<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-4250515457249620938</id><updated>2011-11-18T07:25:53.645-08:00</updated><category term='Conto'/><category term='Crônica'/><title type='text'>Sem Manual de Instruções</title><subtitle type='html'>Contos, Crônicas e Ensaios de um Existencialista Desiludido</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://semanualdeinstrucoes.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4250515457249620938/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semanualdeinstrucoes.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Carlos Messias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13081313300517689304</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='31' src='http://3.bp.blogspot.com/-UyMA4xgDMk4/ThN11S_cFgI/AAAAAAAAAGg/rbObZKmGK8M/s220/gates.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>10</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4250515457249620938.post-2988481898854194468</id><published>2011-06-27T20:43:00.000-07:00</published><updated>2011-06-27T20:45:45.910-07:00</updated><title type='text'>O MANSO</title><content type='html'>Ele conseguia escutar aquele zunido constante das lâmpadas de bastão. Enxergava o teto amarelado e os azulejos brancos. Sentia o friozinho da maca de aço na nuca, na espinha e nos tornozelos. Um barbante preso no dedão. Tinha plena consciência do que estava ao seu redor, mas não conseguia reagir. Nem os braços, nem as pernas, nem o pescoço respondiam aos seus comandos. Estaria em coma?&lt;br /&gt;Seu estado contemplativo foi interrompido pelo estalo da maçaneta, do tipo manivela, sendo girada. Em seguida, a porta de ferro foi fechada com  a mesma brusquidão. Não tinha como virar a cabeça para ver quem poderia ser. Foi subitamente virado de bruços, ainda sem saber por quem. Notou, ao seu lado, uma jovem despida. Rosto angelical e seios fartos. Os mamilos eram tão claros que mal se destacavam. Seria extremamente bela, não fosse tão branquela. Peraí, ela estava morta. Como assim? Então ele também teria de estar. O barbante deveria estar prendendo uma etiqueta.&lt;br /&gt;Sem sobreaviso, foi surpreendido com uma pontada seca nas entranhas. Tão logo se recompôs, sofreu com a ardência dos movimentos bruscos e repetitivos a que estava sendo submetido. Era só o que me faltava, pensou. Ser enrabado depois de morto.&lt;br /&gt;Como não havia absolutamente nada que pudesse fazer para sair daquela situação, o  jeito era esperar. Afinal de contas, Amâncio estava acostumado a ser o passivo da situação. Talvez até por isso tenha ido parar ali.&lt;br /&gt;Ainda na infância, conquistou o apelido de Manso. A reputação custou-lhe tantas porções de merenda.  Um par de tênis brancos, sua primeira aquisição com o suado dinheirinho, tão logo se foi. Um boneco de gesso, que carinhosamente apelidou de João, também se foi. Sem contar alguns molares que foram cuspidos de sua boca nas poucas brigas de que não conseguiu se safar. Dê a outra face, dizia dona Marta, a sua mãe. Assim, Amâncio conseguia manter uma simetria nas janelinhas que se abriam.&lt;br /&gt;Em casa, era a mesma coisa. Bastava quebrar um prato ou cometer qualquer outro deslize doméstico para que seu pai descesse o braço. Ou a cinta, com a qual deixava suas nádegas em carne-viva. Aquelas noites atordoantes sempre acabavam com dona Marta, escondida, levando-lhe um prato de canjica na cama. Os mansos herdarão a Terra, dizia ela.  &lt;br /&gt;Até mesmo Donatinho, quatro anos mais novo, começou a botar banca logo que atingiu estatura suficiente para empurrar-lhe no chão. Seguiram-se noites frias, com o irmão menor dormindo com duas cobertas e Amâncio, sem nenhuma.&lt;br /&gt;Na crisma, quando conheceu Maria, uma moça linda, de sorriso gentil, achou que sua sorte iria mudar. Casaram-se virgens, aos 18 anos. Mas não demorou o vestido de renda da moça passasse a se erguer para o primeiro que aparecesse. Sua cama voltou a ser fria.&lt;br /&gt;Nessa época, Amâncio perambulava de um lado para o outro no restaurante. Tinha um dom natural para servir. Doze horas por dia, até que a ponta de sua meia se penetrasse na unha encravada. Da qual a se desvencilhar no final da noite.&lt;br /&gt;Enquanto isso, Maria era montada a torto e a direito. Debruçada no tanque, de ladinho na cerca de bambu, cavalgando loucamente na cama do esposo. Lá ia ele, na manhã seguinte, tentar remendar o estrado. Com fita, prego e tocos de madeira. Você é tão incompetente,dizia ela, quando se deitava e o rebite sedia novamente.  Para agradar sua amada, comprou outra cama. À prestação, no carnê da Marabrás. Meses depois, o móvel passou a apresentar o mesmo problema. E seu lado da cama continuava frio.&lt;br /&gt;Certa noite, Maria passou mal do estômago. E lá foi ele levar canjica na cama para ela. Mas tu é muito imbecil mesmo, disse Maria. Eu ruim da barriga e quer que eu coma canjica? E lá foi ele, na calada da noite, achar remédio para ela melhorar da barriga. Ainda assim, dormiu no sofá. Não por opção.&lt;br /&gt;Quando a criança nasceu, carinhosamente o chamou de João. Mal sabia que era o nome do pai. Quando o bebê chorava, no meio da madrugada,era Amâncio que se esgueirava de baixo das cobertas para fazê-lo dormir. Prestes a pegar no sono, o menino olhava em seus olhos. Envergonhado, ele desviava o rosto. Sempre evitou contato visual, seja com quem fosse.&lt;br /&gt;No ponto de ônibus, ou na ladeira que subia ao voltar para casa, era chamado de tudo que era nome. Corno. Manso. Até mesmo sócio, ouviu alguém gritar, de um carro que passou. Era hora de mudar. Sapopemba era mesmo fora de mão. &lt;br /&gt;Quando o segundo filho nasceu, Amâncio nem se surpreendeu que o tom de pele do menino fosse mais escuro. Desta vez, dona Odete, da venda, foi ter com ele. Por causa de Maria, o marido estava passando tempo de mais fora de casa. São Mateus não era tão distante assim.&lt;br /&gt;Lá, não tardou para que Maria embarrigasse novamente. Caso sério, as estripulias com Joaquim, da oficina, não pararam nem depois de a criança nascer. Amâncio chegou até a notar uma cueca, que não era das suas, tremulando no varal. &lt;br /&gt;Naquela noite, quando chegou do serviço, o mecânico estava mandando ver em sua esposa enquanto as três crianças choravam no quarto ao lado. A cama de casal havia ido parar no meio do quarto. Pela primeira vez, Amâncio resolveu tomar uma atitude. Maria não poderia mais chamá-lo de frouxo. &lt;br /&gt;Pegou um abajur na sala, voltou ao quarto e quebrou-lhe na cabeça do amante. Este, ainda pelado, não demorou a se recuperar e logo pegou Amâncio pelo colarinho e atirou-lhe contra o armário. Maria tentou intervir e tomou um safanão. O marido se levantou e investiu contra o mecânico, que reagiu com um soco no meio da cara. Sai daqui, Amâncio, ele vai te matar, bradou Maria. Pra quê? Amâncio correu até a cozinha e apanhou uma faca de carne. Acabou com ela cravada no próprio peito. Doeu menos que ser currado no necrotério.&lt;br /&gt;Terminado o procedimento, Amâncio foi limpo com pano e álcool, desvirado na maca, coberto com um manto branco. Trancaram-lhe na gaveta. Como fazia frio lá dentro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4250515457249620938-2988481898854194468?l=semanualdeinstrucoes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semanualdeinstrucoes.blogspot.com/feeds/2988481898854194468/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4250515457249620938&amp;postID=2988481898854194468' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4250515457249620938/posts/default/2988481898854194468'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4250515457249620938/posts/default/2988481898854194468'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semanualdeinstrucoes.blogspot.com/2011/06/ele-conseguia-escutar-aquele-zunido.html' title='O MANSO'/><author><name>Carlos Messias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13081313300517689304</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='31' src='http://3.bp.blogspot.com/-UyMA4xgDMk4/ThN11S_cFgI/AAAAAAAAAGg/rbObZKmGK8M/s220/gates.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4250515457249620938.post-3317317844667537493</id><published>2010-06-15T23:40:00.000-07:00</published><updated>2010-06-21T09:43:38.773-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Conto'/><title type='text'>A MULHER DO PRÓXIMO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Thiago e Marcelo já estavam na quarta rodada de cerveja. Thiago interrompe o papo para atender ao telefone.&lt;br /&gt;– Oi.&lt;br /&gt;– Oi – repetiu Joana, do outro lado da linha.&lt;br /&gt;– Tudo bem? &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;– Onde você está? – inquiriu, impositiva.&lt;br /&gt;– Estou no Armazém – respondeu.&lt;br /&gt;Armazém era um bar amplo, porém simples. Escuro, oferecia mesas de madeira rústica, serviço relapso e cerveja de garrafão servida em copo americano. Thiago já havia estado lá com Joana por diversas vezes e fez questão de explicitar seu álibi para assegurá-la de que não havia tentações. Era um local mais freqüentado por tipos ensebados, predominantemente homens, que queriam afogar as tensões de um dia de trabalho. Gravata afrouxada em volta do colarinho da camisa branca amarrotada era o figurino de lei.&lt;br /&gt;– Tô tomando uma cerveja com o Marcelo – continuou.&lt;br /&gt;– Mas que horas você saiu do trabalho?&lt;br /&gt;– Seis e meia, por quê?&lt;br /&gt;– Porque eu acho incrível como em um dia que você sai mais cedo do escritório, ao invés de vir para casa ficar comigo, vai para o Armazém encher a cara com os seus amigos.&lt;br /&gt;Thiago não quis dignificar essa reclamação com qualquer reflexão. Por alto, sentia-se incomodado e perplexo perante essa obsessão de Joana em “ficar junto”. Dizia para si mesmo que tinha o direito de ir e vir, de manter a sua autonomia e não o lar como destino obrigatório após cada dia de trabalho. Ela estava lidando com uma ovelha desgarrada e precisaria se acostumar com isso.&lt;br /&gt;– Meu amor, para de me policiar. Uma noite que eu tiro para colocar o papo em dia com um amigo, você vai criar caso?&lt;br /&gt;- Amigo que você não vê há tempos, colega de trabalho, chefe, todo mundo é desculpa e cada um deles é mais importante do que eu.&lt;br /&gt;- Joana, não viaja. Por favor, não transforme isso em algo maior do que é.&lt;br /&gt;- Não viaja, não!&lt;br /&gt;- Joana, eu vou desligar, isso está ficando ridículo.&lt;br /&gt;- Não desliga na minha cara!&lt;br /&gt;- Vou desligar porque vim aqui com o Marcelo e ele está tendo que escutar tudo isso que não lhe diz respeito. A gente conversa em casa, não vou demorar.&lt;br /&gt;- Mas... &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Beijo, tchau.&lt;br /&gt;E fechou o flip do celular.&lt;br /&gt;- Problemas no departamento conjugal? – perguntou Marcelo.&lt;br /&gt;- Guerra conjugal, para ser preciso. Tô precisando de alguma coisa mais forte, me acompanha?&lt;br /&gt;- No quê?&lt;br /&gt;Nem aguardou o aval de Marcelo e se dirigiu a Genival, o garçom, pedindo a costumeira garrafa de “filho do Jaime”, como se referia ao whiskey Jameson. O silêncio imperou, até que a garrafa chegou à mesa e cada qual se serviu.&lt;br /&gt;- Mas eu preciso conhecer a sua esposa – retomou Marcelo, procurando quebrar o gelo.&lt;br /&gt;- Muita coisa aconteceu nos últimos cinco anos que você não ficou sabendo – retrucou Thiago.&lt;br /&gt;- Eu sei mais do que você imagina, meu amigo – bancou.&lt;br /&gt;Vendo que a conversa seguia um rumo provocativo, Thiago mudou o tom.&lt;br /&gt;- Sabe, sim – ironizou. – Nos últimos cinco anos, você só aprendeu a lamber sovaco peludo de vagabunda francesa enquanto a grana do seu pai ia pelo ralo com o seu mestrado.