De uma hora pra outra, ele se tornava a mais ínfima partícula existente na Terra. Não que tivesse noção Física ou Geografia, mas, aos cinco anos de idade, ele conseguia se sentir ainda menor, sem ação, como se não estivesse lá. Não entendia como algo tão violento e imprevisível podia ser engatilhado em seu pai, sujeito às vezes tão afável. Caio apenas se amuava, com os braços encolhidos sobre a costela, mãos cruzadas abaixo da cintura, e os olhos fixos no pé.O problema, no caso, não era ele. A discussão se desenrolava por algum motivo que ia além do que ele era capaz de compreender. Era novo demais para entender como um cara aparentemente legal podia, subitamente, se tornar em um animal tão estúpido:
- Sua filha da puta – gritava o pai, a plenos pulmões –, quantas vezes não falei para você não se meter?
- Até quando você quer que eu fique fazendo papel de idiota? – redargüiu a mãe, outra presa jovem demais para ter que lidar com tamanha violência.
- Cala a boca, desgraçada!- Não calo. Na hora de fazer é fácil, agora você vai ter que escutar – desafiou.
- Escutar o caralho...
Antes mesmo que o caralho terminasse de deixar sua boca, a mão esquerda já estava sobre o braço dela, primeiro apertando, como se fosse esmagá-lo, e depois empurrando, como se estivesse se expurgando de alguma praga. Mesmo alto e encorpado, surpreendia, tanto Caio quanto sua mãe, com uma força tão cavalar. Ela foi atirada tão facilmente, sobrevoou aquele metro e meio com tamanha leveza, porém aterrissou no interior da banheira com extrema brusquidão, se desconjuntando toda e gemendo como um boi a beira do abate. Mais um contra-senso para Caio ter de assimilar. Mulher forte, decidida, levantou-se, avançando contra aquele homem que também era amargo demais para a pouca idade que tinha.
- Seu filho da puta, não faz isso na frente do meu filho – ela advertiu, com o dedo em riste, aproximando-se do bigode dele e revelando o roxo medonho no braço flácido.
Ainda demonstrando soberania, ele ergueu o punho cerrado, ameaçando impor-se mais uma vez. Antes que pudesse fazer algo de que se arrependeria, ela antecipou um tapa na cara, com a mão bem aberta, saindo correndo para a sala logo em seguida. Ele foi atrás, também passando por Caio, como se ele ali não estivesse. Ainda não certo de onde pisava, Caio seguiu em passos curtos e temerosos. Não sabia o que lhe aguardava.Como conseqüências intermediárias são capazes de frustrar expectativas extremas, o simples fato de seus pais estarem gritando civilizadamente foi-lhe motivo de alívio. Mas, como tudo que é bom passa rápido, ele logo aprendeu, os ânimos voltaram a se elevar. Sua mãe tentou intervir:
- Caio, meu filho, vai para o quarto – ela falou docilmente, interrompendo o acesso de histeria.
- Não, Caio, fica aí – interveio o pai.- Ele não precisa ver isso – tornou-se a se exaltar.- Ele também é meu filho, e se eu estou dizendo para ele ficar – exasperava-se –, ele vai ficar, porra! -
Não vai, não! –saiu correndo, desta vez em direção à cozinha. Esta dava acesso ao quarto de empregadas, justamente onde ela se trancou.Como Caio estava próximo à porta da cozinha, entrou logo atrás dela, antecipando a passagem truculenta do pai, como se ele não estivesse ali.
Um estrondo. Dois, três, quatro... Extremamente potentes, ruidosos, matando uma esperança de cada vez. Como estes não resolveram, logo vieram os ponta-pés, ainda mais determinados. Escutava-se os estalos da madeira cedendo, junto aos gritos exasperados do outro lado da porta.
- Não! Não! Não! Pára – ela gritava. Só para aquela tábua plana embarrigar-se para dentro só até o ponto de estraçalhar-se ao meio.
Caio não mais espreitava. Agora esperava na cadeira revestida de fórmica, com seus joelhos pequenos e lustrosos espremendo-se um contra o outro. Ergueu a cabeça apenas para ver seu pai saindo debaixo do varal e entrando no quarto com passos firmes. Ergueu um pouco mais e viu a imagem da Nossa Senhora pregada nos azulejos amarelados, de tão encardidos. Não que ele jamais tenha-os visto de outra forma.

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