quarta-feira, 21 de maio de 2008

KETCHUP (conto)

Sua paciência havia se esgotado. Onze e meia da noite, véspera da entrega de sua monografia, centenas de pormenores a serem resolvidos, e a bendita da Bianca ainda não tinha chegado. Em menos de dez horas, ele estaria no trabalho. De lá, iria direto para a universidade, de modo que quaisquer acertos a serem realizados na sua tese não poderiam passar daquela madrugada.Então eis que em meio ao congestionamento caótico da Avenida Hélio Pelegrino, Reinaldo distingue os faróis piscantes do Celta prateado de Bianca em meio aos demais ali enfileirados.
- Oi – ela falou, singelamente inclinando a cabeça para frente, na expectativa do beijo que achava estar por vir.
- Porra! Achei que eu tinha falado para você chegar às onze – ele respondeu enquanto batia a porta atrás de si.
- É que você não viu o trânsito que eu peguei – argumentou sua assertiva namorada, já totalmente recostada no assento do carro.
– Eu saí da agência quinze pras onze.
- Mas será possível que toda quinta-feira é essa putaria? No dia do seu rodízio eu te deixo e te busco na agência no horário exato. Já no dia do meu, em que tudo que eu te peço é para me buscar na porra do mestrado, às onze horas da noite, você chega atrasada.
Reinaldo percebeu que o bando de jovens parados no trânsito ao seu lado assistia à cena toda. Pigarreou, na tentativa de se acalmar.
- Mas que pressa toda é essa para chegar em casa?
- Você não sabe que amanhã é a entrega da minha tese?
- Achei que você já tinha terminado.
- Terminar, eu terminei faz tempo. Mas há certos detalhes de que eu tinha me esquecido e o meu orientador acabou de mencionar.
- E a culpa é minha?
- Não, não é. Mas colaborar também não machuca.
- Mas você não está vendo o trânsito infernal que está nesta avenida?
- Saísse mais cedo. Você não sabe se organizar? Não é possível que todo publicitário trabalhe até as onze da noite.
- Eu já tinha terminado fazia tempo. Estava só fazendo hora, eu e a Cíntia, esperando dar quinze pras onze para vir te buscar.
- Bom, da próxima sai mais cedo, por favor – disse ele, colocando um ponto final na discussão.Foi o suficiente para que eles estabelecessem uma trégua. Pelo menos momentânea, que durou até finalmente conseguirem parar no semáforo da Avenida Santo Amaro.
- Estou com fome – Reinaldo declarou.
- Eu também.- Entra aqui no Burguer King. A gente pega os lanches e leva pra casa.
- Eu não estou a fim de comer Burguer King.
- E o que a princesa quer? – provocou.
- Não sei... Vamos lá na pizzaria Brás.
- Minha querida – ele respondia, contendo-se – eu tenho que terminar o trabalho essa noite. Não tenho tempo para ir comer pizza no Brás. Aproveita agora que o semáforo abriu e entra nesse drive-through.
- Mas eu não agüento mais esse Burguer King.
- O que você sugere, então?
- Vamos no Mc Donald’s.
- Bianca, o Mac está na Faria Lima, no sentido contrário. Você quer ir até lá, só para a gente pegar esse trânsito todo na volta?
- A gente pode cortar caminho.
- Por que você não se lembrou disso quando veio me buscar? Só agora, que você quer comer Mac ao invés de Burguer King, tem essa brilhante idéia? Sejamos práticos, entra aqui no drive, por favor.
Perceptivelmente a contragosto, Bianca assim o fez. O tempo que eles levaram na fila do drive foi equivalente ou maior ao quanto eles demoraram a percorrer aquele meio quarteirão na Avenida Hélio Pelegrino. Bianca pensou em mencionar esse fato, mas relevou.
- Entra aqui, vamos cortar pela Lavandisca – sugeriu Reinaldo, quando já estava com o saco cheio de sanduíches ao lado dos pés, e uma bandejinha com dois copos de refrigerante no colo. Quando foi fazer a curva, Bianca, que dirigia rápido, reduziu com brusquidão.
- Toma cuidado, porra! Olha o que caiu de refrigerante na minha calça.
- Desculpa, mas você me avisou em cima da hora.
- Você já ouviu falar em reduzir as marchas, ao invés de socar o pé freio? Andar com você é como estar em cima de uma mula desembestada...
Bianca se absteve de fazer qualquer comentário. Mesmo compreendendo o estado de nervos do seu namorado, às vésperas da entrega da sua tese de mestrado, ela tinha o seu limite. E críticas quanto às suas habilidades como motorista não contribuíam em nada para que ela se mantivesse no limiar da calma. Resolveu comer umas batatinhas para se acalmar.
- Me passa o catchup – ela pediu a Reinaldo.Ele apanhou aquele saco pardo e vasculhou o seu interior, tentando equilibrar a bandeja com os refrigerantes sobre o seu colo.
- Acho que eles esqueceram.- Mas a gente pediu, expressamente, para que eles colocassem catchup.
- Acho que eles esqueceram.
- Esse Burger King é uma merda, mesmo.
- Acabou o catchup lá de casa?
- Acabou.
- Bom... paciência.
- Paciência nada, vamos comprar no Pão de Açúcar, já que estamos passando por aqui.
- Mas eu não te falei que estou com pressa?-
Falou, mas você sabe que eu não como batata frita sem catchup.Ela encostou pelo meio-fio em frente ao supermercado.
- Mas pelo amor de Deus!
- Pelo amor de Deus, nada. Só porque você se enrolou com os seus compromissos eu tenho que ficar sem catchup?
- Ter que ir almoçar na casa dos seus pais no domingo também não ajudou. Eu te falei que eu precisava dar uma última revisada no trabalho.
Foi o que bastou. Bianca engatou a primeira e saiu cantando pneu. A bomba relógio que havia sido acionada no momento em que Reinaldo não correspondeu ao beijo, logo que entrou no carro, finalmente disparou.
- Mas você é um mesmo um egoísta – ela gritava. – Só se preocupa com as suas coisas. É muito para você ir passar um domingo na casa dos meus pais?
- Não estou dizendo...
- Não está dizendo o caralho! Você só sabe me pegar no pé. Não reconhece nada que eu faço.
- Reconhecer o que você faz? Essa é boa – equiparou o seu tom de voz ao dela. - Me diz, Bianca, o que você faz de tão especial assim por mim?
Bianca se calou. Apenas se virou e deferiu-lhe um olhar de puro ódio. Tão compenetrada nessa ação, que não viu o Golf preto vindo na perpendicular.O Celta foi atingido na lateral, um golpe duro, violento. Reinaldo se viu jogado de um lado para o outro, sem se dar conta do que estava acontecendo. Amuou-se perante aquele estrondo que parecia eclodir no pára-brisa que se espatifava. Quando voltou a si, ainda sem abrir os olhos, passou a mão na própria coxa, removendo os cacos de vidro. Notou que sua calça jeans estava molhada. Ameaçou uma risada, pois Bianca havia finalmente feito com que o refrigerante se derramasse por completo. Mas aquele líquido era muito espesso para ser refrigerante. Abriu os olhos de uma vez e percebeu que a cabeça dela pendia sobre o seu ombro. Livrou-a do cinto de segurança e tentou endireitar seu corpo no assento. Foi quando viu com clareza o sangue viscoso que brotava por debaixo daqueles cabelos espessos e macios.

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