- Se eu me jogar você me pega? – perguntou Luana, de costas para Dario, com os braços estendidos para o alto.
- Pego – ele respondeu, com calma e confiança.
Então ela se deixou soltar, sutilmente caindo para trás, de encontro aos seus braços e peito que a acomodaram com segurança.
- Você pode sempre confiar em mim – ele falou.
- Promete?
- Prometo.
Juntaram-se em acalento, um abraço forte e resoluto. Estavam em uma praia deserta. A luz já amena com o desenrolar da tarde, um vento fresco e o barulho das ondas arrebentando ao fundo. O mar era de um verde transparente, enxergava-se o solo através da água. Um cenário translúcido.
Caminharam de pés descalços sobre a areia – fina, leve, úmida. Por sobre o biquíni, ela vestia uma saída de praia azul estampada. Ele, camiseta branca e bermuda de sarja. Com as mãos cruzadas entre si, continuaram andando. O Sol baixo, parcialmente encoberto, esforçarva-se para que aquela luz alaranjada, tão incandescente quanto efêmera, atravessasse as nuvens.
- Amo você – ela falou, surpreendendo-lhe com um beijo no rosto.
- Também te amo – respondeu, com sorriso de satisfação.
Foram de encontro ao mar apenas até a água encobrir seus tornozelos. De lado um para o outro, envolveram-se pelas cinturas. Encararam o horizonte. Gaivotas e vôos rasantes.
Dario avistou uma concha sendo carregada pela maré chegando à baía. Abaixou-se para apanhá-la e notou que em seu interior residia uma ostra. A superfície do casco estava rachada, como que tivesse se chocado em pedras e corais desde que puxada da cama em que repousava. Ao tirar o molusco da concha, sentiu-o movimentar-se, escorregadio, entre os dedos. Com o indicador e o polegar, levou-o de encontro à boca de Luana que, em uma mordida incisiva, arrancou-lhe metade. Com as mãos espalmadas, colocou o que sobrou em sua própria. Deixaram-se inundar pelo gosto salgado, metálico e oleoso do gélido fruto do mar.
Novamente de mãos dadas, sobrepuseram o tombo da praia caminhando até o epicentro do afresco de areia. Ela tirou o vestido estendendo-o sobre o relevo. Foi puxada de encontro a ele. Beijaram-se com ternura, envolvendo-se, atiçando-se, desenrolando os próprios segredos. Gentilmente, Dario a deitou sobre a cama que fizeram na areia. Suas mãos se fincaram nos cabelos longos e macios. Os dois corpos se entrelaçaram com intimidade. Epidermes tomadas por um eletrificante episódio de atração. Dedos dos pés moviam-se espasmodicamente. Olhos reviravam-se. As línguas remoíam-se no interior da boca e fora dela – um sabor cítrico que ofuscava a acidez da ostra. A um passo do cume, deram-se as mãos, novamente, entrelaçando-as pelos dedos. Olhos nos olhos, boca com boca. Duas geografias integradas em uma.
- Te amo muito – ela disse, ofegante e estremecida.
- Também te amo demais – respondeu, assumindo a total vulnerabilidade.
Deitaram-se em concha, com a cabeça dela repousando em seu braço esquerdo e o direito envolvendo aquele quadril com propriedade. As costas dela bem acomodadas em seu peito. Cinturas simetricamente alinhadas. A perna dele entre as dela, cujos pés conseguiam se estender até o seu tornozelo. Formavam um lar.
- Que susto! – Luana exclamou, inquietando-se ao ver um caranguejo emergindo da areia.
- Não é nada – Dario falou, puxando-a de volta aos seus braços. – Estou aqui para te proteger.
Adormeceram.
_________________
Desatava a chover. Luana despencava de uma colina. Em prantos, cabelos ao vento. Dario estava de pé em uma caverna ao centro daquela formação rochosa. Suas mãos estavam atadas.
Em desespero, esforçava-se para se desvencilhar da corda que lhe prendia os punhos.
- Socorro! – ela gritava, conforme se aproximava dele, que assistia debaixo.