&lt;br /&gt;- Mas eu te garanto que aprendi mais com as putas da Rue Saint-Denis do que teria aprendido com qualquer professor da Sorbonne.&lt;br /&gt;- Disso eu não duvido, meu caro – redarguiu Thiago, enquanto erguia seu copo de encontro ao do amigo.&lt;br /&gt;- Saúde.&lt;br /&gt;_____________&lt;br /&gt;Conversa foi, conversa veio. Quatro garrafas de cerveja transformaram-se em seis. O litro de uísque também deu nítidos sinais de esvaziamento. Thiago e Marcelo compararam a legislação brasileira à francesa. Narraram momentos marcantes no tribunal. Thiago prometeu encaminhar o currículo do amigo para alguns conhecidos e Marcelo ficou de colocar o ex-colega de faculdade novamente em contato com seu pai, manda-chuva de um grande escritório no qual, ele próprio, não conseguiria trabalhar. Também relembraram momentos saudosos da época da faculdade. Bebedeiras homéricas, baladas intermináveis que, com a ajuda de pó e litros de café, confluíam no expediente em escritórios onde estagiaram. Garotas. Todos os caminhos pareciam levá-los a elas.&lt;br /&gt;- E a Maria Helena, você tem visto? – perguntou Marcelo.&lt;br /&gt;- Vi. Outro dia teve um daqueles jantares enfadonhos na casa do João e ela estava lá.&lt;br /&gt;- E como ela está?&lt;br /&gt;- Um bucho.&lt;br /&gt;- Como assim? – espantou-se o ex-mestrando.&lt;br /&gt;- Ela virou um canhão. Teve uns problemas hormonais que zoaram a pele dela e garantiram-lhe uns quilos a mais.&lt;br /&gt;- Mas ele era tão gata!&lt;br /&gt;- Nem me fala. Cara, pode parecer exagero, mas a cada reencontro desses que eu vou, percebo que as gatas daquela época estão virando bagulho e as feinhas estão ficando gostosas.&lt;br /&gt;- Ironia do destino?&lt;br /&gt;- Algo do tipo.&lt;br /&gt;Outro silêncio constrangedor mais uma vez se instaurou. Marcelo ficou nitidamente chocado perante a notícia de que Maria Helena havia definhado. Sim, foi Thiago quem a namorou, mas Marcelo sempre guardou um amor platônico pela ex-colega. Nem tão platônico assim, nos primeiros três anos de faculdade ele até se engraçou com ela em uma cervejada ou outra. Arrancou uns beijos e chegou até a levá-la para jantar. Mas havia colocado-a em um pedestal tão alto, que sempre que se dirigia a ela, embananava-se por completo. Até que em uma dada noite Thiago, na ocasião, mais bêbado e, sempre, mais direto, acabou levando-a embora.&lt;br /&gt;- Foi por isso que vocês terminaram?&lt;br /&gt;- O quê? – respondeu Thiago, como que flagrado em um momento de devaneio.&lt;br /&gt;- Foi por isso que você largou a Maria Helena, porque ela virou um bucho? – inquiriu Marcelo, virando um copo de uísque sem gelo que lhe desceu rasgando.&lt;br /&gt;- Não, não foi bem por isso – respondeu Thiago, cheio de si.&lt;br /&gt;– Na época em que a gente terminou ela ainda estava bem gostosa – explicou, procurando manter, assim, sua reputação intacta.&lt;br /&gt;- Então foi por quê?&lt;br /&gt;- Foi por causa da Joana. Meu namoro com a Maria Helena já tinha entrado na rotina, já estava um marasmo. E, mais ou menos na mesma época, eu entrei no Correia Pinto e conheci a Joana, na época uma estagiária de quinto ano com a bunda arrebitada e um fogo que você não imagina. Os serões no escritório, na sala de arquivos, para ser mais exato – soltou um sorrisinho maroto –, foram se tornando cada vez mais frequentes e a Maria Helena acabou descobrindo. Ela até tentou fazer com que a gente se reconciliasse, mas fui honesto e assumi que queria ficar com a Joana.&lt;br /&gt;Marcelo pareceu ir ficando nítida e gradualmente perplexo com o desenrolar dos fatos. Sentiu um ódio profundo do amigo. Vontade de se levantar da cadeira e dar-lhe uma garrafada na cabeça. Mas, como o uísque que estava tomando, engoliu seco. Apenas levantou o copo e maneou a cabeça como se propusesse um brinde.&lt;br /&gt;- Pelo menos você se casou com a mulher certa, então.&lt;br /&gt;- É – respondeu Thiago, virando os olhos. – Algo do tipo.&lt;br /&gt;Nesse exato instante tocou o celular de Marcelo. Era Manolo, um artista plástico com quem chegou a dividir apartamento na França. Ele estava aportando na esquina e iria se juntar aos dois.&lt;br /&gt;_____________&lt;br /&gt;- Thiago, quero que você conheça o Manolo – apresentou Marcelo, com os trejeitos fanfarrões de costume.&lt;br /&gt;– Manolo, esse aqui é o Thiago, meu grande amigo da faculdade.&lt;br /&gt;- Prazer – disse Manolo, com um sorriso genuíno estampado no rosto.&lt;br /&gt;- Prazer – respondeu Thiago, tentando retribuir o sorriso sem soar tão convincente.&lt;br /&gt;Ele não pareceu muito confortável enquanto Marcelo e Manolo relembravam as estripulias de Paris. Não que ficasse constrangido com narrativas de putaria, simplesmente não estava interessado. Manolo fazia mais o tipo rude. Baixo, troncudo, e com uma espessa barba que se iniciava no pescoço. Respondia a tudo com gírias manjadas que o próprio Thiago não utilizava desde a época da faculdade. Tinha uma incômoda abertura e espontaneidade para lidar com os papos que surgiam na mesa. Thiago pediu licença para ir ao banheiro.&lt;br /&gt;- O Manolo estava me falando sobre seu impasse amoroso – disse Marcelo, assim que Thiago retornou à mesa.&lt;br /&gt;- Ah, é? – respondeu Thiago, pela primeira vez interessado no que o amigo do amigo poderia ter a dizer.&lt;br /&gt;- É – continuou Marcelo.&lt;br /&gt;– O Manolo está saindo com uma mulher casada – especificou, constrangendo o artista plástico.&lt;br /&gt;- Então você está ficando só com a parte boa da vida a dois – ironizou Thiago, pela primeira vez demonstrando empatia pelo recém-chegado.&lt;br /&gt;- Não é bem assim – respondeu Manolo, encabulado.&lt;br /&gt;- Então como é? – continuou Thiago.&lt;br /&gt;- As coisas não estão saindo bem como ele esperava – avaliou Marcelo.&lt;br /&gt;- Como assim?&lt;br /&gt;- Ela me pediu um tempo para tentar se reconciliar com o marido – explicou Manolo, cabisbaixo.&lt;br /&gt;- Ah é, então o corno ainda tem salvação?&lt;br /&gt;- Não sei, essa mina é muito louca.&lt;br /&gt;- Como assim?&lt;br /&gt;- A gente está saindo faz uns seis meses. No começo tudo eram flores. O marido estava sempre ausente, então a gente só curtia. Trepava o tempo todo, no motel, no carro dela, no meu carro. Até na cama deles a gente chegou a transar.&lt;br /&gt;- E aí? – atiçou Thiago, entretido.&lt;br /&gt;- E aí que ela parecia decidida a largá-lo. Dizia que me amava e que queria ficar comigo,.- E o marido não está nem aí – acrescentou Marcelo.&lt;br /&gt;- É – continuou Manolo –, ela liga pro cara, às vezes na minha frente, e ele não dá bola, parece meio de saco cheio.&lt;br /&gt;- E então, qual o problema?&lt;br /&gt;- O problema é que, umas duas semanas atrás, ela falou que não poderia mais me ver. Que ainda gostava do marido e queria salvar o casamento.&lt;br /&gt;- Então vocês não se viram mais?&lt;br /&gt;- Nos vimos, a gente se encontrou mais algumas vezes e acabamos sempre trepando loucamente. Só que ela quer acabar com isso.&lt;br /&gt;- Como você sabe? – instigou Thiago. – De repente ela só fazendo doce. Tem mulher que adora esses joguinhos.&lt;br /&gt;- Não, acho que não. Acho que ela está com o cara já faz um tempo e tem medo de fazer cagada.&lt;br /&gt;- Mas você gosta dessa mina? – perguntou Thiago, adotando terminologias que andavam adormecidas em seu vocabulário.&lt;br /&gt;- Gosto! O pior é isso. A gente trepa pra cacete, faz de tudo que você pode imaginar, mas, ao mesmo tempo, ela tem um jeitinho quando estamos só nos dois que me derruba. Uma meiguice, uma doçura, que acabam comigo.&lt;br /&gt;Thiago sentira uma ponta de com esse depoimento. O que não daria ele por uma ponta desse tesão, dessa adrenalina, que ele e Joana chegaram a viver mas que tinha-se esvaído por água abaixo?&lt;br /&gt;- Então ela deve ser uma puta buceta – continuou, irrepreensível.&lt;br /&gt;- Ah, ela é um tesão – respondeu Manolo, envergonhado ao prever o brilho nos próprios olhos. – É uma cavala – abriu os braços para descrever. – Quadril largo, cinturinha, e uma bunda que você não imagina.&lt;br /&gt;A inveja de Thiago era iminente. Chegara a se perguntar o que estaria ele fazendo com a mesma mulher há tanto tempo, quando poderia estar vivendo aventuras em carne e osso como esta. Como quando começou a comer a Joana.&lt;br /&gt;- Mas o cara desconfia?&lt;br /&gt;- Acho que não, está sempre ocupado com trabalho, sai bastante sem ela. Sempre que ela liga, às vezes do meu lado, o cara parece meio de saco cheio, não sei. Se bobear, também está chifrando ela.&lt;br /&gt;- Que coisa – respondeu Thiago, sentindo uma ponta de pena do corno.&lt;br /&gt;- E a mulher dele por aí, insaciável – concluiu Manolo.&lt;br /&gt;- Se bobear, o corno ainda engole uns pelos seus quando vai comer ela – interpelou Marcelo, gozador.&lt;br /&gt;Essa afirmação ativou algum resquício de memória em Thiago. Certa vez aconteceu de, enquanto chupava a xoxota raspadinha da esposa, se deparar com um fio de cabelo longo e espesso demais para pertencer àquela vegetação rarefeita dos tempos da brazilian wax.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Agora eu só sei que ela quer ficar com o marido e eu não sei o que fazer – continuou Manolo, cabisbaixo.&lt;br /&gt;- Calma que na próxima vez que a periquita dela coçar, você é o homem que ela vai procurar – contrapôs Marcelo.&lt;br /&gt;– Agora vocês me dêem licença que eu preciso tirar a água do joelho – disse o amigo comum.&lt;br /&gt;Após alguns instantes de silêncio, Thiago retomou o assunto.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Então vocês já treparam na cama do marido dela?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Sim, foi ainda mais louco, ela gozou pra cacete.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- E onde eles moram?- No Brooklin.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Ah... O que ela faz? – continuou Thiago.&lt;br /&gt;- Ela é advogada, que nem vocês – respondeu Manolo, com simplicidade.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- E essa femme fatale tem nome?&lt;br /&gt;- Tem. É Joana. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Thiago sentiu um princípio de taquicardia. A simples possibilidade de imaginar a sua esposa nua com aquele tipo peludo era de embrulhar-lhe o estômago.&lt;br /&gt;____________&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Thiago fez o que qualquer homem no seu lugar teria feito. Levantou-se prontamente da cadeira, agarrou aquela garrafa de Jameson e quebrou-a na cabeça de Manolo. Depois que aquele casco de vidro havia-se destituído em cacos, pegou o cabra pela nuca e deferiu sua cabeça contra o tampo da mesa de madeira. Não uma, mas repetidas vezes. Até sua testa vazar um sangue tão vibrante e viscoso quanto seu ódio de marido traído. Quando o pobre-coitado parou de responder às testadas, Thiago o jogou contra o chão e começou a chutá-lo. Na testa, na boca, nas costelas. Com o sujeito, inerte, deitado sobre a poça formada pelo próprio sangue, resolveu pisar-lhe a cabeça. A testa e, principalmente, a boca. Afundando-lhe os dentes, irrompendo a respiração e desfigurando suas mandíbulas.&lt;br /&gt;____________&lt;br /&gt;- Vocês estão se divertindo sem mim? – perguntou Marcelo, ainda no processo de fechar o zíper da calça enquanto voltava do banheiro.&lt;br /&gt;- Estamos – respondeu Manolo, com o pouco que se via dos seus lábios por causa da barba.&lt;br /&gt;- Pois é – concordou Thiago.&lt;br /&gt;– Ele estava me falando sobre a destruidora de lares.&lt;br /&gt;Claro que Thiago não levantou um dedo contra Manolo. Vontade para isso não faltou, mas se viu assolado por um sentimento de impotência que jamais sentiu. Como se aquele sujeito que traçava sua mulher toda noite tivesse, assim, o destituído de sua masculinidade. Ele já havia estado no lugar de Manolo e bancado o Ricardão em uma relação de três extremos. Mas agora, finalmente, estava no papel de corno. Não imaginou que isso aconteceria justamente com ele.