Thiago e Marcelo já estavam na quarta rodada de cerveja. Thiago interrompe o papo para atender ao telefone.
– Oi.
– Oi – repetiu Joana, do outro lado da linha.
– Tudo bem?
– Oi.
– Oi – repetiu Joana, do outro lado da linha.
– Tudo bem?
– Onde você está? – inquiriu, impositiva.
– Estou no Armazém – respondeu.
Armazém era um bar amplo, porém simples. Escuro, oferecia mesas de madeira rústica, serviço relapso e cerveja de garrafão servida em copo americano. Thiago já havia estado lá com Joana por diversas vezes e fez questão de explicitar seu álibi para assegurá-la de que não havia tentações. Era um local mais freqüentado por tipos ensebados, predominantemente homens, que queriam afogar as tensões de um dia de trabalho. Gravata afrouxada em volta do colarinho da camisa branca amarrotada era o figurino de lei.
– Tô tomando uma cerveja com o Marcelo – continuou.
– Mas que horas você saiu do trabalho?
– Seis e meia, por quê?
– Porque eu acho incrível como em um dia que você sai mais cedo do escritório, ao invés de vir para casa ficar comigo, vai para o Armazém encher a cara com os seus amigos.
Thiago não quis dignificar essa reclamação com qualquer reflexão. Por alto, sentia-se incomodado e perplexo perante essa obsessão de Joana em “ficar junto”. Dizia para si mesmo que tinha o direito de ir e vir, de manter a sua autonomia e não o lar como destino obrigatório após cada dia de trabalho. Ela estava lidando com uma ovelha desgarrada e precisaria se acostumar com isso.
– Meu amor, para de me policiar. Uma noite que eu tiro para colocar o papo em dia com um amigo, você vai criar caso?
- Amigo que você não vê há tempos, colega de trabalho, chefe, todo mundo é desculpa e cada um deles é mais importante do que eu.
- Joana, não viaja. Por favor, não transforme isso em algo maior do que é.
- Não viaja, não!
- Joana, eu vou desligar, isso está ficando ridículo.
- Não desliga na minha cara!
- Vou desligar porque vim aqui com o Marcelo e ele está tendo que escutar tudo isso que não lhe diz respeito. A gente conversa em casa, não vou demorar.
- Mas...
– Estou no Armazém – respondeu.
Armazém era um bar amplo, porém simples. Escuro, oferecia mesas de madeira rústica, serviço relapso e cerveja de garrafão servida em copo americano. Thiago já havia estado lá com Joana por diversas vezes e fez questão de explicitar seu álibi para assegurá-la de que não havia tentações. Era um local mais freqüentado por tipos ensebados, predominantemente homens, que queriam afogar as tensões de um dia de trabalho. Gravata afrouxada em volta do colarinho da camisa branca amarrotada era o figurino de lei.
– Tô tomando uma cerveja com o Marcelo – continuou.
– Mas que horas você saiu do trabalho?
– Seis e meia, por quê?
– Porque eu acho incrível como em um dia que você sai mais cedo do escritório, ao invés de vir para casa ficar comigo, vai para o Armazém encher a cara com os seus amigos.
Thiago não quis dignificar essa reclamação com qualquer reflexão. Por alto, sentia-se incomodado e perplexo perante essa obsessão de Joana em “ficar junto”. Dizia para si mesmo que tinha o direito de ir e vir, de manter a sua autonomia e não o lar como destino obrigatório após cada dia de trabalho. Ela estava lidando com uma ovelha desgarrada e precisaria se acostumar com isso.
– Meu amor, para de me policiar. Uma noite que eu tiro para colocar o papo em dia com um amigo, você vai criar caso?
- Amigo que você não vê há tempos, colega de trabalho, chefe, todo mundo é desculpa e cada um deles é mais importante do que eu.
- Joana, não viaja. Por favor, não transforme isso em algo maior do que é.
- Não viaja, não!
- Joana, eu vou desligar, isso está ficando ridículo.
- Não desliga na minha cara!
- Vou desligar porque vim aqui com o Marcelo e ele está tendo que escutar tudo isso que não lhe diz respeito. A gente conversa em casa, não vou demorar.
- Mas...
- Beijo, tchau.
E fechou o flip do celular.
- Problemas no departamento conjugal? – perguntou Marcelo.
- Guerra conjugal, para ser preciso. Tô precisando de alguma coisa mais forte, me acompanha?
- No quê?
Nem aguardou o aval de Marcelo e se dirigiu a Genival, o garçom, pedindo a costumeira garrafa de “filho do Jaime”, como se referia ao whiskey Jameson. O silêncio imperou, até que a garrafa chegou à mesa e cada qual se serviu.
