Ele conseguia escutar aquele zunido constante das lâmpadas de bastão. Enxergava o teto amarelado e os azulejos brancos. Sentia o friozinho da maca de aço na nuca, na espinha e nos tornozelos. Um barbante preso no dedão. Tinha plena consciência do que estava ao seu redor, mas não conseguia reagir. Nem os braços, nem as pernas, nem o pescoço respondiam aos seus comandos. Estaria em coma?
Seu estado contemplativo foi interrompido pelo estalo da maçaneta, do tipo manivela, sendo girada. Em seguida, a porta de ferro foi fechada com a mesma brusquidão. Não tinha como virar a cabeça para ver quem poderia ser. Foi subitamente virado de bruços, ainda sem saber por quem. Notou, ao seu lado, uma jovem despida. Rosto angelical e seios fartos. Os mamilos eram tão claros que mal se destacavam. Seria extremamente bela, não fosse tão branquela. Peraí, ela estava morta. Como assim? Então ele também teria de estar. O barbante deveria estar prendendo uma etiqueta.
Sem sobreaviso, foi surpreendido com uma pontada seca nas entranhas. Tão logo se recompôs, sofreu com a ardência dos movimentos bruscos e repetitivos a que estava sendo submetido. Era só o que me faltava, pensou. Ser enrabado depois de morto.
Como não havia absolutamente nada que pudesse fazer para sair daquela situação, o jeito era esperar. Afinal de contas, Amâncio estava acostumado a ser o passivo da situação. Talvez até por isso tenha ido parar ali.
Ainda na infância, conquistou o apelido de Manso. A reputação custou-lhe tantas porções de merenda. Um par de tênis brancos, sua primeira aquisição com o suado dinheirinho, tão logo se foi. Um boneco de gesso, que carinhosamente apelidou de João, também se foi. Sem contar alguns molares que foram cuspidos de sua boca nas poucas brigas de que não conseguiu se safar. Dê a outra face, dizia dona Marta, a sua mãe. Assim, Amâncio conseguia manter uma simetria nas janelinhas que se abriam.
Em casa, era a mesma coisa. Bastava quebrar um prato ou cometer qualquer outro deslize doméstico para que seu pai descesse o braço. Ou a cinta, com a qual deixava suas nádegas em carne-viva. Aquelas noites atordoantes sempre acabavam com dona Marta, escondida, levando-lhe um prato de canjica na cama. Os mansos herdarão a Terra, dizia ela.
Até mesmo Donatinho, quatro anos mais novo, começou a botar banca logo que atingiu estatura suficiente para empurrar-lhe no chão. Seguiram-se noites frias, com o irmão menor dormindo com duas cobertas e Amâncio, sem nenhuma.
Na crisma, quando conheceu Maria, uma moça linda, de sorriso gentil, achou que sua sorte iria mudar. Casaram-se virgens, aos 18 anos. Mas não demorou o vestido de renda da moça passasse a se erguer para o primeiro que aparecesse. Sua cama voltou a ser fria.
Nessa época, Amâncio perambulava de um lado para o outro no restaurante. Tinha um dom natural para servir. Doze horas por dia, até que a ponta de sua meia se penetrasse na unha encravada. Da qual a se desvencilhar no final da noite.
Enquanto isso, Maria era montada a torto e a direito. Debruçada no tanque, de ladinho na cerca de bambu, cavalgando loucamente na cama do esposo. Lá ia ele, na manhã seguinte, tentar remendar o estrado. Com fita, prego e tocos de madeira. Você é tão incompetente,dizia ela, quando se deitava e o rebite sedia novamente. Para agradar sua amada, comprou outra cama. À prestação, no carnê da Marabrás. Meses depois, o móvel passou a apresentar o mesmo problema. E seu lado da cama continuava frio.
Certa noite, Maria passou mal do estômago. E lá foi ele levar canjica na cama para ela. Mas tu é muito imbecil mesmo, disse Maria. Eu ruim da barriga e quer que eu coma canjica? E lá foi ele, na calada da noite, achar remédio para ela melhorar da barriga. Ainda assim, dormiu no sofá. Não por opção.
Quando a criança nasceu, carinhosamente o chamou de João. Mal sabia que era o nome do pai. Quando o bebê chorava, no meio da madrugada,era Amâncio que se esgueirava de baixo das cobertas para fazê-lo dormir. Prestes a pegar no sono, o menino olhava em seus olhos. Envergonhado, ele desviava o rosto. Sempre evitou contato visual, seja com quem fosse.
No ponto de ônibus, ou na ladeira que subia ao voltar para casa, era chamado de tudo que era nome. Corno. Manso. Até mesmo sócio, ouviu alguém gritar, de um carro que passou. Era hora de mudar. Sapopemba era mesmo fora de mão.
Quando o segundo filho nasceu, Amâncio nem se surpreendeu que o tom de pele do menino fosse mais escuro. Desta vez, dona Odete, da venda, foi ter com ele. Por causa de Maria, o marido estava passando tempo de mais fora de casa. São Mateus não era tão distante assim.
Lá, não tardou para que Maria embarrigasse novamente. Caso sério, as estripulias com Joaquim, da oficina, não pararam nem depois de a criança nascer. Amâncio chegou até a notar uma cueca, que não era das suas, tremulando no varal.
Naquela noite, quando chegou do serviço, o mecânico estava mandando ver em sua esposa enquanto as três crianças choravam no quarto ao lado. A cama de casal havia ido parar no meio do quarto. Pela primeira vez, Amâncio resolveu tomar uma atitude. Maria não poderia mais chamá-lo de frouxo.
Pegou um abajur na sala, voltou ao quarto e quebrou-lhe na cabeça do amante. Este, ainda pelado, não demorou a se recuperar e logo pegou Amâncio pelo colarinho e atirou-lhe contra o armário. Maria tentou intervir e tomou um safanão. O marido se levantou e investiu contra o mecânico, que reagiu com um soco no meio da cara. Sai daqui, Amâncio, ele vai te matar, bradou Maria. Pra quê? Amâncio correu até a cozinha e apanhou uma faca de carne. Acabou com ela cravada no próprio peito. Doeu menos que ser currado no necrotério.
Terminado o procedimento, Amâncio foi limpo com pano e álcool, desvirado na maca, coberto com um manto branco. Trancaram-lhe na gaveta. Como fazia frio lá dentro.
segunda-feira, 27 de junho de 2011
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2 comentários:
Muito bom
Valeu, Olheiro
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