&lt;br /&gt;- Antes fosse – respondeu Manolo.&lt;br /&gt;- Antes fosse o quê?&lt;br /&gt;- Antes fosse destruidora de lares. Assim eu sentiria que ainda há chance de a gente ficar junto.&lt;br /&gt;“Ficar junto”. Essa expressão ecoou um sentimento de pura repugnância em Thiago. Por que diabos estaria aquele sujeito barbado tão interessado em “ficar junto” com Joana, de quem ele próprio já tinha empapuçado? Se bem que, verdade seja dita, nem sempre havia sido assim...&lt;br /&gt;- Não desanima, Manolo. Daqui a pouco ela percebe que o marido é um merda e volta para você – consolou Marcelo.&lt;br /&gt;- Ou não – interpôs Thiago. – De repente, eles só estão passando por uma crise e ela acabou caindo em si.&lt;br /&gt;Marcelo olhou para o ex-colega de faculdade com ar de reprovação. Thiago supôs que ele sabia de tudo, que havia friamente orquestrado aquela situação insólita para seu próprio deleite. Mas por que teria se dado ao trabalho?&lt;br /&gt;- Não me leve a mal – remendou Thiago. – Não estou querendo subestimar o que vocês têm ou chegaram a ter juntos. Mas a mulherada nessa idade presa muito pela estabilidade – formulou, sentindo um prazer sádico em torturar o rival. – Bem ou mal, é ele quem vai esquentar ela hoje à noite e não você.&lt;br /&gt;- Mas o cara nem liga para ela – protestou Manolo, quase choroso.&lt;br /&gt;Estranho escutar uma das queixas mais frequentes de Joana da boca do seu amante. Ele nunca havia se dado o trabalho de tentar entender o que ela estava sentindo, mas, lá dentro, sempre soube que aquele tipo de reclamação refletia uma preocupação maior. Uma insegurança com relação ao fato de que, no começo do casamento, ele seguia ansioso o giro contínuo do ponteiro do relógio, como se pudesse acelerá-lo para que chegasse logo o momento de ir para casa “ficar junto”. Época em que ansiava para que ela fosse sua, por dominar não apenas seu corpo como seu interior. Ao longo dos anos, conforme foi tendo a ilusão de que esse desejo se concretizara, Joana perdeu importância na sua escala de prioridades. Doar tempo a ela significava se doar. E tinha o receio irracional de que, se continuasse doando-se tanto, não ficaria com nada. Antes tivesse arrumado uma amante.&lt;br /&gt;- A ideia de ela estar trepando com ele agora me dá ânsia de vômito – desabafou o artista plástico.&lt;br /&gt;Tá aí uma reação com a qual Thiago conseguia se identificar.&lt;br /&gt;- Calma, Manolo – interrompeu Marcelo. – Eles agora devem estar assistindo ao &lt;em&gt;Programa do Jô&lt;/em&gt;, de pijamas. Não se preocupe, não vai volar nada.&lt;br /&gt;Se contassem para Thiago que ele passaria por essa situação, não hesitaria em dizer que largaria Joana como a um mau hábito. Não se prestaria a trepar com “buceta usada”, a ter contato com o resto de porra (ou com o pentelho) de outro. Isso é o que ele diria para si próprio. Assim como imaginaria que quebraria uma garrafa na cabeça do adversário. Mas agora a atitude era outra. Ele não podia simplesmente sair de cena e deixar os dois pombinhos serem felizes para sempre. Joana era gostosa demais para entregá-la assim, de mão beijada, a um Mané como este. Precisaria fazê-la sua novamente.&lt;br /&gt;- Vamos indo – disse Thiago, maneando a cabeça em direção a Genivaldo, que começava a colocar as cadeiras sobre as mesas vazias.&lt;br /&gt;- Vamos – respondeu Marcelo, colocando a mão na nuca do amigo cabisbaixo.&lt;br /&gt;– Vamos nessa que o Manolo precisa curar essa chave de buceta - gargalhou.&lt;br /&gt;Outro sentimento com o qual Thiago conseguia se identificar. Na saída do bar, os três deram-se as mãos.&lt;br /&gt;- Fica tranquilo que tem muita buceta no mundo – disse Thiago, simpático, em uma tentativa infantil de limpar o próprio campinho.&lt;br /&gt;- É, eu sei – respondeu Manolo, não soando mais tão convincente.&lt;br /&gt;- Falou meu velho, vamos marcar outra dessas em breve – despediu-se Marcelo, enfático.&lt;br /&gt;- Falou –retribuiu Thiago, com frieza. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Ele já sabia que isso não voltaria a acontecer tão cedo. Quando entrou no carro, pisou fundo. Tinha uma missão pela frente e ansiava por cumpri-la. Sentia até seu pau enrijecendo-se contra o zíper da calça. Iria foder Joana dos pés à cabeça. De pé, sentada, deitada, de frente, de costas, de lado, do avesso. Iria fodê-la até gritar, chorar, tremer e os olhos revirar. Até ela dizer chega. Iria foder Manolo.&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4250515457249620938-3317317844667537493?l=semanualdeinstrucoes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semanualdeinstrucoes.blogspot.com/feeds/3317317844667537493/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4250515457249620938&amp;postID=3317317844667537493' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4250515457249620938/posts/default/3317317844667537493'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4250515457249620938/posts/default/3317317844667537493'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semanualdeinstrucoes.blogspot.com/2010/06/mulher-do-proximo.html' title='A MULHER DO PRÓXIMO'/><author><name>Carlos Messias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13081313300517689304</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='31' src='http://3.bp.blogspot.com/-UyMA4xgDMk4/ThN11S_cFgI/AAAAAAAAAGg/rbObZKmGK8M/s220/gates.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4250515457249620938.post-2115248330408795117</id><published>2008-11-08T11:26:00.000-08:00</published><updated>2010-06-15T22:58:52.474-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Conto'/><title type='text'>O REGRESSO DA TEMPESTADE</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Se eu me jogar você me pega? – perguntou Luana, de costas para Dario, com os braços estendidos para o alto.&lt;br /&gt;- Pego – ele respondeu, com calma e confiança.&lt;br /&gt;Então ela se deixou soltar, sutilmente caindo para trás, de encontro aos seus braços e peito que a acomodaram com segurança.&lt;br /&gt;- Você pode sempre confiar em mim – ele falou.&lt;br /&gt;- Promete?&lt;br /&gt;- Prometo.&lt;br /&gt;Juntaram-se em acalento, um abraço forte e resoluto. Estavam em uma praia deserta. A luz já amena com o desenrolar da tarde, um vento fresco e o barulho das ondas arrebentando ao fundo. O mar era de um verde transparente, enxergava-se o solo através da água. Um cenário translúcido.&lt;br /&gt;Caminharam de pés descalços sobre a areia – fina, leve, úmida. Por sobre o biquíni, ela vestia uma saída de praia azul estampada. Ele, camiseta branca e bermuda de sarja. Com as mãos cruzadas entre si, continuaram andando. O Sol baixo, parcialmente encoberto, esforçarva-se para que aquela luz alaranjada, tão incandescente quanto efêmera, atravessasse as nuvens.&lt;br /&gt;- Amo você – ela falou, surpreendendo-lhe com um beijo no rosto.&lt;br /&gt;- Também te amo – respondeu, com sorriso de satisfação.&lt;br /&gt;Foram de encontro ao mar apenas até a água encobrir seus tornozelos. De lado um para o outro, envolveram-se pelas cinturas. Encararam o horizonte. Gaivotas e vôos rasantes.&lt;br /&gt;Dario avistou uma concha sendo carregada pela maré chegando à baía. Abaixou-se para apanhá-la e notou que em seu interior residia uma ostra. A superfície do casco estava rachada, como que tivesse se chocado em pedras e corais desde que puxada da cama em que repousava. Ao tirar o molusco da concha, sentiu-o movimentar-se, escorregadio, entre os dedos. Com o indicador e o polegar, levou-o de encontro à boca de Luana que, em uma mordida incisiva, arrancou-lhe metade. Com as mãos espalmadas, colocou o que sobrou em sua própria. Deixaram-se inundar pelo gosto salgado, metálico e oleoso do gélido fruto do mar.&lt;br /&gt;Novamente de mãos dadas, sobrepuseram o tombo da praia caminhando até o epicentro do afresco de areia. Ela tirou o vestido estendendo-o sobre o relevo. Foi puxada de encontro a ele. Beijaram-se com ternura, envolvendo-se, atiçando-se, desenrolando os próprios segredos. Gentilmente, Dario a deitou sobre a cama que fizeram na areia. Suas mãos se fincaram nos cabelos longos e macios. Os dois corpos se entrelaçaram com intimidade. Epidermes tomadas por um eletrificante episódio de atração. Dedos dos pés moviam-se espasmodicamente. Olhos reviravam-se. As línguas remoíam-se no interior da boca e fora dela – um sabor cítrico que ofuscava a acidez da ostra. A um passo do cume, deram-se as mãos, novamente, entrelaçando-as pelos dedos. Olhos nos olhos, boca com boca. Duas geografias integradas em uma.&lt;br /&gt;- Te amo muito – ela disse, ofegante e estremecida.&lt;br /&gt;- Também te amo demais – respondeu, assumindo a total vulnerabilidade.&lt;br /&gt;Deitaram-se em concha, com a cabeça dela repousando em seu braço esquerdo e o direito envolvendo aquele quadril com propriedade. As costas dela bem acomodadas em seu peito. Cinturas simetricamente alinhadas. A perna dele entre as dela, cujos pés conseguiam se estender até o seu tornozelo. Formavam um lar.&lt;br /&gt;- Que susto! – Luana exclamou, inquietando-se ao ver um caranguejo emergindo da areia.&lt;br /&gt;- Não é nada – Dario falou, puxando-a de volta aos seus braços. – Estou aqui para te proteger.&lt;br /&gt;Adormeceram.&lt;br /&gt;_________________&lt;br /&gt;Desatava a chover. Luana despencava de uma colina. Em prantos, cabelos ao vento. Dario estava de pé em uma caverna ao centro daquela formação rochosa. Suas mãos estavam atadas.&lt;br /&gt;Em desespero, esforçava-se para se desvencilhar da corda que lhe prendia os punhos.&lt;br /&gt;- Socorro! – ela gritava, conforme se aproximava dele, que assistia debaixo.&lt;br /&gt;Avistando uma lasca pontiaguda de pedra, adiantou-se em cerrar o cordelete de nylon. Fez isso aos prantos, ferindo a própria pele, que agora sangrava. Quando conseguiu se libertar, ela estava bem próxima. Fincou a mão direita em uma cavidade de pedra e estendeu a mão esquerda para ela, que vinha rápido demais. Ela esticou o braço para que sua mão fosse de encontro à dele, porém passou-lhe entre os dedos.&lt;br /&gt;Impotente, Dario observou-a submergindo mar adentro.&lt;br /&gt;_________________&lt;br /&gt;Despertou em um salto. Olhou para o alto, viu que agora garoava. O céu estava fechado e cinzento. Logo iria anoitecer.&lt;br /&gt;Virou-se para o lado e viu que Luana não estava mais lá. Desesperado, levantou-se em um pulo. Com as mãos sobre a fronte, girou 360 graus sondando pela imagem dela. Avistou a parte de cima do biquíni flutuando na área de arrebentação. Correu em direção ao mar.&lt;br /&gt;Enfrentou as ondas e a correnteza com largas braçadas. Tapou a boca e o nariz, mergulhando de peito. O mar estava muito movimentado. Aquele pó acinzentado ofuscava-lhe a visão. Ao retornar à superfície para buscar fôlego, enxergou seus cabelos loiros ao vento conforme ela caminhava em direção à outra ponta da praia. Com braçadas largas, tentava se dirigir à baía, mas a correnteza lhe segurava. Colocando todas as suas forças nos ombros, conseguiu vencê-la. Luana não estava mais ao alcance do olhar.&lt;br /&gt;- Luana! Luana! – Dario gritava, a plenos pulmões, conforme corria na direção que ela parecia ter seguido. Sua cabeça movimentava-se freneticamente na tentativa de que seus olhos cobrissem cada centímetro daquele território acidentado. Fôlego começava a lhe faltar, mas não ousaria diminuir o passo. Urubus disputavam a carniça de um cachorro magro e destroçado.&lt;br /&gt;Então viu o vestido dela pendendo no galho de árvore na restinga. Saiu em disparada, ferindo os pés no contato com as raízes e espinhos. Sangue lhe custou.&lt;br /&gt;- Luana! Luana! – emanava em desespero.