- Mas eu preciso conhecer a sua esposa – retomou Marcelo, procurando quebrar o gelo.
- Muita coisa aconteceu nos últimos cinco anos que você não ficou sabendo – retrucou Thiago.
- Eu sei mais do que você imagina, meu amigo – bancou.
Vendo que a conversa seguia um rumo provocativo, Thiago mudou o tom.
- Sabe, sim – ironizou. – Nos últimos cinco anos, você só aprendeu a lamber sovaco peludo de vagabunda francesa enquanto a grana do seu pai ia pelo ralo com o seu mestrado.
- Mas eu te garanto que aprendi mais com as putas da Rue Saint-Denis do que teria aprendido com qualquer professor da Sorbonne.
- Disso eu não duvido, meu caro – redarguiu Thiago, enquanto erguia seu copo de encontro ao do amigo.
- Saúde.
_____________
Conversa foi, conversa veio. Quatro garrafas de cerveja transformaram-se em seis. O litro de uísque também deu nítidos sinais de esvaziamento. Thiago e Marcelo compararam a legislação brasileira à francesa. Narraram momentos marcantes no tribunal. Thiago prometeu encaminhar o currículo do amigo para alguns conhecidos e Marcelo ficou de colocar o ex-colega de faculdade novamente em contato com seu pai, manda-chuva de um grande escritório no qual, ele próprio, não conseguiria trabalhar. Também relembraram momentos saudosos da época da faculdade. Bebedeiras homéricas, baladas intermináveis que, com a ajuda de pó e litros de café, confluíam no expediente em escritórios onde estagiaram. Garotas. Todos os caminhos pareciam levá-los a elas.
- E a Maria Helena, você tem visto? – perguntou Marcelo.
- Vi. Outro dia teve um daqueles jantares enfadonhos na casa do João e ela estava lá.
- E como ela está?
- Um bucho.
- Como assim? – espantou-se o ex-mestrando.
- Ela virou um canhão. Teve uns problemas hormonais que zoaram a pele dela e garantiram-lhe uns quilos a mais.
- Mas ele era tão gata!
- Nem me fala. Cara, pode parecer exagero, mas a cada reencontro desses que eu vou, percebo que as gatas daquela época estão virando bagulho e as feinhas estão ficando gostosas.
- Ironia do destino?
- Algo do tipo.
Outro silêncio constrangedor mais uma vez se instaurou. Marcelo ficou nitidamente chocado perante a notícia de que Maria Helena havia definhado. Sim, foi Thiago quem a namorou, mas Marcelo sempre guardou um amor platônico pela ex-colega. Nem tão platônico assim, nos primeiros três anos de faculdade ele até se engraçou com ela em uma cervejada ou outra. Arrancou uns beijos e chegou até a levá-la para jantar. Mas havia colocado-a em um pedestal tão alto, que sempre que se dirigia a ela, embananava-se por completo. Até que em uma dada noite Thiago, na ocasião, mais bêbado e, sempre, mais direto, acabou levando-a embora.
- Foi por isso que vocês terminaram?
- O quê? – respondeu Thiago, como que flagrado em um momento de devaneio.
- Foi por isso que você largou a Maria Helena, porque ela virou um bucho? – inquiriu Marcelo, virando um copo de uísque sem gelo que lhe desceu rasgando.
- Não, não foi bem por isso – respondeu Thiago, cheio de si.
– Na época em que a gente terminou ela ainda estava bem gostosa – explicou, procurando manter, assim, sua reputação intacta.
- Então foi por quê?
- Foi por causa da Joana. Meu namoro com a Maria Helena já tinha entrado na rotina, já estava um marasmo. E, mais ou menos na mesma época, eu entrei no Correia Pinto e conheci a Joana, na época uma estagiária de quinto ano com a bunda arrebitada e um fogo que você não imagina. Os serões no escritório, na sala de arquivos, para ser mais exato – soltou um sorrisinho maroto –, foram se tornando cada vez mais frequentes e a Maria Helena acabou descobrindo. Ela até tentou fazer com que a gente se reconciliasse, mas fui honesto e assumi que queria ficar com a Joana.
Marcelo pareceu ir ficando nítida e gradualmente perplexo com o desenrolar dos fatos. Sentiu um ódio profundo do amigo. Vontade de se levantar da cadeira e dar-lhe uma garrafada na cabeça. Mas, como o uísque que estava tomando, engoliu seco. Apenas levantou o copo e maneou a cabeça como se propusesse um brinde.
- Pelo menos você se casou com a mulher certa, então.
- É – respondeu Thiago, virando os olhos. – Algo do tipo.
