Ele havia saído de casa disposto a recuperar o tempo perdido. Provar para si mesmo que as velhas correntes estavam rompidas, o ranço superado e a liberdade conquistada. Junto a Paulo e Luís, dois amigos das antigas, foi ao Mezzanine, apinhado clube noturno paulistano. “Aos velhos tempos”, brindaram antes de virar shots de tequila.
O som era alto, o público agitado e uma quantidade de mulheres acima da média. Bastava um leve devaneio com os olhos para encontrar uma destinatária receptiva. Jonas não demorou em fazer a primeira investida. Fora de prática que estava, as palavras saíram atropeladas. Tão alto o som, não entendeu as respostas. Desconfortável, debandou.
Mais uma dose. Aos poucos foi se soltando. Deixava a música tomar seu corpo e dirigir seus movimentos. O clima de irmandade entre os amigos trazia nostalgia. Fez uma segunda tentativa, Françoise. Ela se mostrou bastante indulgente; simpática, ria de orelha a orelha. Tão fácil, ficou sem graça. Passou para frente.
- Cerveja.
“Nada como uma ruivinha”, pensou, ao aproximar-se de uma moça com seios gritantes, pele sardenta e cabelos encaracolados. A risadinha era insuportável, saia à toa, alto demais. Ela não ficava quieta. Claramente estava interessada, mas, em torno de temas desinteressantes, era difícil manter-se atento à conversa. “Vamos para a próxima”, falou a Luís, que aguardava ao lado. “Você está muito fresco”, acusou o amigo. “Eu sei”, respondeu.
- Cerveja.
- Jack Daniel’s.
- Jack Daniel’s.
- Jack Daniel’s.
Tentou mais uma: estudante universitária, 21 anos. Aos 28, faltou-lhe estômago. Então avistou uma morena estonteante, pele bronzeada, cabelos lisos e compridos, tudo no lugar e muito a deixar para a imaginação. O papo fluiu bem. Para surpresa de Jonas, questões instigantes foram resvaladas. A sua mão se acomodou na cintura dela. Então o quadril da moça veio de encontro ao seu. Envolveu-a em seus braços e arriscou um beijo. Com sucesso. Beijo molhado, macio, envolvente, carnal. Terminada a primeira bateria, ficaram sem assunto. Partiram para a segunda.
Recostaram-se em um pilar aos fundos da pista. As mãos dele passavam pela barriguinha dela. Seios prensados contra seu peito. Ela fez com que suas mãos descessem de encontro às coxas. Por conta própria, encontraram seu caminho até as nádegas firmes que testavam a resistência da calça. Momento em que ela apertou seus bíceps, não sabia ele se para repreender ou estimular. Sentiu algo vibrar. Era o minúsculo telefone celular que ela mantinha no bolso da frente. “Preciso ir, minha amiga está me esperando”, anunciou, após aparentemente ter lido uma mensagem de texto. “Anota meu número, vamos ver se a gente combina alguma coisa”, disse ela. “Vamos ver”, respondeu, enquanto pressionava as teclas conforme ela falava - não se deu ao trabalho de salvar.
- Jack Daniel’s.
- Jack Daniel’s.
Sentou-se ao sofá e acendeu um cigarro enquanto deixava aquele gosto meloso do uísque percorrer suas mucosas bucais. A euforia deu espaço à melancolia. Luís e Paulo pareciam estar se dando bem na pista e assim Jonas os deixou. Uma hora se passou. Sua visão estava fora de foco e o peito aberto, como que apunhalado sabe-se lá por quem. À sua diagonal, avistou uma loira de vestido branco, pernas cruzadas, cigarro pendendo na mão direita e olhar perdido no espaço. Seu rosto tinha traços belos e levemente destoados pelo tempo. Devia ter entre 35 e 40 anos. Apesar da maquiagem pesada, dava para notar seus belos olhos azuis acinzentados. Emanavam certa dose de tristeza. Ele se aproximou.