&lt;br /&gt;Ela agora estava em pé, nua, sobre uma das dunas ao fundo. Usando de pernas, braços e resiliência, venceu a distância e a altura sobre a areia molhada. Ela permanecia ali parada, sorriso discreto no canto dos lábios e semblante de sobriedade.&lt;br /&gt;- O que aconteceu, meu amor? – ele perguntava conforme se aproximava, esbaforido.&lt;br /&gt;Ela permanecia sem reação.&lt;br /&gt;Ao impulsionar-se na mais alta das pedras escondidas sob a areia, se antecipou com um abraço. Abraçou o vento, pois ela não estava mais lá. Perplexo, Dario se pôs a perscrutar em todas as direções.&lt;br /&gt;- Luana! Luana! – em pura angústia.&lt;br /&gt;Novamente a enxergou, agora à encosta da parte posterior da formação arenosa.&lt;br /&gt;- Meu anjo, o que está acontecendo? - Ele perguntou, quando mais uma vez se colocou diante de sua mulher. O semblante dela permanecia o mesmo, porém agora estava vestida.&lt;br /&gt;- Não está acontecendo nada, meu amor. Vai ficar tudo bem.&lt;br /&gt;Desta vez ele tentou tocá-la com as mãos, mas elas atravessavam aquela imagem, como que diante de uma ilusão. Um piscar de olhos, ela não estava mais lá. Inconsolável, Dario se pôs a sentar e começou a chorar. Agora estava escuro.&lt;br /&gt;Até que escutou: - Aqui embaixo, meu amor – a voz dela mantinha o mesmo tom suave, aveludado e serene do início daquela tarde.&lt;br /&gt;Ele se levantou e, aproximando-se ainda mais da encosta, se surpreendeu ao olhar para baixo e vê-la emanar uma luz fluorescente que irrompia a escuridão.&lt;br /&gt;- Estou aqui, querido – ela falava.&lt;br /&gt;Dario colocou metade dos pés ensangüentados para fora, custava a acreditar.&lt;br /&gt;- Pula que eu te pego – disse Luana.&lt;br /&gt;- Promete? - replicou.&lt;br /&gt;Ela simplesmente aquiesceu com a cabeça.&lt;br /&gt;Então Dario se virou de costas para o precipício, ergueu os braços para o alto e se permitiu despencar.&lt;br /&gt;Teve uma queda seca, aterrissando em um buraco repleto de pedregulhos. Com o impacto, sentiu o peito estremecer, a cabeça bater e a espinha dorsal se estilhaçar. Olhou para o alto e agora só via a escuridão. Desatava a chover.&lt;/span&gt; &lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4250515457249620938-2115248330408795117?l=semanualdeinstrucoes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semanualdeinstrucoes.blogspot.com/feeds/2115248330408795117/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4250515457249620938&amp;postID=2115248330408795117' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4250515457249620938/posts/default/2115248330408795117'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4250515457249620938/posts/default/2115248330408795117'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semanualdeinstrucoes.blogspot.com/2008/11/o-regresso-da-tempestade-conto_08.html' title='O REGRESSO DA TEMPESTADE'/><author><name>Carlos Messias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13081313300517689304</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='31' src='http://3.bp.blogspot.com/-UyMA4xgDMk4/ThN11S_cFgI/AAAAAAAAAGg/rbObZKmGK8M/s220/gates.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4250515457249620938.post-5853089037862318598</id><published>2008-11-03T19:09:00.000-08:00</published><updated>2010-06-15T22:59:30.054-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Conto'/><title type='text'>ENCONTROS FURTIVOS</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Ele havia saído de casa disposto a recuperar o tempo perdido. Provar para si mesmo que as velhas correntes estavam rompidas, o ranço superado e a liberdade conquistada. Junto a Paulo e Luís, dois amigos das antigas, foi ao Mezzanine, apinhado clube noturno paulistano. “Aos velhos tempos”, brindaram antes de virar shots de tequila.&lt;br /&gt;O som era alto, o público agitado e uma quantidade de mulheres acima da média. Bastava um leve devaneio com os olhos para encontrar uma destinatária receptiva. Jonas não demorou em fazer a primeira investida. Fora de prática que estava, as palavras saíram atropeladas. Tão alto o som, não entendeu as respostas. Desconfortável, debandou.&lt;br /&gt;Mais uma dose. Aos poucos foi se soltando. Deixava a música tomar seu corpo e dirigir seus movimentos. O clima de irmandade entre os amigos trazia nostalgia. Fez uma segunda tentativa, Françoise. Ela se mostrou bastante indulgente; simpática, ria de orelha a orelha. Tão fácil, ficou sem graça. Passou para frente.&lt;br /&gt;- Cerveja.&lt;br /&gt;“Nada como uma ruivinha”, pensou, ao aproximar-se de uma moça com seios gritantes, pele sardenta e cabelos encaracolados. A risadinha era insuportável, saia à toa, alto demais. Ela não ficava quieta. Claramente estava interessada, mas, em torno de temas desinteressantes, era difícil manter-se atento à conversa. “Vamos para a próxima”, falou a Luís, que aguardava ao lado. “Você está muito fresco”, acusou o amigo. “Eu sei”, respondeu.&lt;br /&gt;- Cerveja.&lt;br /&gt;- Jack Daniel’s.&lt;br /&gt;- Jack Daniel’s.&lt;br /&gt;- Jack Daniel’s.&lt;br /&gt;Tentou mais uma: estudante universitária, 21 anos. Aos 28, faltou-lhe estômago. Então avistou uma morena estonteante, pele bronzeada, cabelos lisos e compridos, tudo no lugar e muito a deixar para a imaginação. O papo fluiu bem. Para surpresa de Jonas, questões instigantes foram resvaladas. A sua mão se acomodou na cintura dela. Então o quadril da moça veio de encontro ao seu. Envolveu-a em seus braços e arriscou um beijo. Com sucesso. Beijo molhado, macio, envolvente, carnal. Terminada a primeira bateria, ficaram sem assunto. Partiram para a segunda.&lt;br /&gt;Recostaram-se em um pilar aos fundos da pista. As mãos dele passavam pela barriguinha dela. Seios prensados contra seu peito. Ela fez com que suas mãos descessem de encontro às coxas. Por conta própria, encontraram seu caminho até as nádegas firmes que testavam a resistência da calça. Momento em que ela apertou seus bíceps, não sabia ele se para repreender ou estimular. Sentiu algo vibrar. Era o minúsculo telefone celular que ela mantinha no bolso da frente. “Preciso ir, minha amiga está me esperando”, anunciou, após aparentemente ter lido uma mensagem de texto. “Anota meu número, vamos ver se a gente combina alguma coisa”, disse ela. “Vamos ver”, respondeu, enquanto pressionava as teclas conforme ela falava - não se deu ao trabalho de salvar.&lt;br /&gt;- Jack Daniel’s.&lt;br /&gt;- Jack Daniel’s.&lt;br /&gt;Sentou-se ao sofá e acendeu um cigarro enquanto deixava aquele gosto meloso do uísque percorrer suas mucosas bucais. A euforia deu espaço à melancolia. Luís e Paulo pareciam estar se dando bem na pista e assim Jonas os deixou. Uma hora se passou. Sua visão estava fora de foco e o peito aberto, como que apunhalado sabe-se lá por quem. À sua diagonal, avistou uma loira de vestido branco, pernas cruzadas, cigarro pendendo na mão direita e olhar perdido no espaço. Seu rosto tinha traços belos e levemente destoados pelo tempo. Devia ter entre 35 e 40 anos. Apesar da maquiagem pesada, dava para notar seus belos olhos azuis acinzentados. Emanavam certa dose de tristeza. Ele se aproximou.&lt;br /&gt;Já no fim de noite, com o som mais baixo e movimentação esparsa, conseguiram manter uma conversa. Agradável, por sinal. Ela sorria carinhosamente, como um animal machucado que de repente encontra cuidado. Beijaram-se, fora de compasso. A boca dela movia-se com extrema voracidade deixando resquício de dentes. Sua língua, cujos vasos da parte inferior podiam ser sentidos, faltou invadir-lhe a goela. Um sabor que misturava cigarro, Trident de melancia e prosecco. Ele pousou a mão esquerda em sua coxa, bem torneada e exposta. “Preciso ir embora”, ela falou. “Eu te levo”, respondeu.&lt;br /&gt;Quando foram em direção ao carro, ela pareceu genuinamente agradecida por ele ter-lhe aberto a porta do passageiro. No caminho, pouco conversaram. Jonas deixou uma música fantasmagórica ecoando ao fundo. Em uma troca de marchas, foi a vez da mão direita ir parar nas pernas dela. Sem maiores firulas, ela a deslizou por sob o vestido. Ao recostar-se sob sua fenda, por sinal, umedecida, não pôde deixar de notar que estava sem calcinha.&lt;br /&gt;Embicou o carro no primeiro motel que viu sem se dar ao trabalho de consultá-la. Nenhuma resistência foi imposta. O quarto tinha cheiro de mofo, rasgos no carpete marrom e um excesso de objetos de madeira que deixavam o ambiente pesado. Não fora escolhido por seus traços de requinte. Em pé, encheu dois copos de uísque até a metade. Ela virou de um gole, ele sorveu lentamente. Na mesma posição, enquanto olhavam-se nos olhos, Jonas puxou a meia calça para baixo. Aproveitando a posição de comando, Ludmila (esse era o seu nome) apoiou o salto alto sobre a cama, dando a deixa de como ele deveria proceder. Assim o fez e continuou até ficar com a mandíbula adormecida. Rios derramados, levantou-se puxando o vestido dela para cima. Deparou-se com seios levemente pendidos para baixo, mas ainda assim suntuosos. Uma silhueta levemente flácida, porém esguia e atraente. Puxou-a de encontro a si e sentiu sua pele de tênue elasticidade, na temperatura certa.&lt;br /&gt;Foi empurrado sobre a cama e despido com urgência. Teve o favor retribuído. Antes que pudesse tomar qualquer iniciativa, ela sentou-se sobre ele. Um gemido contido que combinava dor e prazer. Ela passou a movimentar-se bruscamente, aumentando a magnitude dos gemidos na mesma proporção. Cavalgava feito uma Comanche, com rosto e bicos dos seios apontando para cima, olhos sempre fechados. Pela aflita movimentação de suas mandíbulas, parecia exorcizar algum monstro. Aquilo não passava de masturbação a dois, mas Jonas não se importou nem um pouco.&lt;br /&gt;Quando ela estava a um toque da ebulição, entendeu o sinal e também se permitiu externar. Ela afagou o rosto dele de um jeito meio estabanado, depois deitou-se em seu peito. Desconfortável naquela posição, Jonas rolou-a de lado e lhe abraçou por trás. Sentiu um calafrio, não se acomodava àquele corpo. Afastou-se e deitou de costas. Acendeu um cigarro. “Você é tão misterioso” – foram as primeiras palavras após terem saído do carro. “No que você está pensando?”, perguntou. Jonas sacudiu em desaprovação, não deu a entender que responderia. Depois que espremeu a bituca no interior do cinzeiro, postou-se em cima dela. Então foi sua vez de enfrentar os próprios demônios. Fizeram de frente, de lado, em cima da mesa, ao pé da cama. Por volta das 11 da manhã, quando a expressão de agonia no rosto de Ludmila já havia se tornado insuportável, gerando asco, colocou-a de quatro. A movimentação foi fulminante, violenta. Largados em meio à cama encharcada por seus fluídos corporais, finalmente sentiram-se livres, cada um em seu canto, sob as sombras de cada qual. Com dor de cabeça e a garganta seca, Jonas virou um litro d'água e esperou ela sair do banho para se lavar.&lt;br /&gt;Conforme ela subia a meia-calça por sob o vestido, calçava o último pé da botina sentado ao canto da cama. Apanhou a carteira e os cigarros no criado-mudo. Prendeu o relógio ao redor do punho e vislumbrou seu reflexo no espelho. Era hora de ir.&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4250515457249620938-5853089037862318598?l=semanualdeinstrucoes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semanualdeinstrucoes.blogspot.com/feeds/5853089037862318598/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4250515457249620938&amp;postID=5853089037862318598' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4250515457249620938/posts/default/5853089037862318598'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4250515457249620938/posts/default/5853089037862318598'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semanualdeinstrucoes.blogspot.com/2008/11/encontros-furtivos-conto.html' title='ENCONTROS FURTIVOS'/><author><name>Carlos Messias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13081313300517689304</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='31' src='http://3.bp.blogspot.com/-UyMA4xgDMk4/ThN11S_cFgI/AAAAAAAAAGg/rbObZKmGK8M/s220/gates.