Nesse exato instante tocou o celular de Marcelo. Era Manolo, um artista plástico com quem chegou a dividir apartamento na França. Ele estava aportando na esquina e iria se juntar aos dois.
_____________
- Thiago, quero que você conheça o Manolo – apresentou Marcelo, com os trejeitos fanfarrões de costume.
– Manolo, esse aqui é o Thiago, meu grande amigo da faculdade.
- Prazer – disse Manolo, com um sorriso genuíno estampado no rosto.
- Prazer – respondeu Thiago, tentando retribuir o sorriso sem soar tão convincente.
Ele não pareceu muito confortável enquanto Marcelo e Manolo relembravam as estripulias de Paris. Não que ficasse constrangido com narrativas de putaria, simplesmente não estava interessado. Manolo fazia mais o tipo rude. Baixo, troncudo, e com uma espessa barba que se iniciava no pescoço. Respondia a tudo com gírias manjadas que o próprio Thiago não utilizava desde a época da faculdade. Tinha uma incômoda abertura e espontaneidade para lidar com os papos que surgiam na mesa. Thiago pediu licença para ir ao banheiro.
- O Manolo estava me falando sobre seu impasse amoroso – disse Marcelo, assim que Thiago retornou à mesa.
- Ah, é? – respondeu Thiago, pela primeira vez interessado no que o amigo do amigo poderia ter a dizer.
- É – continuou Marcelo.
– O Manolo está saindo com uma mulher casada – especificou, constrangendo o artista plástico.
- Então você está ficando só com a parte boa da vida a dois – ironizou Thiago, pela primeira vez demonstrando empatia pelo recém-chegado.
- Não é bem assim – respondeu Manolo, encabulado.
- Então como é? – continuou Thiago.
- As coisas não estão saindo bem como ele esperava – avaliou Marcelo.
- Como assim?
- Ela me pediu um tempo para tentar se reconciliar com o marido – explicou Manolo, cabisbaixo.
- Ah é, então o corno ainda tem salvação?
- Não sei, essa mina é muito louca.
- Como assim?
- A gente está saindo faz uns seis meses. No começo tudo eram flores. O marido estava sempre ausente, então a gente só curtia. Trepava o tempo todo, no motel, no carro dela, no meu carro. Até na cama deles a gente chegou a transar.
- E aí? – atiçou Thiago, entretido.
- E aí que ela parecia decidida a largá-lo. Dizia que me amava e que queria ficar comigo,.- E o marido não está nem aí – acrescentou Marcelo.
- É – continuou Manolo –, ela liga pro cara, às vezes na minha frente, e ele não dá bola, parece meio de saco cheio.
- E então, qual o problema?
- O problema é que, umas duas semanas atrás, ela falou que não poderia mais me ver. Que ainda gostava do marido e queria salvar o casamento.
- Então vocês não se viram mais?
- Nos vimos, a gente se encontrou mais algumas vezes e acabamos sempre trepando loucamente. Só que ela quer acabar com isso.
- Como você sabe? – instigou Thiago. – De repente ela só fazendo doce. Tem mulher que adora esses joguinhos.
- Não, acho que não. Acho que ela está com o cara já faz um tempo e tem medo de fazer cagada.
- Mas você gosta dessa mina? – perguntou Thiago, adotando terminologias que andavam adormecidas em seu vocabulário.
- Gosto! O pior é isso. A gente trepa pra cacete, faz de tudo que você pode imaginar, mas, ao mesmo tempo, ela tem um jeitinho quando estamos só nos dois que me derruba. Uma meiguice, uma doçura, que acabam comigo.
Thiago sentira uma ponta de com esse depoimento. O que não daria ele por uma ponta desse tesão, dessa adrenalina, que ele e Joana chegaram a viver mas que tinha-se esvaído por água abaixo?
- Então ela deve ser uma puta buceta – continuou, irrepreensível.
- Ah, ela é um tesão – respondeu Manolo, envergonhado ao prever o brilho nos próprios olhos. – É uma cavala – abriu os braços para descrever. – Quadril largo, cinturinha, e uma bunda que você não imagina.
A inveja de Thiago era iminente. Chegara a se perguntar o que estaria ele fazendo com a mesma mulher há tanto tempo, quando poderia estar vivendo aventuras em carne e osso como esta. Como quando começou a comer a Joana.
- Mas o cara desconfia?
- Acho que não, está sempre ocupado com trabalho, sai bastante sem ela. Sempre que ela liga, às vezes do meu lado, o cara parece meio de saco cheio, não sei. Se bobear, também está chifrando ela.
- Que coisa – respondeu Thiago, sentindo uma ponta de pena do corno.
- E a mulher dele por aí, insaciável – concluiu Manolo.