Já no fim de noite, com o som mais baixo e movimentação esparsa, conseguiram manter uma conversa. Agradável, por sinal. Ela sorria carinhosamente, como um animal machucado que de repente encontra cuidado. Beijaram-se, fora de compasso. A boca dela movia-se com extrema voracidade deixando resquício de dentes. Sua língua, cujos vasos da parte inferior podiam ser sentidos, faltou invadir-lhe a goela. Um sabor que misturava cigarro, Trident de melancia e prosecco. Ele pousou a mão esquerda em sua coxa, bem torneada e exposta. “Preciso ir embora”, ela falou. “Eu te levo”, respondeu.
Quando foram em direção ao carro, ela pareceu genuinamente agradecida por ele ter-lhe aberto a porta do passageiro. No caminho, pouco conversaram. Jonas deixou uma música fantasmagórica ecoando ao fundo. Em uma troca de marchas, foi a vez da mão direita ir parar nas pernas dela. Sem maiores firulas, ela a deslizou por sob o vestido. Ao recostar-se sob sua fenda, por sinal, umedecida, não pôde deixar de notar que estava sem calcinha.
Embicou o carro no primeiro motel que viu sem se dar ao trabalho de consultá-la. Nenhuma resistência foi imposta. O quarto tinha cheiro de mofo, rasgos no carpete marrom e um excesso de objetos de madeira que deixavam o ambiente pesado. Não fora escolhido por seus traços de requinte. Em pé, encheu dois copos de uísque até a metade. Ela virou de um gole, ele sorveu lentamente. Na mesma posição, enquanto olhavam-se nos olhos, Jonas puxou a meia calça para baixo. Aproveitando a posição de comando, Ludmila (esse era o seu nome) apoiou o salto alto sobre a cama, dando a deixa de como ele deveria proceder. Assim o fez e continuou até ficar com a mandíbula adormecida. Rios derramados, levantou-se puxando o vestido dela para cima. Deparou-se com seios levemente pendidos para baixo, mas ainda assim suntuosos. Uma silhueta levemente flácida, porém esguia e atraente. Puxou-a de encontro a si e sentiu sua pele de tênue elasticidade, na temperatura certa.
Foi empurrado sobre a cama e despido com urgência. Teve o favor retribuído. Antes que pudesse tomar qualquer iniciativa, ela sentou-se sobre ele. Um gemido contido que combinava dor e prazer. Ela passou a movimentar-se bruscamente, aumentando a magnitude dos gemidos na mesma proporção. Cavalgava feito uma Comanche, com rosto e bicos dos seios apontando para cima, olhos sempre fechados. Pela aflita movimentação de suas mandíbulas, parecia exorcizar algum monstro. Aquilo não passava de masturbação a dois, mas Jonas não se importou nem um pouco.
Quando ela estava a um toque da ebulição, entendeu o sinal e também se permitiu externar. Ela afagou o rosto dele de um jeito meio estabanado, depois deitou-se em seu peito. Desconfortável naquela posição, Jonas rolou-a de lado e lhe abraçou por trás. Sentiu um calafrio, não se acomodava àquele corpo. Afastou-se e deitou de costas. Acendeu um cigarro. “Você é tão misterioso” – foram as primeiras palavras após terem saído do carro. “No que você está pensando?”, perguntou. Jonas sacudiu em desaprovação, não deu a entender que responderia. Depois que espremeu a bituca no interior do cinzeiro, postou-se em cima dela. Então foi sua vez de enfrentar os próprios demônios. Fizeram de frente, de lado, em cima da mesa, ao pé da cama. Por volta das 11 da manhã, quando a expressão de agonia no rosto de Ludmila já havia se tornado insuportável, gerando asco, colocou-a de quatro. A movimentação foi fulminante, violenta. Largados em meio à cama encharcada por seus fluídos corporais, finalmente sentiram-se livres, cada um em seu canto, sob as sombras de cada qual. Com dor de cabeça e a garganta seca, Jonas virou um litro d'água e esperou ela sair do banho para se lavar.
Conforme ela subia a meia-calça por sob o vestido, calçava o último pé da botina sentado ao canto da cama. Apanhou a carteira e os cigarros no criado-mudo. Prendeu o relógio ao redor do punho e vislumbrou seu reflexo no espelho. Era hora de ir.