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4250515457249620938.post-4616733304792135211</id><published>2008-05-21T11:02:00.001-07:00</published><updated>2010-06-15T23:02:01.252-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Conto'/><title type='text'>ANONIMATO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Donato Ribeiro desperta em sua kitchnete na Avenida São João com o barulho da TV ligada. Percebe que ainda está vestido, não tirara nem os sapatos. Olha no relógio e vê que são 11:10. Precisa se aprontar para o serviço. Deixa a TV ligada, não por estar prestando atenção em algo especial, apenas pela companhia. Vai ao banheiro, que tem cheiro de esgoto devido ao vazamento no teto, acende a luz. Defronte ao reflexo do espelho encardido e quebrado nas pontas, depara-se com sua cara inchada, seu mullets despenteado e suas olheiras enrubescidas. Resolve fazer a barba, não porque quer, mas porque precisa: seu João é chato quanto à aparência dos funcionários. Ensaboa a cara, apanha a gilete entre o indicador dobrado e o polegar estendido, se prepara para passar a lâmina. Suas mãos começam a tremer e ele percebe que, caso continue assim, vai se cortar. Apanha um copo estrategicamente posicionado sobre o criado mudo, ao lado de sua garrafa de conhaque. Enche até a boca e vira de um gole.Caminha até o ponto. Enquanto o ônibus não chega, Donato dá um pulo no Bar do Mané, logo atrás. Pede um rabo-de-galo e uma coxinha, em que dá uma única mordida. Instantes depois, chegando ao Estacionamento Gran Park, na Rua Maria Antônia, ele bate o cartão de ponto e se prepara para assumir o posto na cabine. Liga o rádio a pilhas, não por desejar ouvir algo em especial, apenas pela companhia. Posiciona o cinzeiro de plástico sobre mesa à sua frente, acende um cigarro e começa a trabalhar.Recebe cartão, bate cartão, troca cartão e devolve cartão para os mensalistas. Pede a placa, emite comprovante e o entrega aos avulsos. Também faz a cobrança quando estes saem. Donato recebe cartão, bate cartão, troca cartão e devolve cartão. Recebe cartão, bate cartão, troca cartão e devolve cartão. Recebe cartão, bate cartão, troca cartão e devolve cartão. Acende um cigarro. Pede a placa, emite comprovante e entrega comprovante. Recebe cartão, bate cartão, troca cartão e devolve cartão. Muda a estação no rádio. Recebe cartão, bate cartão, troca cartão e devolve cartão. Limpa o suor da testa. Recebe comprovante e uma nota de vinte reais. Emite recibo em duas vias, coloca uma na boleta e dá a outra para o avulso, junto aos doze reais de troco. Recebe cartão, bate cartão, troca cartão e devolve cartão. Pede para Lucindo, um dos manobristas, assumir o seu posto por alguns instantes, pois precisa ir ao banheiro.Caminha até o Azaléia, um boteco na mesma calçada do estacionamento. Vira um rabo-de-galo, acende um cigarro e vai até o banheiro. Volta do banheiro, vira outro rabo-de-galo e retorna ao estacionamento. Recebe cartão, bate cartão, troca cartão e devolve cartão. Cumprimenta um cliente que pára ao lado da cabine com uma caminhonete moderna e um som ligado em volume ensurdecedor. Sem se dar conta, ressente o sujeito por parecer tão entusiasmado. Recebe cartão, bate cartão, troca cartão e devolve cartão. Acende um cigarro. Recebe cartão, bate cartão, troca cartão e devolve cartão. Pede a placa, emite comprovante e entrega comprovante. Pede para Lucindo assumir o seu posto por alguns instantes, pois precisa ir ao banheiro. Às nove da noite ele fecha o caixa, apenas somando os recibos da boleta ao dinheiro da gaveta e colocando-o em um malote que tranca no armário do escritório do Seu João. Ele mais Lucindo descem a Dr. Vila Nova, até um boteco na Major Setório. Escoram-se no balcão e pedem uma cerveja de garrafa. Donato pede um conhaque para acompanhar. Logo chegam os manobristas e cabineiros dos estacionamentos adjacentes. Iniciam uma conversa sobre o Santos, ou qualquer outro time de futebol, da qual Donato pouco participa. Apenas um trecho da conversa lhe desperta a atenção:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Hoje eu recebi o aviso prévio. Os homi vão istalá uma cancela computadorizada onde os cliente infia um cartão e a cancela abre. Não vão mais pricisá dos meus serviço – diz Angelílson, cabineiro de um estacionamento das imediações.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Donato pede outro conhaque. No caminho pra casa, sentado no fundo de um ônibus vazio, se esforça para não vomitar com toda aquela chacoalhação. Logo que desce na Avenida São João, ele se inclina atrás de uma lata de lixo e vomita até as tripas. Sai um sangue viscoso e amarelado.Enquanto está na frente da porta da kitchnete, lutando para encontrar o buraco da fechadura, ouve uma outra porta se abrindo atrás de si. É a Rosa, sua vizinha. Ela usa um vestido florido que vai até a panturrilha, não escondendo toda a sua corpulência e, sem mangas, revelando seus braços largos e molengas. Ela tem o cabelo crespo e volumoso preso para cima. Rosa convida Donato para entrar. Ele aceita o convite, não por desejá-la em especial, apenas pela companhia. Logo ele a coloca de bruços sobre o balcão da cozinha americana e levanta seu vestido. Abaixo da bunda, Donato avista aquele chumaço de cabelos, também crespos, que mesmo assim revela aquela protuberância avermelhada. Tasca um beijo de língua, como que por gratidão. Logo resolve penetrar, mas pelo efeito da bebida e pelo tamanho daquela bunda engordurada que de encontro à sua própria barriga inchada se torna uma obstrução, ele tem dificuldades. Luta para encontrar o buraco.Quando finalmente parece invadir alguma coisa que seja, já é tarde. Seu pau já amoleceu. Como que com um rabo entre as pernas, Donato recolhe as calças arriadas em torno dos seus pés e as puxa para cima. Ouve uma risadinha saindo da boca de Rosa.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- O que foi, meu amor, não te dou mais tesão? – diz ela, em tom jocoso.Donato nota um pedaço de alface enganchado nos seus dentes da frente.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Acho que eu bebi demais – ele se explica.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Bebeu demais? Eu acho que cê tá virando viado, hein Donato?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Sua risada se torna cada vez mais alta. O pedaço de alface mais aparente.Então Donato defere um tapa com a mão bem aberta no rosto de Rosa. Ato contínuo, ela cai. Quando volta a si, Rosa se levanta e avança em cima de Donato, aos berros. Agarra ele pelo pescoço. Donato percebe que terá certa dificuldade em controlá-la, pois Rosa é uma mulher grande. Isso se ele não tomar um pau dela ali mesmo.Enquanto é sufocado, ele começa a apalpar o balcão da cozinha americana. Percebe, entre sua mão direita, algo que parece um rolo de massa. Apanha o objeto e dá uma paulada na têmpora esquerda de Rosa que, ato contínuo, despenca no chão. Observa ela gemendo, agonizante, com as mãos sobre a cabeça ensangüentada. Nota que seu sovaco é peludo.Então Donato se coloca sobre ela com o rolo de massa em uma das mãos e lhe defere uma seqüência de pauladas na cabeça. De repente, ela pára de gemer.Ele se levanta, fecha a camisa estampada e prende o cinto. Não precisa mais lutar para encontrar o buraco, a fechadura do seu apartamento gira com facilidade. Donato vai até o banheiro, se inclina sobre a pia e joga água no rosto com ambas as mãos. Também bebe um bocado, direto da torneira. Se deita, reclinado sobre a cabeceira da cama. Acende um cigarro, apanha um copo estrategicamente posicionado sobre o criado mudo, ao lado de sua garrafa de conhaque. Enche até a boca e vira de um gole. Liga a TV, não porque deseja assistir algo em especial, apenas pela companhia.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4250515457249620938-4616733304792135211?l=semanualdeinstrucoes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semanualdeinstrucoes.blogspot.com/feeds/4616733304792135211/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4250515457249620938&amp;postID=4616733304792135211' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4250515457249620938/posts/default/4616733304792135211'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4250515457249620938/posts/default/4616733304792135211'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semanualdeinstrucoes.blogspot.com/2008/05/anonimato-conto.html' title='ANONIMATO'/><author><name>Carlos Messias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13081313300517689304</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='31' src='http://3.bp.blogspot.com/-UyMA4xgDMk4/ThN11S_cFgI/AAAAAAAAAGg/rbObZKmGK8M/s220/gates.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4250515457249620938.post-2684308415332809226</id><published>2008-05-21T11:01:00.000-07:00</published><updated>2010-06-15T23:09:31.549-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Conto'/><title type='text'>AQUI SE FAZ, AQUI SE PAGA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;I&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já eram dez da manhã do sábado de carnaval e os Alcântara ainda não tinham saído de viagem.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Benvinda, não esquece de fechar as janelas caso chova, nem de dar comida para o Tobias – disse dona Eugênia Alcântara, enquanto Benvinda ajudava a carregar a mini-van da família.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Pode deixar, Dona Eugênia.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Aqui estão cinqüenta reais, caso você precise comprar ração ou comida. Também é para pagar o rapaz da água.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Tá bom. Obrigada.