- Se bobear, o corno ainda engole uns pelos seus quando vai comer ela – interpelou Marcelo, gozador.
Essa afirmação ativou algum resquício de memória em Thiago. Certa vez aconteceu de, enquanto chupava a xoxota raspadinha da esposa, se deparar com um fio de cabelo longo e espesso demais para pertencer àquela vegetação rarefeita dos tempos da brazilian wax.
E fechou o flip do celular.
- Problemas no departamento conjugal? – perguntou Marcelo.
- Guerra conjugal, para ser preciso. Tô precisando de alguma coisa mais forte, me acompanha?
- No quê?
Nem aguardou o aval de Marcelo e se dirigiu a Genival, o garçom, pedindo a costumeira garrafa de “filho do Jaime”, como se referia ao whiskey Jameson. O silêncio imperou, até que a garrafa chegou à mesa e cada qual se serviu.
- Mas eu preciso conhecer a sua esposa – retomou Marcelo, procurando quebrar o gelo.
- Muita coisa aconteceu nos últimos cinco anos que você não ficou sabendo – retrucou Thiago.
- Eu sei mais do que você imagina, meu amigo – bancou.
Vendo que a conversa seguia um rumo provocativo, Thiago mudou o tom.
- Sabe, sim – ironizou. – Nos últimos cinco anos, você só aprendeu a lamber sovaco peludo de vagabunda francesa enquanto a grana do seu pai ia pelo ralo com o seu mestrado.
- Mas eu te garanto que aprendi mais com as putas da Rue Saint-Denis do que teria aprendido com qualquer professor da Sorbonne.
- Disso eu não duvido, meu caro – redarguiu Thiago, enquanto erguia seu copo de encontro ao do amigo.
- Saúde.
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Conversa foi, conversa veio. Quatro garrafas de cerveja transformaram-se em seis. O litro de uísque também deu nítidos sinais de esvaziamento. Thiago e Marcelo compararam a legislação brasileira à francesa. Narraram momentos marcantes no tribunal. Thiago prometeu encaminhar o currículo do amigo para alguns conhecidos e Marcelo ficou de colocar o ex-colega de faculdade novamente em contato com seu pai, manda-chuva de um grande escritório no qual, ele próprio, não conseguiria trabalhar. Também relembraram momentos saudosos da época da faculdade. Bebedeiras homéricas, baladas intermináveis que, com a ajuda de pó e litros de café, confluíam no expediente em escritórios onde estagiaram. Garotas. Todos os caminhos pareciam levá-los a elas.
- E a Maria Helena, você tem visto? – perguntou Marcelo.
- Vi. Outro dia teve um daqueles jantares enfadonhos na casa do João e ela estava lá.
- E como ela está?
- Um bucho.
- Como assim? – espantou-se o ex-mestrando.
- Ela virou um canhão. Teve uns problemas hormonais que zoaram a pele dela e garantiram-lhe uns quilos a mais.
- Mas ele era tão gata!
- Nem me fala. Cara, pode parecer exagero, mas a cada reencontro desses que eu vou, percebo que as gatas daquela época estão virando bagulho e as feinhas estão ficando gostosas.
- Ironia do destino?
- Algo do tipo.
Outro silêncio constrangedor mais uma vez se instaurou. Marcelo ficou nitidamente chocado perante a notícia de que Maria Helena havia definhado. Sim, foi Thiago quem a namorou, mas Marcelo sempre guardou um amor platônico pela ex-colega. Nem tão platônico assim, nos primeiros três anos de faculdade ele até se engraçou com ela em uma cervejada ou outra. Arrancou uns beijos e chegou até a levá-la para jantar. Mas havia colocado-a em um pedestal tão alto, que sempre que se dirigia a ela, embananava-se por completo. Até que em uma dada noite Thiago, na ocasião, mais bêbado e, sempre, mais direto, acabou levando-a embora.
- Foi por isso que vocês terminaram?
- O quê? – respondeu Thiago, como que flagrado em um momento de devaneio.
- Foi por isso que você largou a Maria Helena, porque ela virou um bucho? – inquiriu Marcelo, virando um copo de uísque sem gelo que lhe desceu rasgando.
- Não, não foi bem por isso – respondeu Thiago, cheio de si.
– Na época em que a gente terminou ela ainda estava bem gostosa – explicou, procurando manter, assim, sua reputação intacta.
- Então foi por quê?