O som era alto, o público agitado e uma quantidade de mulheres acima da média. Bastava um leve devaneio com os olhos para encontrar uma destinatária receptiva. Jonas não demorou em fazer a primeira investida. Fora de prática que estava, as palavras saíram atropeladas. Tão alto o som, não entendeu as respostas. Desconfortável, debandou.
Mais uma dose. Aos poucos foi se soltando. Deixava a música tomar seu corpo e dirigir seus movimentos. O clima de irmandade entre os amigos trazia nostalgia. Fez uma segunda tentativa, Françoise. Ela se mostrou bastante indulgente; simpática, ria de orelha a orelha. Tão fácil, ficou sem graça. Passou para frente.
- Cerveja.
“Nada como uma ruivinha”, pensou, ao aproximar-se de uma moça com seios gritantes, pele sardenta e cabelos encaracolados. A risadinha era insuportável, saia à toa, alto demais. Ela não ficava quieta. Claramente estava interessada, mas, em torno de temas desinteressantes, era difícil manter-se atento à conversa. “Vamos para a próxima”, falou a Luís, que aguardava ao lado. “Você está muito fresco”, acusou o amigo. “Eu sei”, respondeu.
- Cerveja.
- Jack Daniel’s.
- Jack Daniel’s.
- Jack Daniel’s.
Tentou mais uma: estudante universitária, 21 anos. Aos 28, faltou-lhe estômago. Então avistou uma morena estonteante, pele bronzeada, cabelos lisos e compridos, tudo no lugar e muito a deixar para a imaginação. O papo fluiu bem. Para surpresa de Jonas, questões instigantes foram resvaladas. A sua mão se acomodou na cintura dela. Então o quadril da moça veio de encontro ao seu. Envolveu-a em seus braços e arriscou um beijo. Com sucesso. Beijo molhado, macio, envolvente, carnal. Terminada a primeira bateria, ficaram sem assunto. Partiram para a segunda.
Recostaram-se em um pilar aos fundos da pista. As mãos dele passavam pela barriguinha dela. Seios prensados contra seu peito. Ela fez com que suas mãos descessem de encontro às coxas. Por conta própria, encontraram seu caminho até as nádegas firmes que testavam a resistência da calça. Momento em que ela apertou seus bíceps, não sabia ele se para repreender ou estimular. Sentiu algo vibrar. Era o minúsculo telefone celular que ela mantinha no bolso da frente. “Preciso ir, minha amiga está me esperando”, anunciou, após aparentemente ter lido uma mensagem de texto. “Anota meu número, vamos ver se a gente combina alguma coisa”, disse ela. “Vamos ver”, respondeu, enquanto pressionava as teclas conforme ela falava - não se deu ao trabalho de salvar.
- Jack Daniel’s.
- Jack Daniel’s.
Sentou-se ao sofá e acendeu um cigarro enquanto deixava aquele gosto meloso do uísque percorrer suas mucosas bucais. A euforia deu espaço à melancolia. Luís e Paulo pareciam estar se dando bem na pista e assim Jonas os deixou. Uma hora se passou. Sua visão estava fora de foco e o peito aberto, como que apunhalado sabe-se lá por quem. À sua diagonal, avistou uma loira de vestido branco, pernas cruzadas, cigarro pendendo na mão direita e olhar perdido no espaço. Seu rosto tinha traços belos e levemente destoados pelo tempo. Devia ter entre 35 e 40 anos. Apesar da maquiagem pesada, dava para notar seus belos olhos azuis acinzentados. Emanavam certa dose de tristeza. Ele se aproximou.
Já no fim de noite, com o som mais baixo e movimentação esparsa, conseguiram manter uma conversa. Agradável, por sinal. Ela sorria carinhosamente, como um animal machucado que de repente encontra cuidado. Beijaram-se, fora de compasso. A boca dela movia-se com extrema voracidade deixando resquício de dentes. Sua língua, cujos vasos da parte inferior podiam ser sentidos, faltou invadir-lhe a goela. Um sabor que misturava cigarro, Trident de melancia e prosecco. Ele pousou a mão esquerda em sua coxa, bem torneada e exposta. “Preciso ir embora”, ela falou. “Eu te levo”, respondeu.