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;E assim a matrona, seu marido e dois filhos pequenos, de sete e cinco anos, saíram daquela garagem de prédio de classe média com a perua carregada, deixando Benvinda com a chave dos fundos do apartamento. Logo que ela entrou, fechando a porta atrás de si, sentiu-se a dona do pedaço, rainha daquele apartamento com quatro suítes e uma belíssima sala equipada com bar e home-theater. Tobias, um maltês, mascote da família, não tardou em receber a empregada com entusiasmo e lambidas na canela, tornando-a a substituta imediata de sua família ausente.A princípio, Benvinda estava confinada à área de serviço, que incluía cozinha e dispensa, pois a porta que dava para o corredor e a outra porta, que dava para a sala, estavam trancadas. Mas esse era um contratempo para o qual Benvinda havia se precavido, tendo mantido em seu poder a chave do corredor, que por descuido da construtora, abria a porta de todos os demais aposentos da residência.Com um sentimento de benevolência e uma euforia proibitiva por estar cruzando a linha do que lhe era permitido, Benvinda virou a chave na maçaneta da porta que dava para o corredor: pronto, aquele era o seu castelo particular. Ela começou pelo dormitório principal, ou seja, o aposento ocupado por dona Eugênia e seu Joaquim. Seu primeiro passo foi revirar todas aquelas portas brancas com puxador dourado que compunham o guarda-roupas. Sem a obrigação de guardar alguma peça, ou de tirar o pó que penetrava pelas aberturas do embutido de madeira, Benvinda pôde provar as roupas de sua patroa, uma a uma, experimentando diversas combinações até encontra o hobby azul claro de seda que ela vestiria após o banho. Pela primeira vez em muito tempo ela pôde se despir de porta aberta, tendo tempo e um espelho comprido o suficiente que lhe permitisse observar a si própria por inteiro. Apesar da moldura dourada, o reflexo era o mesmo de quando ela perscrutava a si própria com o espelho de mão, porém agora ela podia ter uma visão do todo. Seus seios, pequenos, continuavam a pender levemente para baixo, sua barriga se mantinha sutilmente empinada, os braços continuavam brancos e esquálidos, os cabelos negros se mantinham emaranhados, em cima e embaixo, além de sua postura, que como quem tivesse passado a vida carregando sacas de arroz nas costas, permanecia arqueada. Ela virou a torneira, deixando a banheira encher até o topo com água morna, despejou um produto envasado em um pequeno frasco de plástico que ela logo percebeu que tinha a função de espumificar a água, então apertou o botão da hidromassagem. Benvinda deve ter permanecido ali deitada por horas, esfregando-se com força para tirar a sujeira, que não era muita, e a pobreza do corpo até o ponto de quase esfolar-se. Também foi o suficiente para que ela relaxasse e desse em seus cabelos um belo banho de creme. Já de pé, ela se secou com calma e cautela, esfregando aquela toalha de algodão felpudo, lavada e amaciada por ela própria, até que a mais ínfima cavidade de seu corpo estivesse seca. Depois ela se enfiou no hobby de seda, percebendo que ele ficava extremamente largo para o seu porte físico, e pôs-se trespassar os cabelos com o com o secador, aparelho que nunca havia se atrevido a utilizar em decorrência da enorme quantidade de energia elétrica que despendia. Demorou bastante passando a escova pelos cabelos e ainda experimentou a chapinha de sua patroa, que então teve o segredo dos cabelos lisos e volumosos revelado. IISentindo-se limpa como nunca antes na vida, Benvinda desfrutava de alguns momentos de sossego, enquanto se esparramava pelo sofá de couro da sala, assistindo o programa do Luciano Huck na TV de plasma 42 polegadas. Foi quando o interfone tocou, lembrando-lhe que ainda tinha uma razão de estar ali, e avisando que o entregador de água estava subindo. Como era costume nas tardes de sábado, Denis adentrava a porta do elevador de serviço todo suado, provavelmente por fazer seu itinerário de bicicleta, com um galão de água sobre o ombro direito. Benvinda sempre notara os contornos definidos e vigorosos de seus braços, a tonalidade alaranjada de sua cútis, o fogo desejante em seu olhar, porém nunca se sentiu apta a corresponder, primeiro pelo seu próprio sentimento de inadequação, segundo pelos olhares de repreensão que Dona Eugênia disparava quando via Denis ali, escorado no balcão da cozinha, insinuando-se corporeamente para a empregada. Porém, agora, não havia inadequação, Benvinda se sentia tão à vontade naquele roupão de seda quanto sob seus cabelos recentemente dotados de brilho e maciez; tampouco Dona Eugênia representaria qualquer empecilho, pois ela já estaria a centenas de quilômetros de distância.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Tá sozinha? – perguntou o malandro, notando a súbita disponibilidade da doméstica, que também se movia com propriedade em meio àquele espaço que há poucas horas era o seu local de trabalho.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Estou – disse ela.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Que desperdício – ele respondeu, com naturalidade, após dar um último suspiro em decorrência do esforço que fizera ao colocar o galão de água sobre o dispensador.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Você quer ficar?- reagiu, sedutora. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;-Agora eu não posso, ainda tenho um monte de entregas para fazer.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Ah...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Mas eu posso voltar mais tarde. Depois das seis.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Pode ser, vou ficar esperando - ela se sentia mais confiante do que jamais antes. Permitiu-se inclinar em direção ao rapaz, exalando seu cheiro de colônia francesa e revelando parte dos seus seios miúdos. Denis pegou-lhe pela nuca e proferiu-lhe um beijo de língua. Com um movimento sutil, porém decidido das mãos, derrubou aquele roupão de seda, vindo a desnudar a pobre moça. Antevendo a rapidinha apoiada no balcão da cozinha que lhe esperava, Benvinda preferiu refrear seu desejo e aguardar por uma situação mais condizente com seu atual sentimento de luxúria.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Agora não – disse ela, empurrando-o para trás com a palma da mão aberta. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;– Te espero às seis horas – voltou a colocar o hobby de seda sobre os ombros.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;E assim Denis se foi, mordendo o lábio inferior com os dentes de cima e um olhar que prometia um retorno fulminante. Então Benvinda, que estava de estômago vazio até então, abriu a geladeira e montou uma bandeja com mamão papaia, iogurte natural, pão de miga, algumas fatias de peito de peru e queijo brie. Postou-a no colo quando se sentou no sofá da sala, colocando os pés sobre a mesa de centro. Tobias postou-se ao lado dela e, com ele, ela compartilhou alguns itens daquele desejun fora de hora. Dona Eugênia, que nunca permitia que o cão se alimentasse de nada que não fosse ração, ficaria estupefata. Benvinda sorriu imaginando sua reação. Agora não havia divisórias entre ela e o cão, podia tratar-lhe como bem quisesse. Acordou com o som da TV ligada, por volta das dezessete horas. Caminhou até a porta dos fundos e a destrancou. Deixando o hobby cair pelo caminho, se dirigiu à suíte principal e retirou a colcha da cama que ela, há algumas horas, havia arrumado. Inseriu-se entre aquelas duas camadas de lençol macio e acomodou bem sua cabeça sobre o travesseiro de pena de ganso. Permitiu-se continuar a soneca. Sem ter ouvido o barulho da campainha ou os seus passos pelo apartamento, Benvinda sentiu Denis entrando com vontade. Uma vez na vida ela pôde trepar à seu bel prazer, sem receios nem ressalvas, atirando-se de um lado para o outro da cama king size, cheirando o frescor daquela roupa de cama que ela havia lavado e mordendo com vontade o travesseiro macio.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;III&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Haviam sido quatro dias de puro deleite. Cama, mesa e banho à vontade, ora só, ora acompanhada. Por fim a temida quarta-feira de cinzas havia chegado e Benvinda se obrigou a levantar às seis da manhã. Denis já havia deixado o apartamento há uma hora, pois tinha que trabalhar. Benvinda colocou o hobby de seda e a roupa de cama da patroa na máquina de lavar. Pôs-se a esfregar o chão do quarto e o banheiro com minúcia, atentando para qualquer fio de cabelo ou outro vestígio que denunciasse o que de ilícito ali tinha ocorrido. Recolheu a louça espalhada pela casa e colocou na lava-louças. Secou tudo com o pano de prato, enquanto a roupa centrifugava na secadora. Arrumou a cama com os mesmos lençóis e era como se nada tivesse acontecido. Retirou o jornal da área de serviço, onde Tobias fazia suas necessidades, única tarefa de doméstica que Benvinda não havia abandonado, e abriu a porta dos fundos. Quando despejava o jornal encharcado e mal-cheiroso na lixeira, que era dividida com o vizinho do andar, ouviu a porta que dava para as escadas se abrir. Era o Pieiro, zelador do prédio, vindo entregar um rolo seco com o jornal do dia. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- A patroa volta hoje? – perguntou o zelador.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Volta.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Acho que ela não ia ficar nem um pouco contente em saber que o rapaz da água ficou hospedado aqui durante o carnaval.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Você não vai contar para ela, vai? – disse Benvinda, amedrontada.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Isso vai depender de como você se comportar – respondeu Pieiro, com um sorriso maroto que revelava um dente incisivo faltando, prestes a abrir a braguilha da calça.Enquanto Benvinda cumpria a recentemente atribuída tarefa, ele ainda disse:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- É, minha filha... Aqui se faz, aqui se paga.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4250515457249620938-2684308415332809226?l=semanualdeinstrucoes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semanualdeinstrucoes.blogspot.com/feeds/2684308415332809226/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4250515457249620938&amp;postID=2684308415332809226' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4250515457249620938/posts/default/2684308415332809226'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4250515457249620938/posts/default/2684308415332809226'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semanualdeinstrucoes.blogspot.com/2008/05/aqui-se-faz-aqui-se-paga-conto.html' title='AQUI SE FAZ, AQUI SE PAGA'/><author><name>Carlos Messias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13081313300517689304</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='31' src='http://3.bp.blogspot.com/-UyMA4xgDMk4/ThN11S_cFgI/AAAAAAAAAGg/rbObZKmGK8M/s220/gates.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4250515457249620938.post-5905913979856912860</id><published>2008-05-21T10:59:00.000-07:00</published><updated>2010-06-15T23:12:55.642-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Conto'/><title type='text'>A MENOR DAS CRIATURAS (conto)</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;De uma hora pra outra, ele se tornava a mais ínfima partícula existente na Terra. Não que tivesse noção Física ou Geografia, mas, aos cinco anos de idade, ele conseguia se sentir ainda menor, sem ação, como se não estivesse lá. Não entendia como algo tão violento e imprevisível podia ser engatilhado em seu pai, sujeito às vezes tão afável. Caio apenas se amuava, com os braços encolhidos sobre a costela, mãos cruzadas abaixo da cintura, e os olhos fixos no pé.O problema, no caso, não era ele. A discussão se desenrolava por algum motivo que ia além do que ele era capaz de compreender. Era novo demais para entender como um cara aparentemente legal podia, subitamente, se tornar em um animal tão estúpido:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Sua filha da puta – gritava o pai, a plenos pulmões –, quantas vezes não falei para você não se meter?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Até quando você quer que eu fique fazendo papel de idiota? – redargüiu a mãe, outra presa jovem demais para ter que lidar com tamanha violência.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Cala a boca, desgraçada!- Não calo. Na hora de fazer é fácil, agora você vai ter que escutar – desafiou.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Escutar o caralho...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Antes mesmo que o caralho terminasse de deixar sua boca, a mão esquerda já estava sobre o braço dela, primeiro apertando, como se fosse esmagá-lo, e depois empurrando, como se estivesse se expurgando de alguma praga. Mesmo alto e encorpado, surpreendia, tanto Caio quanto sua mãe, com uma força tão cavalar. Ela foi atirada tão facilmente, sobrevoou aquele metro e meio com tamanha leveza, porém aterrissou no interior da banheira com extrema brusquidão, se desconjuntando toda e gemendo como um boi a beira do abate. Mais um contra-senso para Caio ter de assimilar. Mulher forte, decidida, levantou-se, avançando contra aquele homem que também era amargo demais para a pouca idade que tinha.