sábado, 8 de novembro de 2008

O REGRESSO DA TEMPESTADE

- Se eu me jogar você me pega? – perguntou Luana, de costas para Dario, com os braços estendidos para o alto.
- Pego – ele respondeu, com calma e confiança.
Então ela se deixou soltar, sutilmente caindo para trás, de encontro aos seus braços e peito que a acomodaram com segurança.
- Você pode sempre confiar em mim – ele falou.
- Promete?
- Prometo.
Juntaram-se em acalento, um abraço forte e resoluto. Estavam em uma praia deserta. A luz já amena com o desenrolar da tarde, um vento fresco e o barulho das ondas arrebentando ao fundo. O mar era de um verde transparente, enxergava-se o solo através da água. Um cenário translúcido.
Caminharam de pés descalços sobre a areia – fina, leve, úmida. Por sobre o biquíni, ela vestia uma saída de praia azul estampada. Ele, camiseta branca e bermuda de sarja. Com as mãos cruzadas entre si, continuaram andando. O Sol baixo, parcialmente encoberto, esforçarva-se para que aquela luz alaranjada, tão incandescente quanto efêmera, atravessasse as nuvens.
- Amo você – ela falou, surpreendendo-lhe com um beijo no rosto.
- Também te amo – respondeu, com sorriso de satisfação.
Foram de encontro ao mar apenas até a água encobrir seus tornozelos. De lado um para o outro, envolveram-se pelas cinturas. Encararam o horizonte. Gaivotas e vôos rasantes.
Dario avistou uma concha sendo carregada pela maré chegando à baía. Abaixou-se para apanhá-la e notou que em seu interior residia uma ostra. A superfície do casco estava rachada, como que tivesse se chocado em pedras e corais desde que puxada da cama em que repousava. Ao tirar o molusco da concha, sentiu-o movimentar-se, escorregadio, entre os dedos. Com o indicador e o polegar, levou-o de encontro à boca de Luana que, em uma mordida incisiva, arrancou-lhe metade. Com as mãos espalmadas, colocou o que sobrou em sua própria. Deixaram-se inundar pelo gosto salgado, metálico e oleoso do gélido fruto do mar.
Novamente de mãos dadas, sobrepuseram o tombo da praia caminhando até o epicentro do afresco de areia. Ela tirou o vestido estendendo-o sobre o relevo. Foi puxada de encontro a ele. Beijaram-se com ternura, envolvendo-se, atiçando-se, desenrolando os próprios segredos. Gentilmente, Dario a deitou sobre a cama que fizeram na areia. Suas mãos se fincaram nos cabelos longos e macios. Os dois corpos se entrelaçaram com intimidade. Epidermes tomadas por um eletrificante episódio de atração. Dedos dos pés moviam-se espasmodicamente. Olhos reviravam-se. As línguas remoíam-se no interior da boca e fora dela – um sabor cítrico que ofuscava a acidez da ostra. A um passo do cume, deram-se as mãos, novamente, entrelaçando-as pelos dedos. Olhos nos olhos, boca com boca. Duas geografias integradas em uma.
- Te amo muito – ela disse, ofegante e estremecida.
- Também te amo demais – respondeu, assumindo a total vulnerabilidade.
Deitaram-se em concha, com a cabeça dela repousando em seu braço esquerdo e o direito envolvendo aquele quadril com propriedade. As costas dela bem acomodadas em seu peito. Cinturas simetricamente alinhadas. A perna dele entre as dela, cujos pés conseguiam se estender até o seu tornozelo. Formavam um lar.
- Que susto! – Luana exclamou, inquietando-se ao ver um caranguejo emergindo da areia.
- Não é nada – Dario falou, puxando-a de volta aos seus braços. – Estou aqui para te proteger.
Adormeceram.
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Desatava a chover. Luana despencava de uma colina. Em prantos, cabelos ao vento. Dario estava de pé em uma caverna ao centro daquela formação rochosa. Suas mãos estavam atadas.
Em desespero, esforçava-se para se desvencilhar da corda que lhe prendia os punhos.
- Socorro! – ela gritava, conforme se aproximava dele, que assistia debaixo.
Avistando uma lasca pontiaguda de pedra, adiantou-se em cerrar o cordelete de nylon. Fez isso aos prantos, ferindo a própria pele, que agora sangrava. Quando conseguiu se libertar, ela estava bem próxima. Fincou a mão direita em uma cavidade de pedra e estendeu a mão esquerda para ela, que vinha rápido demais. Ela esticou o braço para que sua mão fosse de encontro à dele, porém passou-lhe entre os dedos.