Avistando uma lasca pontiaguda de pedra, adiantou-se em cerrar o cordelete de nylon. Fez isso aos prantos, ferindo a própria pele, que agora sangrava. Quando conseguiu se libertar, ela estava bem próxima. Fincou a mão direita em uma cavidade de pedra e estendeu a mão esquerda para ela, que vinha rápido demais. Ela esticou o braço para que sua mão fosse de encontro à dele, porém passou-lhe entre os dedos.
Impotente, Dario observou-a submergindo mar adentro.
_________________
Despertou em um salto. Olhou para o alto, viu que agora garoava. O céu estava fechado e cinzento. Logo iria anoitecer.
Virou-se para o lado e viu que Luana não estava mais lá. Desesperado, levantou-se em um pulo. Com as mãos sobre a fronte, girou 360 graus sondando pela imagem dela. Avistou a parte de cima do biquíni flutuando na área de arrebentação. Correu em direção ao mar.
Enfrentou as ondas e a correnteza com largas braçadas. Tapou a boca e o nariz, mergulhando de peito. O mar estava muito movimentado. Aquele pó acinzentado ofuscava-lhe a visão. Ao retornar à superfície para buscar fôlego, enxergou seus cabelos loiros ao vento conforme ela caminhava em direção à outra ponta da praia. Com braçadas largas, tentava se dirigir à baía, mas a correnteza lhe segurava. Colocando todas as suas forças nos ombros, conseguiu vencê-la. Luana não estava mais ao alcance do olhar.
- Luana! Luana! – Dario gritava, a plenos pulmões, conforme corria na direção que ela parecia ter seguido. Sua cabeça movimentava-se freneticamente na tentativa de que seus olhos cobrissem cada centímetro daquele território acidentado. Fôlego começava a lhe faltar, mas não ousaria diminuir o passo. Urubus disputavam a carniça de um cachorro magro e destroçado.
Então viu o vestido dela pendendo no galho de árvore na restinga. Saiu em disparada, ferindo os pés no contato com as raízes e espinhos. Sangue lhe custou.
- Luana! Luana! – emanava em desespero.
Ela agora estava em pé, nua, sobre uma das dunas ao fundo. Usando de pernas, braços e resiliência, venceu a distância e a altura sobre a areia molhada. Ela permanecia ali parada, sorriso discreto no canto dos lábios e semblante de sobriedade.
- O que aconteceu, meu amor? – ele perguntava conforme se aproximava, esbaforido.
Ela permanecia sem reação.
Ao impulsionar-se na mais alta das pedras escondidas sob a areia, se antecipou com um abraço. Abraçou o vento, pois ela não estava mais lá. Perplexo, Dario se pôs a perscrutar em todas as direções.
- Luana! Luana! – em pura angústia.
Novamente a enxergou, agora à encosta da parte posterior da formação arenosa.
- Meu anjo, o que está acontecendo? - Ele perguntou, quando mais uma vez se colocou diante de sua mulher. O semblante dela permanecia o mesmo, porém agora estava vestida.
- Não está acontecendo nada, meu amor. Vai ficar tudo bem.
Desta vez ele tentou tocá-la com as mãos, mas elas atravessavam aquela imagem, como que diante de uma ilusão. Um piscar de olhos, ela não estava mais lá. Inconsolável, Dario se pôs a sentar e começou a chorar. Agora estava escuro.
Até que escutou: - Aqui embaixo, meu amor – a voz dela mantinha o mesmo tom suave, aveludado e serene do início daquela tarde.
Ele se levantou e, aproximando-se ainda mais da encosta, se surpreendeu ao olhar para baixo e vê-la emanar uma luz fluorescente que irrompia a escuridão.
- Estou aqui, querido – ela falava.
Dario colocou metade dos pés ensangüentados para fora, custava a acreditar.
- Pula que eu te pego – disse Luana.
- Promete? - replicou.
Ela simplesmente aquiesceu com a cabeça.
Então Dario se virou de costas para o precipício, ergueu os braços para o alto e se permitiu despencar.