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Seu filho da puta, não faz isso na frente do meu filho – ela advertiu, com o dedo em riste, aproximando-se do bigode dele e revelando o roxo medonho no braço flácido. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Ainda demonstrando soberania, ele ergueu o punho cerrado, ameaçando impor-se mais uma vez. Antes que pudesse fazer algo de que se arrependeria, ela antecipou um tapa na cara, com a mão bem aberta, saindo correndo para a sala logo em seguida. Ele foi atrás, também passando por Caio, como se ele ali não estivesse. Ainda não certo de onde pisava, Caio seguiu em passos curtos e temerosos. Não sabia o que lhe aguardava.Como conseqüências intermediárias são capazes de frustrar expectativas extremas, o simples fato de seus pais estarem gritando civilizadamente foi-lhe motivo de alívio. Mas, como tudo que é bom passa rápido, ele logo aprendeu, os ânimos voltaram a se elevar. Sua mãe tentou intervir:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Caio, meu filho, vai para o quarto – ela falou docilmente, interrompendo o acesso de histeria.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Não, Caio, fica aí – interveio o pai.- Ele não precisa ver isso – tornou-se a se exaltar.- Ele também é meu filho, e se eu estou dizendo para ele ficar – exasperava-se –, ele vai ficar, porra! -&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt; Não vai, não! –saiu correndo, desta vez em direção à cozinha. Esta dava acesso ao quarto de empregadas, justamente onde ela se trancou.Como Caio estava próximo à porta da cozinha, entrou logo atrás dela, antecipando a passagem truculenta do pai, como se ele não estivesse ali.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Um estrondo. Dois, três, quatro... Extremamente potentes, ruidosos, matando uma esperança de cada vez. Como estes não resolveram, logo vieram os ponta-pés, ainda mais determinados. Escutava-se os estalos da madeira cedendo, junto aos gritos exasperados do outro lado da porta.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Não! Não! Não! Pára – ela gritava. Só para aquela tábua plana embarrigar-se para dentro só até o ponto de estraçalhar-se ao meio.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Caio não mais espreitava. Agora esperava na cadeira revestida de fórmica, com seus joelhos pequenos e lustrosos espremendo-se um contra o outro. Ergueu a cabeça apenas para ver seu pai saindo debaixo do varal e entrando no quarto com passos firmes. Ergueu um pouco mais e viu a imagem da Nossa Senhora pregada nos azulejos amarelados, de tão encardidos. Não que ele jamais tenha-os visto de outra forma.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4250515457249620938-5905913979856912860?l=semanualdeinstrucoes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semanualdeinstrucoes.blogspot.com/feeds/5905913979856912860/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4250515457249620938&amp;postID=5905913979856912860' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4250515457249620938/posts/default/5905913979856912860'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4250515457249620938/posts/default/5905913979856912860'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semanualdeinstrucoes.blogspot.com/2008/05/menor-das-criaturas-conto.html' title='A MENOR DAS CRIATURAS (conto)'/><author><name>Carlos Messias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13081313300517689304</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='31' src='http://3.bp.blogspot.com/-UyMA4xgDMk4/ThN11S_cFgI/AAAAAAAAAGg/rbObZKmGK8M/s220/gates.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4250515457249620938.post-767892404722908875</id><published>2008-05-21T10:57:00.001-07:00</published><updated>2011-11-18T07:25:53.734-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crônica'/><title type='text'>DE JANELAS BEM FECHADAS</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Moro ao lado de um convento. Não sei de que igreja ou congregação, nem se com freiras, padres, bispos, cardeais ou toda a patota junta. Só sei que é um convento, pois, na infância, quando a minha bola de futebol foi parar ali, uma velhinha com aqueles trajes de pingüim abriu a porta da frente para devolver-me o objeto circunférico. É uma casa grande, cuja entrada fica na rua transversal à minha, que culmina na lateral do prédio em que resido, ocupando quase meia quadra. Do meu quarto, localizado no 7º andar, tenho vista cativa para aquele palacete com sólidas paredes de concreto e janelas sempre fechadas.A construção me despertou fascínio logo que pra cá me mudei, aos tenros oito anos de idade. &lt;br /&gt;Quando a minha bola ali caia, era uma desculpa mais do que plausível para pular o muro e, uma vez no jardim, aproveitar para espiar. Passado algum tempo, foi colocada uma grade de arame entre o casarão e o meu prédio, o que diminuiu a incidência com que a minha bola ali caía, assim como impossibilitou o acesso de crianças bisbilhoteiras como eu. Depois disso, o único contato que voltei a ter com o seu interior foi quando minha bola foi devolvida – o que não se repetiu, aumentando a minha frustração e se transformando em ódio diante do que aquela fundação representava.Aos onze anos, quando vivia o ápice do meu ímpeto adolescente, eu atirava garrafas, latas, roupas e qualquer outro objeto de que pudesse me dispor em suas cercanias. Era um impulso estúpido que, analisado em retrocesso, só podia significar um desejo de interação - oferecer alguma contribuição externa, mesmo anárquica, àquela comunidade fechada. Mais ou menos na mesma época, encontrei um representante direto sobre o qual depositar minha ira. &lt;br /&gt;Era um dos habitantes, um senhor baixo, coxo e roliço que tinha o hábito de caminhar na lateral do convento, um corredor a céu aberto que percorria toda sua extensão e era separado do quintal dos fundos por um muro. Munido de um livro (possivelmente uma bíblia), ele andava lentamente de uma ponta até a outra, incontáveis vezes, maneando sua cabeça branca e ostentando a barriga arredondada.Quando me dei conta daquilo, que logo se mostrou uma atividade diária, fiquei estupefato. Simplesmente não entendia a finalidade de um exercício tão mecânico, oprimido por quatro paredes e uma folha de papel. Como na época eu defendia ideais pretensamente libertários, não tinha outra reação senão sair à janela e gritar: “Vai caminhar na rua!”. O velho simplesmente parava, olhava para cima e balançava a cabeça em reprovação, retornando à sua atividade como se nada tivesse acontecido – o que me deixava ainda mais fulo.Quinze longos anos se passaram, terminei o colégio e a faculdade, iniciei a pós-graduação, entrei e saí de um número considerável de empregos mas, como pude constatar nesta tarde, o ritual do beato continua exatamente o mesmo – com exceção de que sua cabeça branca foi se tornando cada vez mais rareada. Agora que estou desempregado – ou melhor, trabalhando como autônomo, como prefiro me justificar –, o fenômeno do andarilho circunspeto voltou a me assombrar. Não é mais raiva, tampouco fascínio - apenas curiosidade. Só sei que enquanto eu engrenava em uma vida ocupada e produtiva, lutando com unhas e dentes para tentar chegar a algum lugar, ele continuou aqui, caminhando sem destino. Abri mão dos meus hábitos mais particulares, releguei rituais que antes me eram fundamentais, e ele continua defendendo a caminhada da reclusão. Sinto arrepios quando constato que agora, quando minha procura atingiu um beco sem saída e me vi obrigado a voltar para o lugar onde comecei (a janela do meu quarto, que fica ao lado do computador, diante do qual hoje finjo que trabalho), vejo que fui tão longe quanto ele, que daqui nunca saiu.&lt;br /&gt;Terá sido tudo por nada? Deveria eu ter permanecido centrado em mim mesmo ao invés de ter saído em uma corrida frenética contra o tempo? Quem se saiu melhor, eu, que perdi de lavada? Ou ele, que se absteve de tentar? É ele que está ausente do mundo ou seu eu que mantenho as janelas fechadas para mim mesmo? Nada me aterroriza mais do que a idéia de chegar nessa idade e ver que continuo no mesmo lugar. Olharei para esses dias com remorso por ter tão obcecadamente me esforçado para trabalhar ao invés de me dedicar às pequenas coisas que me dão prazer. Como observar o velho caminhar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4250515457249620938-767892404722908875?l=semanualdeinstrucoes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semanualdeinstrucoes.blogspot.com/feeds/767892404722908875/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4250515457249620938&amp;postID=767892404722908875' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4250515457249620938/posts/default/767892404722908875'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4250515457249620938/posts/default/767892404722908875'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semanualdeinstrucoes.blogspot.com/2008/05/de-janelas-bem-fechadas-crnica.html' title='DE JANELAS BEM FECHADAS'/><author><name>Carlos Messias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13081313300517689304</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='31' src='http://3.bp.blogspot.com/-UyMA4xgDMk4/ThN11S_cFgI/AAAAAAAAAGg/rbObZKmGK8M/s220/gates.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4250515457249620938.post-2309497324674473932</id><published>2008-05-21T10:56:00.000-07:00</published><updated>2010-06-15T23:21:26.346-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Conto'/><title type='text'>KETCHUP (conto)</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Sua paciência havia se esgotado. Onze e meia da noite, véspera da entrega de sua monografia, centenas de pormenores a serem resolvidos, e a bendita da Bianca ainda não tinha chegado. Em menos de dez horas, ele estaria no trabalho. De lá, iria direto para a universidade, de modo que quaisquer acertos a serem realizados na sua tese não poderiam passar daquela madrugada.Então eis que em meio ao congestionamento caótico da Avenida Hélio Pelegrino, Reinaldo distingue os faróis piscantes do Celta prateado de Bianca em meio aos demais ali enfileirados. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Oi – ela falou, singelamente inclinando a cabeça para frente, na expectativa do beijo que achava estar por vir.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Porra! Achei que eu tinha falado para você chegar às onze – ele respondeu enquanto batia a porta atrás de si.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- É que você não viu o trânsito que eu peguei – argumentou sua assertiva namorada, já totalmente recostada no assento do carro. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;– Eu saí da agência quinze pras onze.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Mas será possível que toda quinta-feira é essa putaria? No dia do seu rodízio eu te deixo e te busco na agência no horário exato. Já no dia do meu, em que tudo que eu te peço é para me buscar na porra do mestrado, às onze horas da noite, você chega atrasada.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Reinaldo percebeu que o bando de jovens parados no trânsito ao seu lado assistia à cena toda. Pigarreou, na tentativa de se acalmar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Mas que pressa toda é essa para chegar em casa?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Você não sabe que amanhã é a entrega da minha tese?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Achei que você já tinha terminado.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Terminar, eu terminei faz tempo. Mas há certos detalhes de que eu tinha me esquecido e o meu orientador acabou de mencionar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- E a culpa é minha?