- Foi por causa da Joana. Meu namoro com a Maria Helena já tinha entrado na rotina, já estava um marasmo. E, mais ou menos na mesma época, eu entrei no Correia Pinto e conheci a Joana, na época uma estagiária de quinto ano com a bunda arrebitada e um fogo que você não imagina. Os serões no escritório, na sala de arquivos, para ser mais exato – soltou um sorrisinho maroto –, foram se tornando cada vez mais frequentes e a Maria Helena acabou descobrindo. Ela até tentou fazer com que a gente se reconciliasse, mas fui honesto e assumi que queria ficar com a Joana.
Marcelo pareceu ir ficando nítida e gradualmente perplexo com o desenrolar dos fatos. Sentiu um ódio profundo do amigo. Vontade de se levantar da cadeira e dar-lhe uma garrafada na cabeça. Mas, como o uísque que estava tomando, engoliu seco. Apenas levantou o copo e maneou a cabeça como se propusesse um brinde.
- Pelo menos você se casou com a mulher certa, então.
- É – respondeu Thiago, virando os olhos. – Algo do tipo.
Nesse exato instante tocou o celular de Marcelo. Era Manolo, um artista plástico com quem chegou a dividir apartamento na França. Ele estava aportando na esquina e iria se juntar aos dois.
_____________
- Thiago, quero que você conheça o Manolo – apresentou Marcelo, com os trejeitos fanfarrões de costume.
– Manolo, esse aqui é o Thiago, meu grande amigo da faculdade.
- Prazer – disse Manolo, com um sorriso genuíno estampado no rosto.
- Prazer – respondeu Thiago, tentando retribuir o sorriso sem soar tão convincente.
Ele não pareceu muito confortável enquanto Marcelo e Manolo relembravam as estripulias de Paris. Não que ficasse constrangido com narrativas de putaria, simplesmente não estava interessado. Manolo fazia mais o tipo rude. Baixo, troncudo, e com uma espessa barba que se iniciava no pescoço. Respondia a tudo com gírias manjadas que o próprio Thiago não utilizava desde a época da faculdade. Tinha uma incômoda abertura e espontaneidade para lidar com os papos que surgiam na mesa. Thiago pediu licença para ir ao banheiro.
- O Manolo estava me falando sobre seu impasse amoroso – disse Marcelo, assim que Thiago retornou à mesa.
- Ah, é? – respondeu Thiago, pela primeira vez interessado no que o amigo do amigo poderia ter a dizer.
- É – continuou Marcelo.
– O Manolo está saindo com uma mulher casada – especificou, constrangendo o artista plástico.
- Então você está ficando só com a parte boa da vida a dois – ironizou Thiago, pela primeira vez demonstrando empatia pelo recém-chegado.
- Não é bem assim – respondeu Manolo, encabulado.
- Então como é? – continuou Thiago.
- As coisas não estão saindo bem como ele esperava – avaliou Marcelo.
- Como assim?
- Ela me pediu um tempo para tentar se reconciliar com o marido – explicou Manolo, cabisbaixo.
- Ah é, então o corno ainda tem salvação?
- Não sei, essa mina é muito louca.
- Como assim?
- A gente está saindo faz uns seis meses. No começo tudo eram flores. O marido estava sempre ausente, então a gente só curtia. Trepava o tempo todo, no motel, no carro dela, no meu carro. Até na cama deles a gente chegou a transar.
- E aí? – atiçou Thiago, entretido.
- E aí que ela parecia decidida a largá-lo. Dizia que me amava e que queria ficar comigo,.- E o marido não está nem aí – acrescentou Marcelo.
- É – continuou Manolo –, ela liga pro cara, às vezes na minha frente, e ele não dá bola, parece meio de saco cheio.
- E então, qual o problema?
- O problema é que, umas duas semanas atrás, ela falou que não poderia mais me ver. Que ainda gostava do marido e queria salvar o casamento.
- Então vocês não se viram mais?
- Nos vimos, a gente se encontrou mais algumas vezes e acabamos sempre trepando loucamente. Só que ela quer acabar com isso.
- Como você sabe? – instigou Thiago. – De repente ela só fazendo doce. Tem mulher que adora esses joguinhos.
- Não, acho que não. Acho que ela está com o cara já faz um tempo e tem medo de fazer cagada.
- Mas você gosta dessa mina? – perguntou Thiago, adotando terminologias que andavam adormecidas em seu vocabulário.
- Gosto! O pior é isso. A gente trepa pra cacete, faz de tudo que você pode imaginar, mas, ao mesmo tempo, ela tem um jeitinho quando estamos só nos dois que me derruba. Uma meiguice, uma doçura, que acabam comigo.
Thiago sentira uma ponta de com esse depoimento. O que não daria ele por uma ponta desse tesão, dessa adrenalina, que ele e Joana chegaram a viver mas que tinha-se esvaído por água abaixo?
- Então ela deve ser uma puta buceta – continuou, irrepreensível.
