Ele estava dirigindo com Ela ao lado, tão próxima que sentia o seu joelho com as costas da mão na troca de cada marcha. Era uma manhã fresca em que o Sol, ainda baixo, proporcionava um brilho tão dourado quanto efêmero. Eles estavam saindo de um motel no Morumbi após passarem sua primeira noite juntos. Iam em direção ao carro dela, estava estacionado na rua em que se encontraram na noite anterior. No caminho, conversavam empaticamente, trocando sorrisos sutis e ouvindo, bem ao fundo, uma música tranqüila que Ele havia colocado para tocar.Lá chegando, se surpreenderam com a multa fixada no pára-brisa dela. No escuro da noite, não notaram a placa de proibido estacionar. Foi uma chateação, mas nada que pudesse interferir no encanto daquele novo começo, de dia e, Ele esperava, de uma nova etapa de sua vida. Há tempos procurava alguém com quem compartilhar um nascer do Sol ou de seus discos folk. A moça com quem antes fantasiava em nada se parecia com Ela, mas agora não conseguia pensar em ninguém melhor para ocupar o posto ainda vago.Despediram-se com um bejo terno, sucedido por um sutil afastamento do rosto, sem sequer tirarem os olhos um do outro. Ela entrou no Uno vermelho e seguiu rua abaixo. Ele a acompanhou até a primeira esquina, quando seguiu em frente enquanto Ela dobrava à direita. Enquanto a ultrapassava, apoiou o braço direito no banco do passageiro e deu uma última e decidida olhada para a motorista do carro ao lado. Ela se mantinha atenta à manobra que executava, olhando atentamente para fora do veículo enquanto manobrava com bastante cautela.Estava absolutamente perfeita, com a pele clara contrastando com um tom mais escuro dos cabelos loiros ainda molhados. Estava com os dois olhos bem abertos e colocava o lábio superior sobre o inferior – ele ainda não tinha como saber que essa se mostraria uma idiossincrasia nos momentos de indecisão. Ao recolher aquele conjunto de traços que o atingia em cheio naquele espaço tão curto de tempo, soube que encontrara algo precioso. Ainda enquanto estava prestes a seguir seu caminho, Ela notou que estava sendo observada e projetou a boca carnuda e adocicada, endereçando-lhe um último beijo de afeição. “Desse mato sai cachorro”, disse para si próprio enquanto a seguia. Mesmo que agora, só em pensamento.
quarta-feira, 21 de maio de 2008
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