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Não, não é. Mas colaborar também não machuca.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Mas você não está vendo o trânsito infernal que está nesta avenida?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Saísse mais cedo. Você não sabe se organizar? Não é possível que todo publicitário trabalhe até as onze da noite.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Eu já tinha terminado fazia tempo. Estava só fazendo hora, eu e a Cíntia, esperando dar quinze pras onze para vir te buscar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Bom, da próxima sai mais cedo, por favor – disse ele, colocando um ponto final na discussão.Foi o suficiente para que eles estabelecessem uma trégua. Pelo menos momentânea, que durou até  finalmente conseguirem parar no semáforo da Avenida Santo Amaro.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Estou com fome – Reinaldo declarou.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Eu também.- Entra aqui no Burguer King. A gente pega os lanches e leva pra casa.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Eu não estou a fim de comer Burguer King.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- E o que a princesa quer? – provocou.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Não sei... Vamos lá na pizzaria Brás.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Minha querida – ele respondia, contendo-se – eu tenho que terminar o trabalho essa noite. Não tenho tempo para ir comer pizza no Brás. Aproveita agora que o semáforo abriu e entra nesse drive-through.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Mas eu não agüento mais esse Burguer King.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- O que você sugere, então?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Vamos no Mc Donald’s.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Bianca, o Mac está na Faria Lima, no sentido contrário. Você quer ir até lá, só para a gente pegar esse trânsito todo na volta?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- A gente pode cortar caminho.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Por que você não se lembrou disso quando veio me buscar? Só agora, que você quer comer Mac ao invés de Burguer King, tem essa brilhante idéia? Sejamos práticos, entra aqui no drive, por favor.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Perceptivelmente a contragosto, Bianca assim o fez. O tempo que eles levaram na fila do drive foi equivalente ou maior ao quanto eles demoraram a percorrer aquele meio quarteirão na Avenida Hélio Pelegrino. Bianca pensou em mencionar esse fato, mas relevou.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Entra aqui, vamos cortar pela Lavandisca – sugeriu Reinaldo, quando já estava com o saco cheio de sanduíches ao lado dos pés, e uma bandejinha com dois copos de refrigerante no colo. Quando foi fazer a curva, Bianca, que dirigia rápido, reduziu com brusquidão.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Toma cuidado, porra! Olha o que caiu de refrigerante na minha calça.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Desculpa, mas você me avisou em cima da hora.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Você já ouviu falar em reduzir as marchas, ao invés de socar o pé freio? Andar com você é como estar em cima de uma mula desembestada...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Bianca se absteve de fazer qualquer comentário. Mesmo compreendendo o estado de nervos do seu namorado, às vésperas da entrega da sua tese de mestrado, ela tinha o seu limite. E críticas quanto às suas habilidades como motorista não contribuíam em nada para que ela se mantivesse no limiar da calma. Resolveu comer umas batatinhas para se acalmar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Me passa o catchup – ela pediu a Reinaldo.Ele apanhou aquele saco pardo e vasculhou o seu interior, tentando equilibrar a bandeja com os refrigerantes sobre o seu colo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Acho que eles esqueceram.- Mas a gente pediu, expressamente, para que eles colocassem catchup.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Acho que eles esqueceram.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Esse Burger King é uma merda, mesmo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Acabou o catchup lá de casa?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Acabou.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Bom... paciência.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Paciência nada, vamos comprar no Pão de Açúcar, já que estamos passando por aqui.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Mas eu não te falei que estou com pressa?-&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt; Falou, mas você sabe que eu não como batata frita sem catchup.Ela encostou pelo meio-fio em frente ao supermercado.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Mas pelo amor de Deus!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Pelo amor de Deus, nada. Só porque você se enrolou com os seus compromissos eu tenho que ficar sem catchup?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Ter que ir almoçar na casa dos seus pais no domingo também não ajudou. Eu te falei que eu precisava dar uma última revisada no trabalho.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Foi o que bastou. Bianca engatou a primeira e saiu cantando pneu. A bomba relógio que havia sido acionada no momento em que Reinaldo não correspondeu ao beijo, logo que entrou no carro, finalmente disparou.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Mas você é um mesmo um egoísta – ela gritava. – Só se preocupa com as suas coisas. É muito para você ir passar um domingo na casa dos meus pais?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Não estou dizendo...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Não está dizendo o caralho! Você só sabe me pegar no pé. Não reconhece nada que eu faço.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Reconhecer o que você faz? Essa é boa – equiparou o seu tom de voz ao dela. - Me diz, Bianca, o que você faz de tão especial assim por mim?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Bianca se calou. Apenas se virou e deferiu-lhe um olhar de puro ódio. Tão compenetrada nessa ação, que não viu o Golf preto vindo na perpendicular.O Celta foi atingido na lateral, um golpe duro, violento. Reinaldo se viu jogado de um lado para o outro, sem se dar conta do que estava acontecendo. Amuou-se perante aquele estrondo que parecia eclodir no pára-brisa que se espatifava. Quando voltou a si, ainda sem abrir os olhos, passou a mão na própria coxa, removendo os cacos de vidro. Notou que sua calça jeans estava molhada. Ameaçou uma risada, pois Bianca havia finalmente feito com que o refrigerante se derramasse por completo. Mas aquele líquido era muito espesso para ser refrigerante. Abriu os olhos de uma vez e percebeu que a cabeça dela pendia sobre o seu ombro. Livrou-a do cinto de segurança e tentou endireitar seu corpo no assento. Foi quando viu com clareza o sangue viscoso que brotava por debaixo daqueles cabelos espessos e macios.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4250515457249620938-2309497324674473932?l=semanualdeinstrucoes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semanualdeinstrucoes.blogspot.com/feeds/2309497324674473932/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4250515457249620938&amp;postID=2309497324674473932' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4250515457249620938/posts/default/2309497324674473932'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4250515457249620938/posts/default/2309497324674473932'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semanualdeinstrucoes.blogspot.com/2008/05/ketchup-conto.html' title='KETCHUP (conto)'/><author><name>Carlos Messias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13081313300517689304</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='31' src='http://3.bp.blogspot.com/-UyMA4xgDMk4/ThN11S_cFgI/AAAAAAAAAGg/rbObZKmGK8M/s220/gates.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4250515457249620938.post-8917703740150964963</id><published>2008-05-21T10:54:00.000-07:00</published><updated>2010-06-15T23:22:01.887-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Conto'/><title type='text'>ENTRESSAFRA (conto)</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Ele estava dirigindo com Ela ao lado, tão próxima que sentia o seu joelho com as costas da mão na troca de cada marcha. Era uma manhã fresca em que o Sol, ainda baixo, proporcionava um brilho tão dourado quanto efêmero. Eles estavam saindo de um motel no Morumbi após passarem sua primeira noite juntos. Iam em direção ao carro dela, estava estacionado na rua em que se encontraram na noite anterior. No caminho, conversavam empaticamente, trocando sorrisos sutis e ouvindo, bem ao fundo, uma música tranqüila que Ele havia colocado para tocar.Lá chegando, se surpreenderam com a multa fixada no pára-brisa dela. No escuro da noite, não notaram a placa de proibido estacionar. Foi uma chateação, mas nada que pudesse interferir no encanto daquele novo começo, de dia e, Ele esperava, de uma nova etapa de sua vida. Há tempos procurava alguém com quem compartilhar um nascer do Sol ou de seus discos folk. A moça com quem antes fantasiava em nada se parecia com Ela, mas agora não conseguia pensar em ninguém melhor para ocupar o posto ainda vago.Despediram-se com um bejo terno, sucedido por um sutil afastamento do rosto, sem sequer tirarem os olhos um do outro. Ela entrou no Uno vermelho e seguiu rua abaixo. Ele a acompanhou até a primeira esquina, quando seguiu em frente enquanto Ela dobrava à direita. Enquanto a ultrapassava, apoiou o braço direito no banco do passageiro e deu uma última e decidida olhada para a motorista do carro ao lado. Ela se mantinha atenta à manobra que executava, olhando atentamente para fora do veículo enquanto manobrava com bastante cautela.Estava absolutamente perfeita, com a pele clara contrastando com um tom mais escuro dos cabelos loiros ainda molhados. Estava com os dois olhos bem abertos e colocava o lábio superior sobre o inferior – ele ainda não tinha como saber que essa se mostraria uma idiossincrasia nos momentos de indecisão. Ao recolher aquele conjunto de traços que o atingia em cheio naquele espaço tão curto de tempo, soube que encontrara algo precioso. Ainda enquanto estava prestes a seguir seu caminho, Ela notou que estava sendo observada e projetou a boca carnuda e adocicada, endereçando-lhe um último beijo de afeição. “Desse mato sai cachorro”, disse para si próprio enquanto a seguia. Mesmo que agora, só em pensamento.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4250515457249620938-8917703740150964963?l=semanualdeinstrucoes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://semanualdeinstrucoes.blogspot.com/feeds/8917703740150964963/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4250515457249620938&amp;postID=8917703740150964963' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4250515457249620938/posts/default/8917703740150964963'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4250515457249620938/posts/default/8917703740150964963'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://semanualdeinstrucoes.blogspot.com/2008/05/entresafra-conto.html' title='ENTRESSAFRA (conto)'/><author><name>Carlos Messias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13081313300517689304</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='31' src='http://3.bp.blogspot.com/-UyMA4xgDMk4/ThN11S_cFgI/AAAAAAAAAGg/rbObZKmGK8M/s220/gates.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