Teve uma queda seca, aterrissando em um buraco repleto de pedregulhos. Com o impacto, sentiu o peito estremecer, a cabeça bater e a espinha dorsal se estilhaçar. Olhou para o alto e agora só via a escuridão. Desatava a chover.
sábado, 8 de novembro de 2008
O REGRESSO DA TEMPESTADE
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
ENCONTROS FURTIVOS
Ele havia saído de casa disposto a recuperar o tempo perdido. Provar para si mesmo que as velhas correntes estavam rompidas, o ranço superado e a liberdade conquistada. Junto a Paulo e Luís, dois amigos das antigas, foi ao Mezzanine, apinhado clube noturno paulistano. “Aos velhos tempos”, brindaram antes de virar shots de tequila.
O som era alto, o público agitado e uma quantidade de mulheres acima da média. Bastava um leve devaneio com os olhos para encontrar uma destinatária receptiva. Jonas não demorou em fazer a primeira investida. Fora de prática que estava, as palavras saíram atropeladas. Tão alto o som, não entendeu as respostas. Desconfortável, debandou.
Mais uma dose. Aos poucos foi se soltando. Deixava a música tomar seu corpo e dirigir seus movimentos. O clima de irmandade entre os amigos trazia nostalgia. Fez uma segunda tentativa, Françoise. Ela se mostrou bastante indulgente; simpática, ria de orelha a orelha. Tão fácil, ficou sem graça. Passou para frente.
- Cerveja.
“Nada como uma ruivinha”, pensou, ao aproximar-se de uma moça com seios gritantes, pele sardenta e cabelos encaracolados. A risadinha era insuportável, saia à toa, alto demais. Ela não ficava quieta. Claramente estava interessada, mas, em torno de temas desinteressantes, era difícil manter-se atento à conversa. “Vamos para a próxima”, falou a Luís, que aguardava ao lado. “Você está muito fresco”, acusou o amigo. “Eu sei”, respondeu.
- Cerveja.
- Jack Daniel’s.
- Jack Daniel’s.
- Jack Daniel’s.
Tentou mais uma: estudante universitária, 21 anos. Aos 28, faltou-lhe estômago. Então avistou uma morena estonteante, pele bronzeada, cabelos lisos e compridos, tudo no lugar e muito a deixar para a imaginação. O papo fluiu bem. Para surpresa de Jonas, questões instigantes foram resvaladas. A sua mão se acomodou na cintura dela. Então o quadril da moça veio de encontro ao seu. Envolveu-a em seus braços e arriscou um beijo. Com sucesso. Beijo molhado, macio, envolvente, carnal. Terminada a primeira bateria, ficaram sem assunto. Partiram para a segunda.
Recostaram-se em um pilar aos fundos da pista. As mãos dele passavam pela barriguinha dela. Seios prensados contra seu peito. Ela fez com que suas mãos descessem de encontro às coxas. Por conta própria, encontraram seu caminho até as nádegas firmes que testavam a resistência da calça. Momento em que ela apertou seus bíceps, não sabia ele se para repreender ou estimular. Sentiu algo vibrar. Era o minúsculo telefone celular que ela mantinha no bolso da frente. “Preciso ir, minha amiga está me esperando”, anunciou, após aparentemente ter lido uma mensagem de texto. “Anota meu número, vamos ver se a gente combina alguma coisa”, disse ela. “Vamos ver”, respondeu, enquanto pressionava as teclas conforme ela falava - não se deu ao trabalho de salvar.
- Jack Daniel’s.
- Jack Daniel’s.
Sentou-se ao sofá e acendeu um cigarro enquanto deixava aquele gosto meloso do uísque percorrer suas mucosas bucais. A euforia deu espaço à melancolia. Luís e Paulo pareciam estar se dando bem na pista e assim Jonas os deixou. Uma hora se passou. Sua visão estava fora de foco e o peito aberto, como que apunhalado sabe-se lá por quem. À sua diagonal, avistou uma loira de vestido branco, pernas cruzadas, cigarro pendendo na mão direita e olhar perdido no espaço. Seu rosto tinha traços belos e levemente destoados pelo tempo. Devia ter entre 35 e 40 anos. Apesar da maquiagem pesada, dava para notar seus belos olhos azuis acinzentados. Emanavam certa dose de tristeza. Ele se aproximou.
