. Era um impulso estúpido que, analisado em retrocesso, só podia significar um desejo de interação - oferecer alguma contribuição externa, mesmo anárquica, àquela comunidade fechada. Mais ou menos na mesma época, encontrei um representante direto sobre o qual depositar minha ira.
Era um dos habitantes, um senhor baixo, coxo e roliço que tinha o hábito de caminhar na lateral do convento, um corredor a céu aberto que percorria toda sua extensão e era separado do quintal dos fundos por um muro. Munido de um livro (possivelmente uma bíblia), ele andava lentamente de uma ponta até a outra, incontáveis vezes, maneando sua cabeça branca e ostentando a barriga arredondada.Quando me dei conta daquilo, que logo se mostrou uma atividade diária, fiquei estupefato. Simplesmente não entendia a finalidade de um exercício tão mecânico, oprimido por quatro paredes e uma folha de papel. Como na época eu defendia ideais pretensamente libertários, não tinha outra reação senão sair à janela e gritar: “Vai caminhar na rua!”. O velho simplesmente parava, olhava para cima e balançava a cabeça em reprovação, retornando à sua atividade como se nada tivesse acontecido – o que me deixava ainda mais fulo.Quinze longos anos se passaram, terminei o colégio e a faculdade, iniciei a pós-graduação, entrei e saí de um número considerável de empregos mas, como pude constatar nesta tarde, o ritual do beato continua exatamente o mesmo – com exceção de que sua cabeça branca foi se tornando cada vez mais rareada. Agora que estou desempregado – ou melhor, trabalhando como autônomo, como prefiro me justificar –, o fenômeno do andarilho circunspeto voltou a me assombrar. Não é mais raiva, tampouco fascínio - apenas curiosidade. Só sei que enquanto eu engrenava em uma vida ocupada e produtiva, lutando com unhas e dentes para tentar chegar a algum lugar, ele continuou aqui, caminhando sem destino. Abri mão dos meus hábitos mais particulares, releguei rituais que antes me eram fundamentais, e ele continua defendendo a caminhada da reclusão. Sinto arrepios quando constato que agora, quando minha procura atingiu um beco sem saída e me vi obrigado a voltar para o lugar onde comecei (a janela do meu quarto, que fica ao lado do computador, diante do qual hoje finjo que trabalho), vejo que fui tão longe quanto ele, que daqui nunca saiu.
Terá sido tudo por nada? Deveria eu ter permanecido centrado em mim mesmo ao invés de ter saído em uma corrida frenética contra o tempo? Quem se saiu melhor, eu, que perdi de lavada? Ou ele, que se absteve de tentar? É ele que está ausente do mundo ou seu eu que mantenho as janelas fechadas para mim mesmo? Nada me aterroriza mais do que a idéia de chegar nessa idade e ver que continuo no mesmo lugar. Olharei para esses dias com remorso por ter tão obcecadamente me esforçado para trabalhar ao invés de me dedicar às pequenas coisas que me dão prazer. Como observar o velho caminhar.

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