- Ah, ela é um tesão – respondeu Manolo, envergonhado ao prever o brilho nos próprios olhos. – É uma cavala – abriu os braços para descrever. – Quadril largo, cinturinha, e uma bunda que você não imagina.
A inveja de Thiago era iminente. Chegara a se perguntar o que estaria ele fazendo com a mesma mulher há tanto tempo, quando poderia estar vivendo aventuras em carne e osso como esta. Como quando começou a comer a Joana.
- Mas o cara desconfia?
- Acho que não, está sempre ocupado com trabalho, sai bastante sem ela. Sempre que ela liga, às vezes do meu lado, o cara parece meio de saco cheio, não sei. Se bobear, também está chifrando ela.
- Que coisa – respondeu Thiago, sentindo uma ponta de pena do corno.
- E a mulher dele por aí, insaciável – concluiu Manolo.
- Se bobear, o corno ainda engole uns pelos seus quando vai comer ela – interpelou Marcelo, gozador.
Essa afirmação ativou algum resquício de memória em Thiago. Certa vez aconteceu de, enquanto chupava a xoxota raspadinha da esposa, se deparar com um fio de cabelo longo e espesso demais para pertencer àquela vegetação rarefeita dos tempos da brazilian wax.
- Agora eu só sei que ela quer ficar com o marido e eu não sei o que fazer – continuou Manolo, cabisbaixo.
- Calma que na próxima vez que a periquita dela coçar, você é o homem que ela vai procurar – contrapôs Marcelo.
– Agora vocês me dêem licença que eu preciso tirar a água do joelho – disse o amigo comum.
Após alguns instantes de silêncio, Thiago retomou o assunto.
- Calma que na próxima vez que a periquita dela coçar, você é o homem que ela vai procurar – contrapôs Marcelo.
– Agora vocês me dêem licença que eu preciso tirar a água do joelho – disse o amigo comum.
Após alguns instantes de silêncio, Thiago retomou o assunto.
- Então vocês já treparam na cama do marido dela?
- Sim, foi ainda mais louco, ela gozou pra cacete.
- E onde eles moram?- No Brooklin.
- Ah... O que ela faz? – continuou Thiago.
- Ela é advogada, que nem vocês – respondeu Manolo, com simplicidade.
- Ela é advogada, que nem vocês – respondeu Manolo, com simplicidade.
- E essa femme fatale tem nome?
- Tem. É Joana.
- Tem. É Joana.
Thiago sentiu um princípio de taquicardia. A simples possibilidade de imaginar a sua esposa nua com aquele tipo peludo era de embrulhar-lhe o estômago.
____________
____________
Thiago fez o que qualquer homem no seu lugar teria feito. Levantou-se prontamente da cadeira, agarrou aquela garrafa de Jameson e quebrou-a na cabeça de Manolo. Depois que aquele casco de vidro havia-se destituído em cacos, pegou o cabra pela nuca e deferiu sua cabeça contra o tampo da mesa de madeira. Não uma, mas repetidas vezes. Até sua testa vazar um sangue tão vibrante e viscoso quanto seu ódio de marido traído. Quando o pobre-coitado parou de responder às testadas, Thiago o jogou contra o chão e começou a chutá-lo. Na testa, na boca, nas costelas. Com o sujeito, inerte, deitado sobre a poça formada pelo próprio sangue, resolveu pisar-lhe a cabeça. A testa e, principalmente, a boca. Afundando-lhe os dentes, irrompendo a respiração e desfigurando suas mandíbulas.
____________
- Vocês estão se divertindo sem mim? – perguntou Marcelo, ainda no processo de fechar o zíper da calça enquanto voltava do banheiro.
- Estamos – respondeu Manolo, com o pouco que se via dos seus lábios por causa da barba.
- Pois é – concordou Thiago.
– Ele estava me falando sobre a destruidora de lares.
Claro que Thiago não levantou um dedo contra Manolo. Vontade para isso não faltou, mas se viu assolado por um sentimento de impotência que jamais sentiu. Como se aquele sujeito que traçava sua mulher toda noite tivesse, assim, o destituído de sua masculinidade. Ele já havia estado no lugar de Manolo e bancado o Ricardão em uma relação de três extremos. Mas agora, finalmente, estava no papel de corno. Não imaginou que isso aconteceria justamente com ele.
- Antes fosse – respondeu Manolo.
- Antes fosse o quê?
- Antes fosse destruidora de lares. Assim eu sentiria que ainda há chance de a gente ficar junto.