Já no fim de noite, com o som mais baixo e movimentação esparsa, conseguiram manter uma conversa. Agradável, por sinal. Ela sorria carinhosamente, como um animal machucado que de repente encontra cuidado. Beijaram-se, fora de compasso. A boca dela movia-se com extrema voracidade deixando resquício de dentes. Sua língua, cujos vasos da parte inferior podiam ser sentidos, faltou invadir-lhe a goela. Um sabor que misturava cigarro, Trident de melancia e prosecco. Ele pousou a mão esquerda em sua coxa, bem torneada e exposta. “Preciso ir embora”, ela falou. “Eu te levo”, respondeu.
Quando foram em direção ao carro, ela pareceu genuinamente agradecida por ele ter-lhe aberto a porta do passageiro. No caminho, pouco conversaram. Jonas deixou uma música fantasmagórica ecoando ao fundo. Em uma troca de marchas, foi a vez da mão direita ir parar nas pernas dela. Sem maiores firulas, ela a deslizou por sob o vestido. Ao recostar-se sob sua fenda, por sinal, umedecida, não pôde deixar de notar que estava sem calcinha.
Embicou o carro no primeiro motel que viu sem se dar ao trabalho de consultá-la. Nenhuma resistência foi imposta. O quarto tinha cheiro de mofo, rasgos no carpete marrom e um excesso de objetos de madeira que deixavam o ambiente pesado. Não fora escolhido por seus traços de requinte. Em pé, encheu dois copos de uísque até a metade. Ela virou de um gole, ele sorveu lentamente. Na mesma posição, enquanto olhavam-se nos olhos, Jonas puxou a meia calça para baixo. Aproveitando a posição de comando, Ludmila (esse era o seu nome) apoiou o salto alto sobre a cama, dando a deixa de como ele deveria proceder. Assim o fez e continuou até ficar com a mandíbula adormecida. Rios derramados, levantou-se puxando o vestido dela para cima. Deparou-se com seios levemente pendidos para baixo, mas ainda assim suntuosos. Uma silhueta levemente flácida, porém esguia e atraente. Puxou-a de encontro a si e sentiu sua pele de tênue elasticidade, na temperatura certa.
Foi empurrado sobre a cama e despido com urgência. Teve o favor retribuído. Antes que pudesse tomar qualquer iniciativa, ela sentou-se sobre ele. Um gemido contido que combinava dor e prazer. Ela passou a movimentar-se bruscamente, aumentando a magnitude dos gemidos na mesma proporção. Cavalgava feito uma Comanche, com rosto e bicos dos seios apontando para cima, olhos sempre fechados. Pela aflita movimentação de suas mandíbulas, parecia exorcizar algum monstro. Aquilo não passava de masturbação a dois, mas Jonas não se importou nem um pouco.
Quando ela estava a um toque da ebulição, entendeu o sinal e também se permitiu externar. Ela afagou o rosto dele de um jeito meio estabanado, depois deitou-se em seu peito. Desconfortável naquela posição, Jonas rolou-a de lado e lhe abraçou por trás. Sentiu um calafrio, não se acomodava àquele corpo. Afastou-se e deitou de costas. Acendeu um cigarro. “Você é tão misterioso” – foram as primeiras palavras após terem saído do carro. “No que você está pensando?”, perguntou. Jonas sacudiu em desaprovação, não deu a entender que responderia. Depois que espremeu a bituca no interior do cinzeiro, postou-se em cima dela. Então foi sua vez de enfrentar os próprios demônios. Fizeram de frente, de lado, em cima da mesa, ao pé da cama. Por volta das 11 da manhã, quando a expressão de agonia no rosto de Ludmila já havia se tornado insuportável, gerando asco, colocou-a de quatro. A movimentação foi fulminante, violenta. Largados em meio à cama encharcada por seus fluídos corporais, finalmente sentiram-se livres, cada um em seu canto, sob as sombras de cada qual. Com dor de cabeça e a garganta seca, Jonas virou um litro d'água e esperou ela sair do banho para se lavar.