Impotente, Dario observou-a submergindo mar adentro.
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Despertou em um salto. Olhou para o alto, viu que agora garoava. O céu estava fechado e cinzento. Logo iria anoitecer.
Virou-se para o lado e viu que Luana não estava mais lá. Desesperado, levantou-se em um pulo. Com as mãos sobre a fronte, girou 360 graus sondando pela imagem dela. Avistou a parte de cima do biquíni flutuando na área de arrebentação. Correu em direção ao mar.
Enfrentou as ondas e a correnteza com largas braçadas. Tapou a boca e o nariz, mergulhando de peito. O mar estava muito movimentado. Aquele pó acinzentado ofuscava-lhe a visão. Ao retornar à superfície para buscar fôlego, enxergou seus cabelos loiros ao vento conforme ela caminhava em direção à outra ponta da praia. Com braçadas largas, tentava se dirigir à baía, mas a correnteza lhe segurava. Colocando todas as suas forças nos ombros, conseguiu vencê-la. Luana não estava mais ao alcance do olhar.
- Luana! Luana! – Dario gritava, a plenos pulmões, conforme corria na direção que ela parecia ter seguido. Sua cabeça movimentava-se freneticamente na tentativa de que seus olhos cobrissem cada centímetro daquele território acidentado. Fôlego começava a lhe faltar, mas não ousaria diminuir o passo. Urubus disputavam a carniça de um cachorro magro e destroçado.
Então viu o vestido dela pendendo no galho de árvore na restinga. Saiu em disparada, ferindo os pés no contato com as raízes e espinhos. Sangue lhe custou.
- Luana! Luana! – emanava em desespero.
Ela agora estava em pé, nua, sobre uma das dunas ao fundo. Usando de pernas, braços e resiliência, venceu a distância e a altura sobre a areia molhada. Ela permanecia ali parada, sorriso discreto no canto dos lábios e semblante de sobriedade.
- O que aconteceu, meu amor? – ele perguntava conforme se aproximava, esbaforido.
Ela permanecia sem reação.
Ao impulsionar-se na mais alta das pedras escondidas sob a areia, se antecipou com um abraço. Abraçou o vento, pois ela não estava mais lá. Perplexo, Dario se pôs a perscrutar em todas as direções.
- Luana! Luana! – em pura angústia.
Novamente a enxergou, agora à encosta da parte posterior da formação arenosa.
- Meu anjo, o que está acontecendo? - Ele perguntou, quando mais uma vez se colocou diante de sua mulher. O semblante dela permanecia o mesmo, porém agora estava vestida.
- Não está acontecendo nada, meu amor. Vai ficar tudo bem.
Desta vez ele tentou tocá-la com as mãos, mas elas atravessavam aquela imagem, como que diante de uma ilusão. Um piscar de olhos, ela não estava mais lá. Inconsolável, Dario se pôs a sentar e começou a chorar. Agora estava escuro.
Até que escutou: - Aqui embaixo, meu amor – a voz dela mantinha o mesmo tom suave, aveludado e serene do início daquela tarde.
Ele se levantou e, aproximando-se ainda mais da encosta, se surpreendeu ao olhar para baixo e vê-la emanar uma luz fluorescente que irrompia a escuridão.
- Estou aqui, querido – ela falava.
Dario colocou metade dos pés ensangüentados para fora, custava a acreditar.
- Pula que eu te pego – disse Luana.
- Promete? - replicou.
Ela simplesmente aquiesceu com a cabeça.
Então Dario se virou de costas para o precipício, ergueu os braços para o alto e se permitiu despencar.
Teve uma queda seca, aterrissando em um buraco repleto de pedregulhos. Com o impacto, sentiu o peito estremecer, a cabeça bater e a espinha dorsal se estilhaçar. Olhou para o alto e agora só via a escuridão. Desatava a chover.

4 comentários:

Anônimo disse...

Animal!
Temos o escritor!
Abração, Alexandre

Fernando Carneiro disse...

Carlos,
Também achei bem intrigante.
Foi uma leitura corrida. Prometo ler com bastante atenção e me propor a fazer alguns comentários se for do seu agrado, porém, de qualquer modo, eu curti bastante.
Boa!

Carlos Messias disse...

Sim, comentários (enaltecendo ou execrando) são sempre do meu agrado.

Marília Soares disse...

Uma típica sequência kafkaniana ambientada em um cenário digno Hemingway. Angustiante, muito bom!