“Ficar junto”. Essa expressão ecoou um sentimento de pura repugnância em Thiago. Por que diabos estaria aquele sujeito barbado tão interessado em “ficar junto” com Joana, de quem ele próprio já tinha empapuçado? Se bem que, verdade seja dita, nem sempre havia sido assim...
- Não desanima, Manolo. Daqui a pouco ela percebe que o marido é um merda e volta para você – consolou Marcelo.
- Ou não – interpôs Thiago. – De repente, eles só estão passando por uma crise e ela acabou caindo em si.
Marcelo olhou para o ex-colega de faculdade com ar de reprovação. Thiago supôs que ele sabia de tudo, que havia friamente orquestrado aquela situação insólita para seu próprio deleite. Mas por que teria se dado ao trabalho?
- Não me leve a mal – remendou Thiago. – Não estou querendo subestimar o que vocês têm ou chegaram a ter juntos. Mas a mulherada nessa idade presa muito pela estabilidade – formulou, sentindo um prazer sádico em torturar o rival. – Bem ou mal, é ele quem vai esquentar ela hoje à noite e não você.
- Mas o cara nem liga para ela – protestou Manolo, quase choroso.
Estranho escutar uma das queixas mais frequentes de Joana da boca do seu amante. Ele nunca havia se dado o trabalho de tentar entender o que ela estava sentindo, mas, lá dentro, sempre soube que aquele tipo de reclamação refletia uma preocupação maior. Uma insegurança com relação ao fato de que, no começo do casamento, ele seguia ansioso o giro contínuo do ponteiro do relógio, como se pudesse acelerá-lo para que chegasse logo o momento de ir para casa “ficar junto”. Época em que ansiava para que ela fosse sua, por dominar não apenas seu corpo como seu interior. Ao longo dos anos, conforme foi tendo a ilusão de que esse desejo se concretizara, Joana perdeu importância na sua escala de prioridades. Doar tempo a ela significava se doar. E tinha o receio irracional de que, se continuasse doando-se tanto, não ficaria com nada. Antes tivesse arrumado uma amante.
- A ideia de ela estar trepando com ele agora me dá ânsia de vômito – desabafou o artista plástico.
Tá aí uma reação com a qual Thiago conseguia se identificar.
- Calma, Manolo – interrompeu Marcelo. – Eles agora devem estar assistindo ao Programa do Jô, de pijamas. Não se preocupe, não vai volar nada.
Se contassem para Thiago que ele passaria por essa situação, não hesitaria em dizer que largaria Joana como a um mau hábito. Não se prestaria a trepar com “buceta usada”, a ter contato com o resto de porra (ou com o pentelho) de outro. Isso é o que ele diria para si próprio. Assim como imaginaria que quebraria uma garrafa na cabeça do adversário. Mas agora a atitude era outra. Ele não podia simplesmente sair de cena e deixar os dois pombinhos serem felizes para sempre. Joana era gostosa demais para entregá-la assim, de mão beijada, a um Mané como este. Precisaria fazê-la sua novamente.
- Vamos indo – disse Thiago, maneando a cabeça em direção a Genivaldo, que começava a colocar as cadeiras sobre as mesas vazias.
- Vamos – respondeu Marcelo, colocando a mão na nuca do amigo cabisbaixo.
– Vamos nessa que o Manolo precisa curar essa chave de buceta - gargalhou.
Outro sentimento com o qual Thiago conseguia se identificar. Na saída do bar, os três deram-se as mãos.
- Fica tranquilo que tem muita buceta no mundo – disse Thiago, simpático, em uma tentativa infantil de limpar o próprio campinho.
- É, eu sei – respondeu Manolo, não soando mais tão convincente.
- Falou meu velho, vamos marcar outra dessas em breve – despediu-se Marcelo, enfático.
- Falou –retribuiu Thiago, com frieza.
____________
- Vocês estão se divertindo sem mim? – perguntou Marcelo, ainda no processo de fechar o zíper da calça enquanto voltava do banheiro.
- Estamos – respondeu Manolo, com o pouco que se via dos seus lábios por causa da barba.
- Pois é – concordou Thiago.
– Ele estava me falando sobre a destruidora de lares.
Claro que Thiago não levantou um dedo contra Manolo. Vontade para isso não faltou, mas se viu assolado por um sentimento de impotência que jamais sentiu. Como se aquele sujeito que traçava sua mulher toda noite tivesse, assim, o destituído de sua masculinidade. Ele já havia estado no lugar de Manolo e bancado o Ricardão em uma relação de três extremos. Mas agora, finalmente, estava no papel de corno. Não imaginou que isso aconteceria justamente com ele.
- Antes fosse – respondeu Manolo.
- Antes fosse o quê?
- Antes fosse destruidora de lares. Assim eu sentiria que ainda há chance de a gente ficar junto.