Conforme ela subia a meia-calça por sob o vestido, calçava o último pé da botina sentado ao canto da cama. Apanhou a carteira e os cigarros no criado-mudo. Prendeu o relógio ao redor do punho e vislumbrou seu reflexo no espelho. Era hora de ir.
O som era alto, o público agitado e uma quantidade de mulheres acima da média. Bastava um leve devaneio com os olhos para encontrar uma destinatária receptiva. Jonas não demorou em fazer a primeira investida. Fora de prática que estava, as palavras saíram atropeladas. Tão alto o som, não entendeu as respostas. Desconfortável, debandou.
Mais uma dose. Aos poucos foi se soltando. Deixava a música tomar seu corpo e dirigir seus movimentos. O clima de irmandade entre os amigos trazia nostalgia. Fez uma segunda tentativa, Françoise. Ela se mostrou bastante indulgente; simpática, ria de orelha a orelha. Tão fácil, ficou sem graça. Passou para frente.
- Cerveja.
“Nada como uma ruivinha”, pensou, ao aproximar-se de uma moça com seios gritantes, pele sardenta e cabelos encaracolados. A risadinha era insuportável, saia à toa, alto demais. Ela não ficava quieta. Claramente estava interessada, mas, em torno de temas desinteressantes, era difícil manter-se atento à conversa. “Vamos para a próxima”, falou a Luís, que aguardava ao lado. “Você está muito fresco”, acusou o amigo. “Eu sei”, respondeu.
- Cerveja.
- Jack Daniel’s.
- Jack Daniel’s.
- Jack Daniel’s.
Tentou mais uma: estudante universitária, 21 anos. Aos 28, faltou-lhe estômago. Então avistou uma morena estonteante, pele bronzeada, cabelos lisos e compridos, tudo no lugar e muito a deixar para a imaginação. O papo fluiu bem. Para surpresa de Jonas, questões instigantes foram resvaladas. A sua mão se acomodou na cintura dela. Então o quadril da moça veio de encontro ao seu. Envolveu-a em seus braços e arriscou um beijo. Com sucesso. Beijo molhado, macio, envolvente, carnal. Terminada a primeira bateria, ficaram sem assunto. Partiram para a segunda.
Recostaram-se em um pilar aos fundos da pista. As mãos dele passavam pela barriguinha dela. Seios prensados contra seu peito. Ela fez com que suas mãos descessem de encontro às coxas. Por conta própria, encontraram seu caminho até as nádegas firmes que testavam a resistência da calça. Momento em que ela apertou seus bíceps, não sabia ele se para repreender ou estimular. Sentiu algo vibrar. Era o minúsculo telefone celular que ela mantinha no bolso da frente. “Preciso ir, minha amiga está me esperando”, anunciou, após aparentemente ter lido uma mensagem de texto. “Anota meu número, vamos ver se a gente combina alguma coisa”, disse ela. “Vamos ver”, respondeu, enquanto pressionava as teclas conforme ela falava - não se deu ao trabalho de salvar.
- Jack Daniel’s.
- Jack Daniel’s.
Sentou-se ao sofá e acendeu um cigarro enquanto deixava aquele gosto meloso do uísque percorrer suas mucosas bucais. A euforia deu espaço à melancolia. Luís e Paulo pareciam estar se dando bem na pista e assim Jonas os deixou. Uma hora se passou. Sua visão estava fora de foco e o peito aberto, como que apunhalado sabe-se lá por quem. À sua diagonal, avistou uma loira de vestido branco, pernas cruzadas, cigarro pendendo na mão direita e olhar perdido no espaço. Seu rosto tinha traços belos e levemente destoados pelo tempo. Devia ter entre 35 e 40 anos. Apesar da maquiagem pesada, dava para notar seus belos olhos azuis acinzentados. Emanavam certa dose de tristeza. Ele se aproximou.