Quando foram em direção ao carro, ela pareceu genuinamente agradecida por ele ter-lhe aberto a porta do passageiro. No caminho, pouco conversaram. Jonas deixou uma música fantasmagórica ecoando ao fundo. Em uma troca de marchas, foi a vez da mão direita ir parar nas pernas dela. Sem maiores firulas, ela a deslizou por sob o vestido. Ao recostar-se sob sua fenda, por sinal, umedecida, não pôde deixar de notar que estava sem calcinha.
Embicou o carro no primeiro motel que viu sem se dar ao trabalho de consultá-la. Nenhuma resistência foi imposta. O quarto tinha cheiro de mofo, rasgos no carpete marrom e um excesso de objetos de madeira que deixavam o ambiente pesado. Não fora escolhido por seus traços de requinte. Em pé, encheu dois copos de uísque até a metade. Ela virou de um gole, ele sorveu lentamente. Na mesma posição, enquanto olhavam-se nos olhos, Jonas puxou a meia calça para baixo. Aproveitando a posição de comando, Ludmila (esse era o seu nome) apoiou o salto alto sobre a cama, dando a deixa de como ele deveria proceder. Assim o fez e continuou até ficar com a mandíbula adormecida. Rios derramados, levantou-se puxando o vestido dela para cima. Deparou-se com seios levemente pendidos para baixo, mas ainda assim suntuosos. Uma silhueta levemente flácida, porém esguia e atraente. Puxou-a de encontro a si e sentiu sua pele de tênue elasticidade, na temperatura certa.
Foi empurrado sobre a cama e despido com urgência. Teve o favor retribuído. Antes que pudesse tomar qualquer iniciativa, ela sentou-se sobre ele. Um gemido contido que combinava dor e prazer. Ela passou a movimentar-se bruscamente, aumentando a magnitude dos gemidos na mesma proporção. Cavalgava feito uma Comanche, com rosto e bicos dos seios apontando para cima, olhos sempre fechados. Pela aflita movimentação de suas mandíbulas, parecia exorcizar algum monstro. Aquilo não passava de masturbação a dois, mas Jonas não se importou nem um pouco.
Quando ela estava a um toque da ebulição, entendeu o sinal e também se permitiu externar. Ela afagou o rosto dele de um jeito meio estabanado, depois deitou-se em seu peito. Desconfortável naquela posição, Jonas rolou-a de lado e lhe abraçou por trás. Sentiu um calafrio, não se acomodava àquele corpo. Afastou-se e deitou de costas. Acendeu um cigarro. “Você é tão misterioso” – foram as primeiras palavras após terem saído do carro. “No que você está pensando?”, perguntou. Jonas sacudiu em desaprovação, não deu a entender que responderia. Depois que espremeu a bituca no interior do cinzeiro, postou-se em cima dela. Então foi sua vez de enfrentar os próprios demônios. Fizeram de frente, de lado, em cima da mesa, ao pé da cama. Por volta das 11 da manhã, quando a expressão de agonia no rosto de Ludmila já havia se tornado insuportável, gerando asco, colocou-a de quatro. A movimentação foi fulminante, violenta. Largados em meio à cama encharcada por seus fluídos corporais, finalmente sentiram-se livres, cada um em seu canto, sob as sombras de cada qual. Com dor de cabeça e a garganta seca, Jonas virou um litro d'água e esperou ela sair do banho para se lavar.
Conforme ela subia a meia-calça por sob o vestido, calçava o último pé da botina sentado ao canto da cama. Apanhou a carteira e os cigarros no criado-mudo. Prendeu o relógio ao redor do punho e vislumbrou seu reflexo no espelho. Era hora de ir.

2 comentários:
Intenso, repleto de boas imagens, descrições de
cenários, impressões... quente, texto quente.
Concordo plenamente.
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