“Ficar junto”. Essa expressão ecoou um sentimento de pura repugnância em Thiago. Por que diabos estaria aquele sujeito barbado tão interessado em “ficar junto” com Joana, de quem ele próprio já tinha empapuçado? Se bem que, verdade seja dita, nem sempre havia sido assim...
- Não desanima, Manolo. Daqui a pouco ela percebe que o marido é um merda e volta para você – consolou Marcelo.
- Ou não – interpôs Thiago. – De repente, eles só estão passando por uma crise e ela acabou caindo em si.
Marcelo olhou para o ex-colega de faculdade com ar de reprovação. Thiago supôs que ele sabia de tudo, que havia friamente orquestrado aquela situação insólita para seu próprio deleite. Mas por que teria se dado ao trabalho?
- Não me leve a mal – remendou Thiago. – Não estou querendo subestimar o que vocês têm ou chegaram a ter juntos. Mas a mulherada nessa idade presa muito pela estabilidade – formulou, sentindo um prazer sádico em torturar o rival. – Bem ou mal, é ele quem vai esquentar ela hoje à noite e não você.
- Mas o cara nem liga para ela – protestou Manolo, quase choroso.
Estranho escutar uma das queixas mais frequentes de Joana da boca do seu amante. Ele nunca havia se dado o trabalho de tentar entender o que ela estava sentindo, mas, lá dentro, sempre soube que aquele tipo de reclamação refletia uma preocupação maior. Uma insegurança com relação ao fato de que, no começo do casamento, ele seguia ansioso o giro contínuo do ponteiro do relógio, como se pudesse acelerá-lo para que chegasse logo o momento de ir para casa “ficar junto”. Época em que ansiava para que ela fosse sua, por dominar não apenas seu corpo como seu interior. Ao longo dos anos, conforme foi tendo a ilusão de que esse desejo se concretizara, Joana perdeu importância na sua escala de prioridades. Doar tempo a ela significava se doar. E tinha o receio irracional de que, se continuasse doando-se tanto, não ficaria com nada. Antes tivesse arrumado uma amante.
- A ideia de ela estar trepando com ele agora me dá ânsia de vômito – desabafou o artista plástico.
Tá aí uma reação com a qual Thiago conseguia se identificar.
- Calma, Manolo – interrompeu Marcelo. – Eles agora devem estar assistindo ao Programa do Jô, de pijamas. Não se preocupe, não vai volar nada.
Se contassem para Thiago que ele passaria por essa situação, não hesitaria em dizer que largaria Joana como a um mau hábito. Não se prestaria a trepar com “buceta usada”, a ter contato com o resto de porra (ou com o pentelho) de outro. Isso é o que ele diria para si próprio. Assim como imaginaria que quebraria uma garrafa na cabeça do adversário. Mas agora a atitude era outra. Ele não podia simplesmente sair de cena e deixar os dois pombinhos serem felizes para sempre. Joana era gostosa demais para entregá-la assim, de mão beijada, a um Mané como este. Precisaria fazê-la sua novamente.
- Vamos indo – disse Thiago, maneando a cabeça em direção a Genivaldo, que começava a colocar as cadeiras sobre as mesas vazias.
- Vamos – respondeu Marcelo, colocando a mão na nuca do amigo cabisbaixo.
– Vamos nessa que o Manolo precisa curar essa chave de buceta - gargalhou.
Outro sentimento com o qual Thiago conseguia se identificar. Na saída do bar, os três deram-se as mãos.
- Fica tranquilo que tem muita buceta no mundo – disse Thiago, simpático, em uma tentativa infantil de limpar o próprio campinho.
- É, eu sei – respondeu Manolo, não soando mais tão convincente.
- Falou meu velho, vamos marcar outra dessas em breve – despediu-se Marcelo, enfático.
- Falou –retribuiu Thiago, com frieza.
Ele já sabia que isso não voltaria a acontecer tão cedo. Quando entrou no carro, pisou fundo. Tinha uma missão pela frente e ansiava por cumpri-la. Sentia até seu pau enrijecendo-se contra o zíper da calça. Iria foder Joana dos pés à cabeça. De pé, sentada, deitada, de frente, de costas, de lado, do avesso. Iria fodê-la até gritar, chorar, tremer e os olhos revirar. Até ela dizer chega. Iria foder Manolo.

4 comentários:
Muito bom. A frase que encerra foi uma bela ideia.
Congrats.
Viegas.
Classe, Messias. Agora tem que lançar um livro...
Incrível! Adorei! :)
Carlos, o final é ótimo. A idéia de encontrar um pêlo alienígena em um lugar improvável rendeu boas risadas.
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