Já no fim de noite, com o som mais baixo e movimentação esparsa, conseguiram manter uma conversa. Agradável, por sinal. Ela sorria carinhosamente, como um animal machucado que de repente encontra cuidado. Beijaram-se, fora de compasso. A boca dela movia-se com extrema voracidade deixando resquício de dentes. Sua língua, cujos vasos da parte inferior podiam ser sentidos, faltou invadir-lhe a goela. Um sabor que misturava cigarro, Trident de melancia e prosecco. Ele pousou a mão esquerda em sua coxa, bem torneada e exposta. “Preciso ir embora”, ela falou. “Eu te levo”, respondeu.
Quando foram em direção ao carro, ela pareceu genuinamente agradecida por ele ter-lhe aberto a porta do passageiro. No caminho, pouco conversaram. Jonas deixou uma música fantasmagórica ecoando ao fundo. Em uma troca de marchas, foi a vez da mão direita ir parar nas pernas dela. Sem maiores firulas, ela a deslizou por sob o vestido. Ao recostar-se sob sua fenda, por sinal, umedecida, não pôde deixar de notar que estava sem calcinha.
Embicou o carro no primeiro motel que viu sem se dar ao trabalho de consultá-la. Nenhuma resistência foi imposta. O quarto tinha cheiro de mofo, rasgos no carpete marrom e um excesso de objetos de madeira que deixavam o ambiente pesado. Não fora escolhido por seus traços de requinte. Em pé, encheu dois copos de uísque até a metade. Ela virou de um gole, ele sorveu lentamente. Na mesma posição, enquanto olhavam-se nos olhos, Jonas puxou a meia calça para baixo. Aproveitando a posição de comando, Ludmila (esse era o seu nome) apoiou o salto alto sobre a cama, dando a deixa de como ele deveria proceder. Assim o fez e continuou até ficar com a mandíbula adormecida. Rios derramados, levantou-se puxando o vestido dela para cima. Deparou-se com seios levemente pendidos para baixo, mas ainda assim suntuosos. Uma silhueta levemente flácida, porém esguia e atraente. Puxou-a de encontro a si e sentiu sua pele de tênue elasticidade, na temperatura certa.
Foi empurrado sobre a cama e despido com urgência. Teve o favor retribuído. Antes que pudesse tomar qualquer iniciativa, ela sentou-se sobre ele. Um gemido contido que combinava dor e prazer. Ela passou a movimentar-se bruscamente, aumentando a magnitude dos gemidos na mesma proporção. Cavalgava feito uma Comanche, com rosto e bicos dos seios apontando para cima, olhos sempre fechados. Pela aflita movimentação de suas mandíbulas, parecia exorcizar algum monstro. Aquilo não passava de masturbação a dois, mas Jonas não se importou nem um pouco.
Quando ela estava a um toque da ebulição, entendeu o sinal e também se permitiu externar. Ela afagou o rosto dele de um jeito meio estabanado, depois deitou-se em seu peito. Desconfortável naquela posição, Jonas rolou-a de lado e lhe abraçou por trás. Sentiu um calafrio, não se acomodava àquele corpo. Afastou-se e deitou de costas. Acendeu um cigarro. “Você é tão misterioso” – foram as primeiras palavras após terem saído do carro. “No que você está pensando?”, perguntou. Jonas sacudiu em desaprovação, não deu a entender que responderia. Depois que espremeu a bituca no interior do cinzeiro, postou-se em cima dela. Então foi sua vez de enfrentar os próprios demônios. Fizeram de frente, de lado, em cima da mesa, ao pé da cama. Por volta das 11 da manhã, quando a expressão de agonia no rosto de Ludmila já havia se tornado insuportável, gerando asco, colocou-a de quatro. A movimentação foi fulminante, violenta. Largados em meio à cama encharcada por seus fluídos corporais, finalmente sentiram-se livres, cada um em seu canto, sob as sombras de cada qual. Com dor de cabeça e a garganta seca, Jonas virou um litro d'água e esperou ela sair do banho para se lavar.
Conforme ela subia a meia-calça por sob o vestido, calçava o último pé da botina sentado ao canto da cama. Apanhou a carteira e os cigarros no criado-mudo. Prendeu o relógio ao redor do punho e vislumbrou seu reflexo no espelho. Era hora de ir.
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